Entrevista Ariel Palacios


 

ArielPalacios1

Por Adriana Mello.

Após quase 20 anos de relação profissional com o Estado de São Paulo, Ariel Palacios deixou o jornal na semana passada. Mas isso não quer dizer que diminuirá o fluxo de suas sempre precisas informações e notícias sobre o que se passa na Argentina. Ariel continua na Globo News, assim como possui agora mais um meio para difundir e divulgar o que de mais interessante se passa na vida cotidiana daquele país, através do blog https://oshermanos.wordpress.com/

Abaixo, a entrevista que mais uma vez Ariel Palacios gentilmente nos concedeu:

BC: Gostaria que você explicasse como é o cotidiano de um correspondente em busca da notícia para um órgão de imprensa externo. Como é seu cotidiano? Aonde você busca a notícia? O trabalho funciona mais no escritório ou na rua?
AP: A rotina de um correspondente em uma cidade como Buenos Aires é puxada, pois a imprensa brasileira cobre todos os dias os acontecimentos na Argentina. Acordo de manhã cedo, leio os jornais (cinco), as revistas, fico de olho nas notícias e começo a armar um roteiro das matérias do dia ou da semana. Logo depois, começo a ligar para os potenciais entrevistados. Às vezes a notícia é puramente factual. Às vezes, analítica. E às vezes um mix disso. A Argentina, desde que estou aqui, há 20 anos, é imprevisível: podem ocorrer coisas importantes de manhã cedo como no final da noite. Na prática, não há hora para encerrar a jornada de trabalho. A gente tem que estar sempre ligado. Sempre acontece algo. Estou aqui há quase 20 anos… e foi sempre este frenesi!

BC: Como você vê a questão da liberdade de imprensa na Argentina?
AP: É o momento mais complicado para a liberdade de imprensa e de expressão na Argentina desde a volta da democracia. O atual governo controla a maior parte dos canais de TV, tem grandes fundos para a publicidade oficial para fazer auto-elogios, ocasionalmente coloca militantes para fazer piquetes nas portas das gráficas dos jornais não-alinhados, impedindo a saída dos exemplares…a presidente Cristina critica, com nome e sobrenome jornalistas que escreveram longas matérias que não foram do agrado dela.. e às vezes, também critica jornalistas que escreveram uma pequena matéria de 15 linhas, sinal de que o governo está de olho em tudo. O governo aprovou uma lei anti-terrorista ambígua que poderia implicar na prisão de jornalistas que divulguem assuntos “inconvenientes”. O governo aprovou também uma lei de mídia que restringe qualquer empresa de TV a apenas 24 licenças (isto é, na Argentina são 24 municípios), enquanto que permite que o Estado argentino tenha presença nacional. A outra entidade que pode ter presença nacional com canais de TV, sem autorizações prévias, é a Igreja Católica. É um paradoxo, já que o Estado é – teoricamente – laico. Aliás, é uma lei de mídia que nem deputados da oposição leram completamente. E que sequer foi lida em sua íntegra até por parlamentares e integrantes do atual governo. Pude comprovar isso pessoalmente. Muitas pessoas no exterior falam sobre a lei, seja contra ou a favor, sem a terem lido completa. Isto é, falam de orelhada. Enfim, é um período complicado para os colegas argentinos.

BC: Como correspondente você enfrentou algum tipo de problema com o governo argentino?
AP: Problemas em conseguir acesso a dados oficiais, dificuldades enormes para obter informações de integrantes do governo…uma vez, um inédito impedimento para os correspondentes brasileiros para entrar em uma coletiva no ministério da Economia  na qual, paradoxalmente, estavam presentes os correspondentes americanos e europeus. Ocasionalmente algumas expressões pouco polidas por parte deassessores de imprensa que nos sugeriam inserir as matérias no esfíncter anal…suponho que a edição em papel e não o tabelt, hehehehe. Em uma ocasião, o então assessor de imprensa do chanceler argentino, que me telefonou para falar em off. Lhe respondi, “claro, falemos”. E, inesperadamente, ele começou a desferir uma série de epítetos. Em off, claro. No meio da conversa descobri que ele estava reclamando de uma matéria que não havia escrito. Na época eu era correspondente de O Estado de S.Paulo. E ele, na realidade, queria reclamar de uma matéria na Folha de S.Paulo, escrita por outra pessoa. Tive que explicar que eram dois jornais diferentes…ai, ai (suspiro).. a gente vê cada assessor mal-preparado. Mas, histórias assim servem depois para divertir uma conversa entre amigos, hehehehe….

BC: Apesar do forte controle exercido pelo governo na mídia, o cinema argentino, por exemplo, vive um momento de enorme criatividade e reconhecimento. Que visão você tem do momento cultural que passa a Argentina?
AP: A crise de 2001-2002 foi um divisor de águas. Os argentinos fizeram um “revamp” na cultura local. O tango se renovou, o teatro teve um novo impulso, até o Teatro de Revista – que sempre foi forte – teve um impulso adicional. O cinema também teve um boom. Coincidiram vários fatores: nos anos 90 muitas pessoas da área cultural foram estudar no exterior; a crise que mudou os paradigmas da sociedade na virada do século, e uma revalorização da cultura local após a crise.

