Entrevista: Breno Sanches – 13 Anos da Cia Teatral Milongas


 

Por Renato Mello.

Breno Sanches

Breno Sanches

Completando 13 anos de plena atividade, a Cia Teatral Milongas reestreia em outubro dois espetáculos do seu repertório: “ “Rosencrantz e Guildenstern estão Mortos“, após um ano em cartaz em diferentes espaços, volta ao mesmo lugar que abrigou sua estreia, O Castelinho do Flamengo e “ “Se vivêssemos em um lugar normal” se apresentará no Teatro Municipal Serrador.

Fundada em 2003, a Cia Teatral Milongas, formada por Breno Sanches, Hugo Souza, Matheus Rebelo e Roberto Rodrigues, tem se notabilizado ao longo de sua trajetória por explorar todas as possibilidades que a arte teatral pode proporcionar, desenvolvendo trabalhos dentro de um arco diverso que abrange a dramaturgia contemporânea, adaptações literárias, teatro de rua, infantil e espetáculos de palhaçaria.

Breno Sanches, ator, diretor, dramaturgo e um dos fundadores da Cia Teatral Milongas concedeu ao Botequim Cultural uma entrevista em que analisa essa trajetória, os trabalhos realizados e as perspectivas futuras.

ros-e-guil-creditos-thiago-carlan-03

“Rosencrantz e Guildenstern estão Mortos” – Foto: Thiago Carlan

BC: – Que motivações levaram vocês a criarem uma companhia teatral?
BS: – A Cia Teatral Milongas começou a partir de um encontro entre jovens estudantes de teatro, recém ingressados no curso de Interpretação da UNIRIO. Logo após os três primeiros meses de aula, a universidade entrou em greve e nós, um pequeno grupo de alunos da turma do primeiro período, decidimos aproveitar esse tempo sem aula para criarmos um espetáculo infantil. A ideia era iniciar um estudo sobre cultura popular com ênfase nas danças folclóricas. Quando as aulas voltaram já éramos uma Companhia formada e com um espetáculo em processo. A UNIRIO foi uma excelente base para a nossa estruturação, mas acredito que a vontade que sempre tivemos de criar e trabalhar em conjunto foi o ponto principal para a nossa motivação de criarmos a Companhia e, principalmente, de seguirmos trabalhando juntos.

BC: – Passados 13 anos desde a criação da Cia Teatral Milongas, quais objetivos iniciais você considera cumpridos e quais ainda estão inconclusos nessa trajetória?
BS: – O principal objetivo da Companhia foi se manter enquanto Companhia, uma empresa capaz de se manter financeiramente para que assim tivéssemos um lugar de criação, que nos permitisse pesquisar, experimentar, desenvolver, criar e até mesmo errar. E essa é a nossa grande conquista! Claro que durante anos não recebíamos nenhum centavo, todo o dinheiro ficava para investirmos na Companhia. Aos poucos fomos recebendo algum dinheiro e hoje conseguimos manter a empresa estável, com uma produtora fixa e com os integrantes recebendo para trabalhar. Mas essa luta é diária e acreditamos que nossa busca segue em fortalecer cada vez mais a Companhia, tanto a empresa quanto o trabalho artístico.

BC: – Qual foi o espetáculo que você considera o mais representativo desses 13 anos da companhia?
BS: –  É muito difícil eleger um espetáculo, cada um acaba sendo muito marcante para cada momento da história do Milongas. O “Era uma vez, e não era uma vez”, que foi o nosso primeiro espetáculo e que deu origem a Companhia, tem a “Casa Verde”, adaptação do conto O Alienista de Machado de Assis, que foi muito marcante para todos os envolvidos, ficamos um ano em processo diário e acredito que ele tenha nos dado maturidade no pensamento artístico. Já o “La Careta que Cae”, do original Os Títeres de Cachamorra de Federico Garcia Lorca, nos levou para mais de 30 festivais nacionais e internacionais, Colômbia e Venezuela, e em todos recebemos prêmios e indicações.Esses três espetáculos citados foram criados dentro da universidade, todos trabalhados com todos os integrantes juntos. Depois vieram os outros, com pesquisas de linguagens diferentes e acompanhando as transformações e amadurecimento do coletivo, cada um com um valor muito especial para a nossa história.

