Entrevista: Ana Carolina Sauwen – Bando de Palhaços


 

Por Renato Mello

Ana Carolina Foto: Helena Marques

Ana Carolina Sauwen  – Foto: Helena Marques

Formado pelos atores Ana Carolina Sauwen, Camila Nhary, Mariana Fausto, Tiago Quites, Pablo Aguilar, Filipe Codeço e Matheus Lima, o Bando de Palhaços está comemorando sete anos de atividade. Nascido durante a “Enfermaria do Riso”, programa de extensão da UNIRIO voltado para a formação e o treinamento de estudantes de teatro para atuarem como palhaços na pediatria de hospitais, o grupo vive um fértil período criativo, que começou com o cortejo musical “Rio do Samba ao Funk”, seguido do espetáculo “Jogo!”, reconhecido por público, crítica e que rendeu alguns dos mais significativos prêmios do teatro voltado ao público infantojuvenil como o Zilka Sallaberry e o CBTIJ.

Nesta entrevista gentilmente concedida ao Botequim Cultural, sua integrante Ana Carolina Sauwen comenta a trajetória,  a investigação cênica e as singularidades que norteiam o trabalho do Bando de Palhaços, assim como suas perspectivas futuras.

O Bando de Palhaços voltará a apresentar “Jogo!” em curta temporada no Teatro Dulcina, Centro, de 18 de novembro a 3 de dezembro, sempre às 16 horas. O Botequim Cultural assistiu o espetáculo na temporada realizada no Teatro Ipanema e a crítica pode ser lida neste link(AQUI)

-X-X-X-X-

Foto: Helena Marques

Foto: Helena Marques

BC: – O “Bando de Palhaços” nasceu de uma proposta universitária de atuação como palhaços em pediatrias e hospitais. Como surgiu a necessidade de se expressarem também como um grupo de criação autoral?
ACS: – Todos os integrantes do Bando são atores profissionais formados pela UNIRIO, onde além da graduação em Artes Cênicas, nos especializamos na linguagem do palhaço. Assim, todos sempre tiveram paralelamente à atuação no hospital trabalhos como atores, seja em espetáculos, cinema ou TV. A questão da criação de espetáculos autorais sempre esteve presente nos interesses do grupo. Nosso primeiro espetáculo “Sobre Narizes e Jalecos”, teve como base de criação o universo hospitalar. Posteriormente, conforme intensificamos a relação do grupo e a criação de diversos números e cortejos musicais quisemos, naturalmente, investir na criação de espetáculos do Bando com outras temáticas, onde pudéssemos mesclar tanto as nossas experiências individuais como atores quanto os conhecimentos específicos da palhaçaria que acumulamos ao longo desses anos.

.

BC: – Quais foram as principais dificuldades para um grupo como o “Bando de Palhaços” se manter em plena atividade nos últimos 7 anos?
ACS: – Sem dúvida, as principais dificuldades são, como para todos os grupos de teatro e artes em geral no Brasil, financeiras. Especialmente agora, vivemos um momento muito delicado da cultura no nosso país, um verdadeiro desmonte inclusive com perdas de direitos que já haviam sido conquistados (e não podemos deixar essa questão de lado, afinal o apoio da esfera pública é fundamental para a manutenção da cultura viva). No Rio de Janeiro, a situação é especialmente triste, temos uma Secretaria de Cultura fechada ao diálogo com os artistas e que não pagou sequer o fomento do ano de 2016. O Bando estava entre os 204 projetos que haviam sido contemplados.  É muito difícil manter um trabalho contínuo de experimentação e pesquisa sem nenhum tipo de verba para isso, nós trabalhamos de forma que uma parte do que fazemos possa suprir o restante dos nossos desejos e vontades de pesquisa. Mas é uma luta contínua e uma instabilidade permanente, que certamente não contribuem em nada para o processo artístico.

.

BC: – Que diferença você crê que existe no olhar do palhaço de encontrar a singularidade dos esportes olímpicos(temática de “Jogo!”) e da identidade musical carioca(temática de “Rio do Samba ao Funk”) para construir espetáculos tão particulares? De que maneira o palhaço se apropria dessas temáticas de modo diferente de um artista convencional?
ACS: – As temáticas de cada um dos espetáculos já nos conduzem a caminhos distintos. Além disso, tínhamos realmente o interesse de experimentar técnicas diferentes em cada um deles. O “Rio do Samba ao Funk”, um cortejo cênico musical feito na rua, que conta a história da música carioca do primeiro samba gravado até as Batalhas de Passinho, surgiu como uma extensão da pesquisa que já vínhamos fazendo das possibilidades de encontro entre o palhaço e a música, um dos pilares da nossa identidade como grupo, e a rua, potencializando as possibilidades de ocupação de espaços públicos com acontecimentos culturais que ressignifiquem as paisagens cotidianas, proporcionando momentos inesperados de encontro, diversão e prazer para aqueles que cruzam os locais em que ele acontece e trabalhando intensamente com o improviso. Já no “Jogo!”, as premissas foram outras, tínhamos o desejo de trabalhar na criação de um espetáculo para palco, sem muito espaço para improvisação e no qual toda a comunicação se desse através do corpo, da palhaçaria e da comédia física, com partituras fixas mas que mantivessem o jogo e a natureza do palhaço presentes.
O palhaço é naturalmente um transgressor, subversor de realidades. Ele olha todas as situações e problemas a partir de uma lógica de jogo e relação extremamente particular. Então isso atravessa todos os nossos trabalhos. Uma pergunta que nos fizemos muitas vezes, especialmente, durante o processo do “Jogo!” foi: “O quê apenas um palhaço poderia fazer nessa situação?”, “De que forma apenas um palhaço poderia resolver esse problema?”.
.
BC: – Em relação ao espetáculo “Jogo!”, como surgiu a proposta de explorar a comicidade existente na prática do esporte?
ACS: – O mundo dos esportes representa um campo extremamente fértil para exploração de palhaços. Primeiramente porque cada uma das práticas esportivas, com suas regras específicas, modos de jogar, objetos, usos do corpo, já abre uma janela imensa, tanto que muitos palhaços e cômicos clássicos já se dedicaram a esse universo, como Buster Keaton e Jerry Lewis, por exemplo. Além disso, estávamos interessados em descobrir como os palhaços, esses seres altamente especializados em baixa performance, profundamente conhecedores do ridículo e da imperfeição, podem se relacionar com os esportes e os atletas, esses  super-humanos dedicados à ultrapassar todos os limites e a acertar o máximo possível, sempre.

