Entrevista: Anderson Zanetti


 

O Grupo Teatral Mata!, formado por Anderson Zanetti, Leonardo Oliveira, Luiz Felipe Macalé e Vanessa Biffon, está apresentando o Anderson Zanetti 2espetáculo “Guerrilheiro Não Tem Nome”, inspirado no livro “Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia” do jornalista Leonêncio Nossa, que propõe uma aprofundamento num tema da história brasileira que ainda hoje possui uma série de lacunas não preenchidas, a Guerrilha do Araguaia. Para falar sobre o espetáculo e o trabalho do Grupo Teatral Mata!, o diretor Anderson Zanetti concedeu esta entrevista ao Botequim Cultural.

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O espetáculo pode ser visto entre os dias 13 e 15 de maio no Teatro Zanoni Ferrite(Av Renata 163 -Vila Formosa – SP) e nos dias 28 e 29 de maio na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo(Rua Vergueiro 1000 – Paraíso – SP)

 

Foto: Flaviana Benjamin

Foto: Flaviana Benjamin

Por Renato Mello.

BC: – Que aspectos você encontrou em “Mata!” para querer adaptá-lo para o teatro?
AZ: – Na verdade não é bem uma adaptação. Podemos dizer que o espetáculo tem como maior inspiração o livro “MATA!”, do Leonencio Nossa. Isso porque o livro aborda a trajetória do Major Curió até Serra Pelada, algo que não fazemos. Outra coisa é que usamos outras fontes bibliográficas, como o livro do jornalista Fernando Portela, o trabalho do Prof. Dr. Romualdo Pessoa e a biografia de José Genoino. Além de materiais em audiovisual encontrados na internet.

BC: – Gostaria que você falasse um pouco sobre o processo de desenvolvimento dramatúrgico para transpor os fatos e ações do livro para um palco de teatro.
AZ: – Tivemos basicamente três etapas. A primeira foi de formação do próprio Grupo Teatral MATA!. A princípio formamos um grupo de estudos em 2012. Encontrávamo-nos no Instituto de Artes da Unesp – SP, onde fiz meu doutoramento em Artes Cênicas. Entre os debates acerca de temas da cultura brasileira, “descobrimos” o livro “MATA! – O Major Curió e as guerrilhas do Araguaia”, do Leonencio. Na segunda etapa fomos para a sala de ensaio. Foi aí que o “MATA!” se destacou em nossas improvisações, fazendo até com que “batizássemos” o coletivo como o nome de Grupo Teatral MATA!. A narrativa fragmentada do jornalista, oscilando entre o particular do campesinato e o geral da política de Estado de Exceção, favoreceu nossas intenções poéticas, que partiram, sobretudo, de referências do teatro dialético de Bertolt Brecht. Por fim, na terceira etapa, os atores criaram cenas que foram mostradas internamente. Feito isso, entrou meu papel como diretor e dramaturgo, que foi o de fazer uma “costura” entre as propostas dos atores e estruturar uma encenação .

BC: – Quais as grandes dificuldades para expressar sobre um palco de teatro todo o sentimento de violência e opressão no interior da guerrilha do Araguaia?
AZ: – Representar um torturador e sua violência é sempre difícil. Sobre o torturador, deve-se tomar o cuidado de não transformá-lo em monstro e nem em uma espécie de encarnação do mal que provoque fascínio. Não pode haver empatia em relação a tal personagem, a não ser para a empatia ser criada e em seguida quebrada pela consciência reflexiva. Em relação à violência, o realismo é sempre perigoso, você pode “abusar” do público ao invés de despertar fruição estética seguida de raciocínio. Apesar de a encenação ter momentos realistas, evitamos essa chave de representação quando se trata de abordar a tortura.

Foto: Mauricio Adinolfi

Foto: Mauricio Adinolfi

BC: – Leonencio Nossa teve algum tipo de participação no processo de concepção do espetáculo?
AZ: – Não. Fizemos uma roda de debates com a participação de Leonencio Nossa, Zezinho do Araguaia, Liniane Haag Brun e Romualdo Pessoa. Na ocasião da conversa, algumas contribuições críticas foram feitas. Com algumas coisas concordamos, com outras não.

BC: – O Major Curió é representado no palco? De que maneira?
AZ: – Sim. Procuramos a forma épico-dialética… Ou seja, ora a representação do Major Curió aparece em chave realista, ora esse realismo é transposto ao épico por meio de expedientes no trabalho de ator, com narrativa, jogo de luz e de música. A ideia é criar um distanciamento crítico em relação a essa personagem. Quer dizer, o Curió é um humano que provoca a barbárie por meio da tortura e, por isso, não é humanizado. É a dialética da desumanização: na medida em que ele desumaniza suas vítimas por meio da violência, ele vai se desumanizando ao longo da peça. Mas as coisas não estão apenas no plano das individualidades, afinal o Major Curió trabalhava para o Estado.

BC: – Recordo-me que na época do lançamento do livro “Mata!” houve um certo melindre na grande imprensa em falar do livro por acreditarem, erroneamente na minha opinião, que ele estaria dando voz a um importante agente da repressão. Qual sua visão sobre essa questão?
AZ: – Dar “voz a um agente da repressão” a partir da perspectiva não do vencedor, mas dos vencidos, que foram os guerrilheiros e mais ainda a população local. Isso faz total diferença. Não podemos simplesmente não representar os “algozes”, pelo contrário, devemos mostrá-los de tal forma a desconstruirmos seus discursos oficiais e desvelarmos o outro lado de seus atos. Somente assim entenderemos o presente.

