Entrevista: Alvaro Assad – Diretor de “João o Alfaiate – Um Herói Inusitado” da Cia Etc e Tal


 
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Alvaro Assad

Por Renato Mello

Após uma exitosa temporada de estreia em São Paulo, a companhia carioca Etc e Tal apresenta no CCJF(Centro Cultural da Justiça Federal) seu mais novo trabalho, “João, o Alfaiate – Um Herói Inusitado”, adaptação da obra “João Mata Sete” dos Irmãos Grimm, em temporada entre os dias 29 de outubro e 19 de novembro.

Responsável pela direção, preparação mímica, texto(em co-autoria com Marcio Moura e Melissa Teles-Lôbo), além de integrar o elenco, Alvaro Assad concedeu esta entrevista parta o Botequim Cultural em que aborda aspectos da concepção do espetáculo e sua percepção pessoal do atual cenário do teatro infantojuvenil.

Joao o Alfaiate_8668_foto Rafael Bisbis

Foto: Rafael Bisbis

BC: – Que elementos você percebeu em “João Mata Sete” para transpô-lo ao palco e que poderiam se moldar à linguagem teatral da Etc e Tal?
AA: – João Mata Sete” foi um dos primeiros textos que trabalhamos como linguagem de Pantomima Literária (narração simultânea a ação em mímica) em 1997. Já conhecíamos as ricas possibilidades de jogo cênico. Duas décadas depois, estávamos decididos a montar um novo espetáculo e com linguagem cênica diversa dos que havíamos construído. A busca seria em uma direção de arte arrojada, como foi em “O Maior Menor Espetáculo da Terra” (2010). Fomos ao texto original de “João Mata Sete” e partimos dele como transformação para o espetáculo “João o Alfaiate – Um Herói Inusitado”. Agora, com uma busca de jogo que nos colocasse com elementos de cena que até então não tínhamos trabalhado, cenário e visagismo.

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BC: – Quem é João, o protagonista do espetáculo?
AA: – João é o alfaiate do Rei (interpretado por Marcio Moura). Ele costura as vestimentas de todos do reino e por um acaso do destino, que acontece na vida, mas nas histórias são às vezes mais fantásticas, ele mata 7 moscas que tentavam pousar em seu lanche. Ao bradar o ocorrido, o Bobo da Corte(interpretado por Melissa Teles-Lôbo) presencia e interpreta de forma bem maior do que o real. Esse feito chega aos ouvidos do Rei de forma heróica, indestrutível e insuperável. Pronto e está armada a confusão. João guarda um segredo durante todo o espetáculo, o que torne tudo o que ele faz mais do que inusitado.

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BC: – Uma das características do espetáculo é a utilização da linguagem corporal e da mímica. De que maneira esses instrumentos acrescentam no desenvolvimento da narrativa?
AA: – Vale ressaltar que a mímica é a linguagem principal do trabalho do Etc e Tal. Em todos os espetáculos ela faz parte fundamental. No espetáculo “João o Alfaiate” não poderia ser diferente, mas nesse caso, fazemos o trabalho gestual com objetos e esses objetos se destacam do cenário ou são o próprio cenário. Seja em 2 dimensões ou em 3 dimensões. Esse é o poder da arte da mímica.

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Foto: Rafael Bisbis

Foto: Rafael Bisbis

BC: – Algo que chama muito a atenção no espetáculo é a maneira como vocês trabalham o dimensionamento do espaço cênico. Gostaria que você abordasse sua concepção para as movimentações dos atores explorando essas questões da dimensionalidade propostas pela cenografia?
AA: – O cenário é uma verdadeira caixa de costuras/histórias. A cada aba temos um telão que define um espaço. Nossa concepção foi durante meses estudando como trabalhar geometricamente a movimentação do mesmo. Começamos com maquete até partir pra versão real. Pensamos em ambientes e desenhamos objetos que achamos necessários compor a história e que seriam fundamentais de presença para alinhar informações. Convidamos Tarcísio Zanon que fez diferentes desenhos de arte em preto e branco para cada painel. Passamos para a coloração e consequente construção da maquinaria cênica. Nesse momento chega Raquel Theo, que coloriu cada telão fazendo compor o que desejávamos como “tons pra história”. Ela e Rafael Bisbis partiram, também para cenotecnia e resolução de truques do cenário(só assistindo para aproveitar). Passada essa fase, era o momento de juntar os movimentos que criamos nos ensaios sem cenário com o cenário finalmente construído. Foi trabalho árduo de precisão até dominar a maquinaria, mas rapidamente éramos um conjunto só. Os movimentos mímicos comungam com os desenhos que ora estão nos desenhos, ora saltam dele se transformando em objetos reais.