Intregantes Cia Teatral Milongas: Breno Sanches, Roberto Rodrigues, Matheus Rebello e Hugo Souza

Integrantes Cia Teatral Milongas: Breno Sanches, Roberto Rodrigues, Matheus Rebello e Hugo Souza

BC: – Quais as principais dificuldades de manter uma companhia em permanente atividade?
BS: – Conseguimos manter a Cia Teatral Milongas em permanente atividade, ao longo desses 13 anos e meio, e isso não foi fácil, apesar de muito gratificante. Desde o início, sempre colocamos a Companhia como prioridade em nossas vidas, e isso foi fundamental, já que existem dificuldades financeiras que fazem parte da realidade de todo artista, mas com esse pensamento, todos sempre conseguiram conciliar seus trabalhos paralelos com as atividades do Milongas. E essa convivência em conjunto também requer muito diálogo, sempre tivemos uma relação democrática, todos sempre sabem de tudo o que está acontecendo e participam das decisões, mesmo que o assunto seja sobre um espetáculo que a pessoa não faça parte diretamente. Outro ponto fundamental é que a Companhia sempre manteve alguns espetáculos ativos no repertório e sempre pensando em novos projetos, isso fez com que durante todo esse tempo estivéssemos sempre vendendo apresentações, rodando festivais, pesquisando, treinando e ensaiando. A manutenção artística é mais valiosa que a financeira na vida de uma Companhia, mas uma depende da outra, por isso, sempre houve um grande esforço para mantermos os dois lados saudáveis.

BC: – Em relação aos projetos a desenvolver, como se dá o processo de escolha entre os membros da companhia?
BS: –  Os primeiros trabalhos da Companhia, no geral tínhamos uma preocupação em realizamos espetáculos com todos os integrantes juntos, e como iniciamos a Companhia pesquisando a Cultura Popular, esse material nos serviu como base de estudos e treinamentos para a criação e composição dos primeiros trabalhos. Mas depois passamos a nos dividir em pesquisas separadas, em que alguns atores poderiam buscar e aprofundar a partir dos seus interesses e anseios. Isso nos trouxe uma boa diversidade de conteúdos e trabalhos.

ros-e-guil-creditos-thiago-carlan-02

“Rosencrantz e Guildenstern estão Mortos” – Foto: Thiago Carlan

BC: – Vocês voltarão a apresentar “Rosencrantz e Guildenstern estão Mortos” em outubro, que pessoalmente considero um dos melhores espetáculos da temporada carioca de 2015. O que te motivou nesse texto para querer montá-lo?
BS: – Voltaremos para o lugar que tudo começou, o Castelinho do Flamengo, foi muito especial estrearmos naquele espaço e por isso decidimos voltar para fechar esse primeiro ciclo de um ano em cartaz do espetáculo. E ainda, antes de responder, agradecemos e ficamos muito honrados por nos incluir na lista dos melhores de 2015. A ideia de montar esse texto surgiu a partir de um estudo da obra de Shakespeare, que um dos atores da Cia, Hugo Souza, estava fazendo. E quando me juntei a ele nessa pesquisa, me lembrei do filme “Rosencrantz e Guildenstern estão Mortos” e procuramos pela peça. Imediatamente nos encantamos com a ideia de trabalharmos com aquela dramaturgia contemporânea a partir do clássico “Hamlet”, que trata de temas existenciais como realidade, vida e morte, com humor e jogos de linguagem. Era exatamente o que procurávamos, uma excelente dramaturgia, com muitas possibilidades para a criação cênica.

BC: – Em “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos” você propôs uma dinâmica sofisticada, com um jogo cênico pulsante a partir de uma troca constante entre os três atores, com uma proximidade que praticamente insere o público dentro a representação. Gostaria que você falasse sobre o processo de construção cênica do espetáculo e as razões da sua opção por uma narrativa que foge do convencional.
BS: – Na peça “Hamlet” de Shakespeare, o personagem Hamlet investiga a morte de seu pai e os seus amigos, Rosencrantz e Guildenstern, são chamados pelo rei e pela rainha para investigarem a transformação de Hamlet, o porquê de ele estar alterado. Na peça de Tom Stoppard, além dessas investigações do original, Rosencrantz e Guildenstern também buscam respostas do que aconteceu com eles nessa história e porque estão ali naquele exato momento. Inspirados nesse jogo dramatúrgico criado por Stoppard, decidimos colocar três atores, investigando junto com a plateia, essa encenação e esses personagens, em um evidente e ativo jogo teatral. Eu, Hugo Souza e Matheus Rebelo (que depois é substituído pelo ator Leonardo Hinckel, para a encenação), iniciamos o processo com um intenso estudo da peça e do filme “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos”, os dois assinados por Tom Stoppard e da peça “Hamlet” de Shakespeare. Com esse material fomos estruturando a dramaturgia da encenação e ao final desse processo muitas cenas já estavam pensadas. Praticamente toda a estrutura do espetáculo já estava esboçada em nossas ideias, antes mesmo de entrarmos na sala de ensaio. Com isso, quando começamos de fato a ensaiar, o processo foi bem rápido. As palavras de Stoppard, apesar de abordarem temas complexos, fluem muito bem e nos conduzem em cena.