BC: – No livro, Leonencio Nossa faz um mosaico com aproximadamente 150 personagens sobre a visão do Araguaia, em sua maioria pessoas simples, como garimpeiros, barqueiros, etc. você trabalha com apenas 3 atores em cena. Por que essa opção?
AZ: – Por condições de recursos humanos. Fazemos teatro de grupo, teatro não comercial. É um trabalho de pesquisa coletiva que não segue normas de mercado. Qualidade, nesse caso, não é o mesmo que quantidade. O Grupo Teatral MATA! se estabeleceu com seis profissionais que acreditaram no projeto: Eu, as atrizes Vanessa Biffon e Airá Fuentes Tacca, o ator Leonardo Oliveira, o músico Bruno Cordeiro e o cenógrafo e figurinista Luiz Felipe Macalé. Daí, desse coletivo, foi construída a perspectiva poética.

BC: – Vivemos atualmente tempos políticos muito extremados e com os ânimos exaltados. É possível, de algum modo, fazer algum tipo de

Foto: Mauricio Adinolfi

Foto: Mauricio Adinolfi

comparação sobre o contexto daquela época para os tempos atuais?
AZ: – Na nossa peça trazemos à tona a personagem do Major Curió, um militar pragmático encarregado de “fazer o serviço sujo” no Araguaia. Pois bem, o Deputado Jair Bolsonaro é uma espécie de cópia mal feita do Curió que faz o “serviço sujo” na política. Com isso quero dizer que o discurso do Bolsonaro é tudo aquilo que está “nas entre linhas” dos discursos de muitos Deputados, é tudo aquilo o que eles pensam, mas não dizem porque há um “bode expiatório” que faz muito bem o “serviço sujo”. Porém, como todo o “boi de piranha” é abandonado para salvar seus iguais, tal como aconteceu com Curió, esse parece ser o caminho certo de Bolsonaro.

BC: – Que lições a Guerrilha do Araguaia pode dar para nossa atual democracia?
AZ: – Precisamos preservar nossa memória histórica. É como afirma Eric Hobsbawm, “o passado está contido no presente”, ou seja, o presente é o passado ainda vivo em nossas relações. Negar o passado é negar o presente como uma forma de jogá-lo ao buraco negro do não-temporal, é produzir na consciência a ideia de que “não, hoje não existe tortura, não existe violência policial e os casos da Claudia e do Amarildo são meras ficções produzidas pela grande mídia para entreter o telespectador.

BC: – Ano passado houve um espetáculo com alguma repercussão e que circulou tanto por Rio quanto por São Paulo, chamado “Guerrilheiras ou para a Terra não Há Desaparecidos”, com direção de Georgette Fadel, que também abordava a guerrilha do Araguaia. Você assistiu esse espetáculo?
AZ: – Sim, vi o espetáculo. Inclusive no primeiro semestre de 2015 a idealizadora do projeto dessa peça sobre as guerrilheiras, a atriz carioca Gabriela Cunha, procurou o Grupo Teatral MATA! para uma conversa. O contato foi breve, mas deu para trocar ideias e relatos sobre as experiências. A peça dirigida por Georgete Fadel é bem diferente da nossa. A começar pela prioridade em representar a mulher na guerrilha. Outras coisas também são distintas. O trabalho delas faz a tentativa de trazer o gênero feminino de forma quase que atemporal, optando por não mencionar agentes históricos como o PC do B e o ideólogo socialista da Guerrilha do Araguaia. Nosso trabalho caminha em outra direção. Sempre soubemos do “risco” em não somente citar, mas representar no palco os agentes históricos dos vários contextos: o campesinato, os jovens guerrilheiros, o papel do PC do B e os militares a serviço do Estado Ditatorial. O fato é que fizemos uma opção política que acreditamos não desabonar a perspectiva artística, e essa opção política foi a de não omitir o que consideremos como importante na histórica da guerrilha, das suas contradições e de seus desdobramentos. Podem nos “rotular” de partidaristas? Podem. Podem nos “rotular” de historicistas? Podem. Só não podem tirar a certeza que temos, a de que nossa autonomia e integridade intelectual e artísticas não estão a serviço de grupos políticos. Nossa poética está a serviço da nossa visão de mundo, que é coletiva e pressupõe outras coletividades.

BC: – Como tem sido a receptividade do público e que expectativas você tem sobre “Guerrilheiro não tem nome”? Pretende levá-lo para outros estados?
AZ: – Pretendemos levar a peça para outros Estados. Correremos atrás de financiamento público para isso. Quanto à receptividade do público, reproduzo um comentário feito em nossa página do Facebook acerca da apresentação do último domingo, dia 08 de maio de 2016: “Guerrilheiros não tem nome” – além do aprendizado, me emocionou demais. Atuação maravilhosa! Sai do teatro Leopoldo Fróes encantada. Parabéns e obrigada, pelo presente de dias das mães.

Foto de Flaviana Benjamin (15)

Foto: Flaviana Benjamin


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