BC: Alguns artistas têm demonstrado de maneira incisiva um posicionamento político, contra ou a favor, recordo-me de nomes como Fito Paez e Federico Lupi(a favor), Ricardo Darín(contra). Há uma radicalização na sociedade argentina?
AP: Sim, existe um antagonismo muito presente na sociede argentina. Mas isso não é uma marca apenas desta época. Isso ocorre desde a independência! Nos últimos 200 anos a política do país foi marcada pelos antagonismos: saavedristas versus morenistas, unitários versus federalistas, conservadores versus radicais, radicais versus peronistas…e a lista continua! A “arte do consenso”, uma característica quase permanente da sociedade brasileira é uma commodty quase inexistente na Argentina.

BC: Como você vê a Argentina pós Cristina Kirchner? Caso a oposição ganha a eleição, haverá uma caça às bruxas? Ou no final das contas haverá uma nova acomodação das forças políticas?
AP: Não acho que haverá uma caça às bruxas. No fim das contas, é sempre a mesma turma no poder: Néstor Kirchner e Cristina Kirchner eram aliados do presidente Carlos Menem nos anos 90. Boa parte dos atuais ministros estiveram no governo Menem ou foram aliados dele. E boa parte dos integrantes do atual governo estiveram na administração de Eduardo Duhalde. Algumas pessoas serão excluídas no próximo governo, seja lá qual for. Mas, será uma minoria. Mas, afirmo isto levando em conta – ou melhor, supondo de acordo com o cenário atual – que o próximo governo será formado por algum representante de alguma vertente do peronismo…

BC: Você acaba de deixar o Estadão após quase 20 anos e criou um blog. Qual o objetivo do seu blog e que temas pretende abordar?
AP: O blog pretende cobrir as notícias da Argentina e da região. O novo blog, tal como o pré-existente no Estadão, se dedicará a assuntos de economia, política, cultura e a sociedade.

BC: Nesse período como correspondente, qual foi a notícia ou a matéria que você considera a mais importante e relevante que você fez sobre a Argentina?
AP: É difícil escolher uma.. há tantos, tantos assuntos! Mas, podemos dizer que foram – talvez – as matérias sobre a época da terrível crise econômica de 2001-2002. No entanto, também foram importantes as matérias sobre os crimes da ditadura militar. E, além disso, a cobertura sobre os casos de corrupção dos diversos governos argentinos, desde a administração de Carlos Menem até o casal Kirchner.

BC:A Argentina tem uma cobertura adequada pelos meios de comunicação brasileiros?
AP: A Argentina, até os anos 90, não era uma parte da cobertura cotidiana das editorias de internacional dos meios de comunicação brasileiros. Os jornais e canais destinavam enviados especiais para ocasiões especiais, como as eleições de 1973 com a volta de Juan Domingo Perón do exílio, o golpe militar de 1976, a Guerra das Malvinas em 1982, a volta da democracia, a crise da hiper-inflação, entre outras. Mas, os meios brasileiros só começaram a ter correspondentes de forma permanente a partir de 1995. Desde o final dos anos 90, a mídia brasileira é a que mais publica sobre a Argentina, em todo o planeta, depois – evidentemente – da própria imprensa argentina. Os principais canais de TV e jornais do Brasil possuem correspondentes em Buenos Aires. Além deles, vários sites também possuem correspondentes ou free-lancers. Todos os dias há matérias sobre a Argentina na mídia brasileira.

BC: E o inverso:  Brasil tem uma cobertura adequada nos meios de comunicação argentinos?
AO: O Brasil, durante décadas, foi um país que não gerava grande interesse por parte da imprensa espanhola, argentina, mexicana, peruana ou chilena, entre outras hispano-falantes. Nos anos 90 a Argentina começou a cobrir o Brasil com mais intensidade. Mas, tornou-se frequente mesmo nos últimos 7 ou 8 anos, tanto pelo crescimento da economia tempos atrás, como pelo aumento do peso internacional do Brasil, além dos escândalos de corrupção. Mas, a cobertura brasileira sobre a Argentina é muito mais intensa do que a cobertura argentina sobre o Brasil.

BC: Qual a visão que a sociedade argentina tem do Brasil, nos aspectos político, econômico e social?
AP: Até os anos 90 os argentinos tinham uma imagem do Brasil como um paraíso tropical, um éden ao lado da Argentina, um país de praias, carnaval, cachaça e férias..e povoado por pessoas “boas” e “doces”. Ou seja, uma imagem similar à do “bom selvagem”, de Jean-Jacques Rousseau. Mas, na virada do século, coincidindo com a pior crise econômica da História argentina, a de 2001-2002, e coincidindo com o crescimento econômico brasileiro, o aumento do peso do Brasil no cenário regional e internacional, a visão mudou. Isto é, os argentinos continuam vendo o Brasil como um país de praias e carnaval. Mas, agora, a visão principal é a de um país pujante, industrializado, líder regional. Há uma frase que tenta resumir a intrincada trama de sentimentos mútuos entre os dois lados da fronteira, do acadêmico argentino Pablo Alabarces, da Universidade de Buenos Aires (UBA), que realizou com o brasileiro Ronaldo Helal (professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) um divertido e profundo debate sobre essa relação bilateral: “Os brasileiros amam odiar a Argentina, enquanto que os argentinos odeiam ter que amar tanto o Brasil”. E podemos até dar um touch pontifício (e, talvez, até beatífico) sobre este assunto: em meados de 2013, durante sua primeira viagem internacional (coincidentemente, ao Brasil), o papa Francisco brincou com jornalistas sobre os cardeais brasileiros que também haviam sido candidatos no conclave de março desse ano e que foram deslocados por ele, um argentino: “Deus já é brasileiro…e vocês queriam também um papa brasileiro?”


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