BC: – Como foi a atuação e interferência de Cesar Augusto, assinando a supervisão, para o resultado final de “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos”?
BS: –  A princípio, a direção do espetáculo seria do Cesar Augusto, mas quando finalmente conseguimos a pauta para estrearmos ele já estava comprometido com outros projetos que estreariam na mesma época, assim não poderia estar presente o tempo todo no processo. Pensamos em chamar outro diretor para assumir, já que eu estaria em cena como ator, o que nunca havia acontecido em um processo de montagem da Companhia. Eu sempre estive como diretor ou não estava participando diretamente da montagem. Mas como já havíamos feito a adaptação e estávamos com o espetáculo vivo na cabeça, decidimos que eu conduziria a encenação, mesmo em cena, e o Cesar faria uma supervisão geral, acompanhando os ensaios pelo menos uma vez por semana. Para ajudar, o Cesar trouxe a Daniela Cavanellas para acompanhar os ensaios e assinar a direção de movimento. Durante todo o processo nos entendemos muito bem, o Cesar sempre nos conduzia e nos provocava com grande generosidade e inteligência. A princípio a ideia de voltar atuar e ter que estar ao mesmo tempo na direção foi assustadora e não foi uma tarefa fácil, mas não posso deixar de destacar que só foi possível graças ao trabalho e parceria do Cesar, da Daniela, dos atores Hugo Sousa, Leonardo Hinckel, e de toda a equipe de criação: Tuca, Bruno Perlatto, Marcela Andrade e Daniel Carneiro, que estiveram presentes e atuaram diretamente em todo o processo criativo.

se-vivessemos-foto-thiago-cristaldi-carlan-01

Roberto Rodrigues em “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”. Foto: Thiago Carlan

BC: – “Se Vivêssemos em um Lugar Normal” é um espetáculo da companhia criado por Roberto Rodrigues, a partir de um livro do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos. Como foi o processo de transformar o livro de Villalobos em dramaturgia teatral? Por que optaram pelo monólogo?
BS: – Como disse acima, dentro da Companhia temos a abertura para pesquisarmos projetos separados, até mesmo individuais. O ator Roberto Rodrigues ao se deparar com a obra de Juan Pablo Villalobos, ficou completamente apaixonado pelo livro “Se Vivêssemos em um Lugar Normal” e decidiu embarcar em um processo criativo de adaptação e encenação desse romance para um monólogo. Todo o processo foi acompanhado pela Companhia e por alguns artistas e profissionais convidados, como Maria Celeste Mendonzi e Jane Celeste, mas o resultado trata-se de uma imersão “solitária” do ator nesse trabalho.

BC: – Juan Pablo Villalobos acompanhou de alguma maneira o processo de criação? Chegou a assistir o espetáculo?
BS: –  Juan Pablo Villalobos, desde o primeiro contato se mostrou muito aberto e generoso para que o Roberto pudesse trabalhar livremente com sua obra. O autor, que atualmente mora na Espanha, não acompanhou de perto o processo, mas estava presente na estreia do espetáculo que foi há um ano atrás, no SESC Tijuca. O espetáculo também volta em cartaz em outubro, no Teatro Serrador, no centro.

BC: – Vocês também tem atuação no teatro infantil. O que motiva vocês a atuarem nesse segmento? No que teatro infantil acrescenta artisticamente para a companhia?
BS: – O primeiro espetáculo da Companhia foi um infantil e, desde então, nunca deixamos de trabalhar para esse público. Acreditamos que não há diferença de valor entre os dois, trabalhamos em um processo criativo de um espetáculo infantil com a mesma dedicação e interesse de um espetáculo adulto. E são processos tão ricos quanto e muitas vezes trazem um desafio maior, já que o público infantil requer uma atenção especial.  Todos os nossos projetos infantis são de autoria própria e sempre buscamos resultados que sejam interessantes e divertidos para todas as idades.

BC: – Teatro infantil, palhaçaria, teatro de rua, adaptações literárias. Toda manifestação artística vale a pena?
BS: – A Companhia é formada por pessoas que, apesar de terem um objetivo e vontade em comum, desenvolverem um trabalho de grupo, cada um tem suas próprias vontades e interesses. Buscamos uma liberdade criativa nesse sentido. O Milongas se estruturou e se fortaleceu com constantes estudos e treinamentos, o que nos trouxe uma unidade de pensamento e trabalho artístico, mas, além de buscarmos nos aperfeiçoar em técnicas e linguagens que já trabalhamos, também nos mantemos abertos a novas possibilidades, o que nos coloca em constante desafios e nos enriquece enquanto um coletivo criativo.

BC: –  Quais são os projetos e objetivos da Cia Teatral Milongas para os próximos anos?
BS: – Ao longo desses 13 anos e meio a Companhia desenvolveu o seu trabalho dentro da universidade, em uma sede própria, na primeira residência artística do Teatro Municipal Ziembinski, dentro de uma ONG na comunidade do Morro dos Macacos e agora, tem como foco criar um espaço cultural próprio, onde daremos continuidade aos nossos trabalhos artísticos, além de oferecermos oficinas, apresentações e atividades culturais. No próximo ano seguiremos circulando com o repertório da Cia, iniciaremos o processo de um novo espetáculo infantil e de um espetáculo adulto, esse último em parceria com outros coletivos artísticos.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

junho 2017
D S T Q Q S S
« maio    
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930