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BC: – Qual a contribuição do visagismo de Cleber Oliveira para a concepção estética do espetáculo?
AA: – A direção de arte é um trabalho que comungou Cenário/Figurino/Visagismo. O figurino de Flavio Souza partiu de uma concepção centrada em Alfaiataria. E sempre sobrepondo com os desenhos de cenário para trocarmos com contrastes. Então, chegou o visagismo do Cleber de Oliveira que teve o desafio de caracterizar pela primeira vez o Etc e Tal. Nenhum de nossos espetáculos tem essa característica e o visagismo(maquiagem/próteses/cabelos) não poderia ser um obstáculo na encenação e sim um salto diferenciado. Impressiona o feliz encontro de todos de nossa ficha técnica.

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BC: – “João o Alfaiate” começou sua carreira em São Paulo. Como o público e crítica locais reagiram à proposta de vocês?
AA: – Etc e Tal é uma companhia carioca que tem sua sede na Cinelândia, mas o “pé na estrada”. E muito dessa estrada é em São Paulo. Tanto o público, como a crítica já nos reconhece como companhia de repertório e linguagem. Recepção foi ótima com público e olhares da grande mídia e críticos teatrais.

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BC: – Vocês receberam 5 pré-indicações ao Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro infantil Jovem. Que significado isso tem para você?
AA: – Indicações a Prêmios são balizadores de olhar crítico, de programadores culturais e público. Claro, que é e será sempre subjetivo, mas ficamos felizes pela visão das indicações ao trabalho arrojado do Cenário, do Visagismo e do trio de atuadores do Etc e Tal.

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Foto: Rafael Bisbis

Foto: Rafael Bisbis

BC: – Que diferenças você percebe no teatro infantojuvenil que é feito no Rio e em São Paulo, do ponto de vista do método de produção, qualidade dos espetáculos e desenvolvimento de linguagem?
AA: – Não vejo diferença! No Rio de Janeiro, temos companhias que produzem espetáculos com arrojo de linguagem como Artesanal, Pequod, Moitará,… assim como em São Paulo tem Le Plat du Jour, Sobrevento, Pia Fraus, … A diferença está no mercado de apresentação dos espetáculos. Todas essas participam de temporadas locais, festivais, editais.

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BC: – Como você vê o teatro infantojuvenil que se faz hoje? Te agrada o nível técnico e as propostas, ou você ainda percebe uma lacuna a ser preenchida?
AA: – O teatro é amplo e possível de diversas demandas. O teatro para bebês, infantil, jovem e para todas as idades cada vez mais recebe e troca em intercâmbios nacionais e internacionais. Diversas companhias nacionais são referência em estilos e isso é enriquecedor. As questões de gosto, estilo e evolução são caminhos e fazem parte do todo. Temos festivais internacionais no Brasil (FILO-Londrina, FIT-Rio Preto, FIL-Rio de Janeiro, FENATIB-Blumenau/SC, Fenatifs-Feira de Santana/BA …) que têm nas suas programações parte de espetáculos para todas as idades ou até mesmo exclusivamente para eles e a demanda de espetáculos nacionais para selecionar é grande. O resultado disso é o número de espetáculos que ano após ano fomentam e fermentam nossos palcos. Só crescem.

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BC: – Quais expectativas vocês aguardam da temporada que farão no CCJF?
AA: – Alegria de estrear nosso 10º espetáculo de repertório na cidade natal e na Cinelândia. Praça de nossa sede. Expectativa? Público vindo de todos os bairros. Sim. Que possamos nos divertir, sempre.


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