Jogo! FOTO Marcela Rimes (4)

Jogo! – Foto: Marcela Rimes
.
BC: – “Jogo!” é um espetáculo que obteve bastante reconhecimento, seja de público, crítica e no próprio segmento do teatro infantil. Vocês esperavam essa repercussão e a continuidade das temporadas?
ACS: – Foi uma surpresa maravilhosa para nós. O “Jogo!” foi resultado de um empenho investigativo muito grande, estivemos em processo de criação por mais de um ano, pesquisando, experimentando, errando e acertando, sem nenhum tipo de apoio financeiro para isso. Conseguimos realizar o espetáculo graças a um projeto de financiamento coletivo, no qual colaboraram muitas pessoas que vem acompanhando o trabalho no Bando ao longo dos últimos anos, além de parentes e amigos, é claro. O reconhecimento e a continuidade do espetáculo nos alegram muito, tanto pela chance de manter o espetáculo vivo, circulando, sendo apresentado para públicos diversos, quanto porque nos parece que estamos conseguindo “devolver” tudo aquilo que recebemos de apoio das pessoas para que ele acontecesse.
.
BC: – Vocês atuam em lugares diversos como hospitais, pelas ruas e em teatros convencionais. Como vocês agregam às representações de vocês as singularidades de cada espaço físico? Como isso altera a dinâmica das apresentações e das criações dramatúrgicas?
 ACS: – As diferenças entre esses espaços acabam funcionando quase como uma base para a criação que vamos desenvolver que, em geral, é específica para cada um deles. O que é muito rico e estimulante, porque possibilita que tenhamos trabalhos muitos diferentes entre si. No hospital, o trabalho que desenvolvemos é basicamente de improvisação, de escuta e resposta ao jogo que acontece de forma diferente com cada uma das pessoas que encontramos no nosso percurso. Na rua, as dinâmicas são completamente distintas, ainda que também exista a improvisação, ela acontece de forma completamente diferente, o corpo precisa estar de outra forma, a voz, todos os recursos que utilizamos estão como que “expandidos”. A rua possibilita uma oportunidade de comunhão e de encontros diferentes que nos interessa muito. Em certa ocasião durante uma apresentação do “Rio do Samba ao Funk”, nós tínhamos dançando juntos: velhinhas que estavam passando pela praça, pessoas em situação de rua e crianças acompanhadas de seus pais. É lindo ver essa possibilidade de encontro. Já o teatro nos traz novos recursos que abrem outro campo de criação. Podemos contar com a iluminação, com cenários e adereços maiores, e tudo isso leva a criação para outros caminhos, igualmente ricos.
.
BC: – Além do Prêmio CBTIJ pelo coletivo de atores, vocês foram reconhecidos pelo Prêmio Zilka Sallaberry com uma menção honrosa pelo trabalho de experimentação, atuação e pesquisa. O que representa para vocês esse reconhecimento dos mais importantes prêmios de teatro infantil?
ACS: – Esse reconhecimento é uma alegria muito grande para nós e nos dá a certeza de que estamos seguindo no caminho certo. Nos dois Prêmios fomos reconhecidos em categorias que fazem muito sentido com a nossa trajetória. Não existe prêmio melhor para quem trabalha em grupo do que o de “Coletivo de Atores e Atrizes”;representa o reconhecimento do fazer junto, da troca, da parceria. Já a menção honrosa pelo trabalho de experimentação, atuação e pesquisa, nos enche de alegria pela percepção de que todo o nosso modo de fazer realmente se expressa na cena. Além disso, ficamos especialmente felizes por ver um trabalho de palhaços, um universo que durante muito tempo não foi considerado parte do teatro “convencional” tendo espaço e reconhecimento nas premiações de teatro.
.
BC: – Olhando um pouco mais a frente, quais os próximos objetivos e desafios para o “Bando de Palhaços”?
ACS: – Pretendemos seguir investigando e experimentando novas possibilidades de criação, especialmente num espetáculo de teatro adulto que não necessariamente terá a figura clássica do palhaço, com nariz, sapato e etc, mas que será guiado pela linguagem, presente em nossos corpos e explodida em possibilidades ainda não exploradas.
Além disso, estamos num processo de intensificação dos projetos de ação social, porque acreditamos que numa sociedade cada vez mais doente, o riso é um caminho extremamente potente para a construção de relações mais saudáveis. Principalmente com a percepção cada vez mais clara da força do trabalho colaborativo, de criação de redes, com outros coletivos e espaços. O desafio principal é, como para todos os artistas, a viabilização econômica destes projetos e a sobrevivência financeira do grupo e dos seus integrantes. Mas vai dar certo!

Foto: Helena Marques

Foto: Helena Marques

 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

novembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930