Entrevista: Ciro Acioli


 
Ciro Acioli

Por Renato Mello

Propondo uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, tendo como premissa a necessidade de construirmos novos mitos que nos auxiliem a atravessar tempos conturbados, a Artesanal Cia de Teatro inicia no CCBB do Rio de Janeiro sua temporada, após passagem exitosa pelo Sesc Pinheiros de São Paulo, do espetáculo “Quando as Pessoas Andam em Círculo”, buscando dialogar com um público jovem, numa fábula teatral, tendo como temas centrais as incertezas e inseguranças com que o jovem contemporâneo tem que lidar.

Premiado na última edição do Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem, por seu desempenho em “Quando as Pessoas Andam em Círculo”, Ciro Acioli é um dos atores(juntamente com Bruno Jablonski, Gabriel Rochlin, Igor Orlando, Isis Pessino, Júlia Bruck, Leonardo Bianchi e Mag Pastori) que compõem um painel de estereótipos criados no texto de Gustavo Bicalho e Daniel Belmonte, enfrentando questões pessoais que geram tensões e ameaças constantes ao longo da representação.

Nesta entrevista, Ciro Acioli analisa questões e temáticas propostas pelo espetáculo, avalia o processo de criação junto com a Artesanal Cia de Teatro e comenta a representatividade de ter recebido um dos prêmios de referência para o teatro da infância e juventude.

Quando as Pessoas Andam em Círculo” fará temporada no CCBB, de 3 de outubro até 25 de novembro, de 5ª a 2ª feira, às 19h:30m.

BC: – De que maneira “Quando as Pessoas Andam em Círculos” estabelece uma reflexão sobre o mundo contemporâneo?

CA: – A peça tem dois eixos narrativos: um aponta para o mundo interior de seis jovens, e o outro para o exterior, em que eles interagem. Esse jogo do dentro e fora é a costura do espetáculo. Estamos em cena com nossos celulares, mas acho interessante que isso é tratado como o que está fora. Estamos mais interessados no peso da expectativa social. No quanto é dolorosa a busca por ser o que realmente somos; na angústia calada dos sorrisos do instagram.

BC: – Você entende que existe atualmente no jovem, um vazio de referências perante um mundo tão conturbado?

CA: – Vejo referências demais, que desorientam. Um mundo multiconectado, apressado e, ao mesmo tempo, com pouquíssimo espaço para o indivíduo. Isso talvez se reflita sobretudo nos jovens. Como não há tempo de maturação e criação, penso que são perdidas muitas oportunidades do jovem encontrar o novo. São maratonas de mais do mesmo. A ânsia pela novidade traz um alto grau de ansiedade, e talvez o que esteja em falta seja o corpo, porque a mente acelerada tende a não dar conta do material.

BC: – O espetáculo trabalha com personagens propositalmente estereotipados. Dentre eles, você interpreta o “esquisito”. Quem é esse personagem? Como ele se relaciona com os demais personagens? Como enxerga o mundo ao seu redor?

CA: – O espetáculo parte desses personagens estereotipados para que, ao longo da história, possa desconstruí-los. O “Esquisito”, esse grande presente que me foi dado pelos autores da peça, Gustavo Bicalho e Daniel Belmonte, é um jovem que tem dificuldades imensas em se relacionar, enquanto vive atormentado com os problemas, as violências e as tragédias do mundo. Sofre de TAG – Transtorno de Ansiedade Generalizado -, toma uma penca de remédios e não gosta de ser tocado. É o personagem que mais observa o comportamento ao redor, já que está quase sempre excluído do contato com os demais. Há, no entanto, uma voz doce dentro dele que ele quer ouvir, e quer que seja encontrada pelos outros. Esse foi o ponto mais trabalhado do personagem com o Henrique e o Gustavo, e é o que eu mais amo no “Esquisito”.                    

BC: – A Artesanal Cia de Teatro se notabiliza por um trabalho de linguagem muito particular, com profundidade no apuro técnico, estético e narrativo. Gostaria que você comentasse, como ator, como foi o processo de criação do espetáculo, conjuntamente com os diretores Gustavo Bicalho, Henrique Gonçalves.

CA: – O Henrique e o Gustavo tem uma dedicação e um amor pelo que fazem absolutamente contagiante. É um trabalho tão precioso, feito com tanto esmero, que dá vontade de repetir, de detalhar quantas vezes for necessário, até que eles gostem do resultado. E para mim, como ator, o que mais me encanta nesse trabalho com eles é o apreço pela palavra crua, algo que desde o início norteou este projeto. “Quando as Pessoas Andam em Círculos” começou com um desejo de se falar sobre o medo. A Artesanal reuniu vários atores jovens para participar de uma pesquisa. O Gustavo convidou o Daniel, que é um dramaturgo da minha geração, para escrever a quatro mãos. Fomos experimentando o texto, tendo liberdade para entender e assumir os personagens com naturalidade. O próximo passo era fazer uma leitura do espetáculo para o público. Um dia antes da primeira apresentação, fomos pegos de surpresa: o Gustavo estava na CTI, entre a vida e a morte. O coração dele parou por alguns segundos! Ninguém estava esperando por isso. Mas nada foi cancelado. Nos apresentamos! O Henrique estava lá, dirigindo tudo, e todos vibrando. A vida acontecendo. Nós chamamos muito ele de volta. E o Gustavo voltou! A gente está vivendo tudo isso até agora. É tudo muito vibrante.


BC: – “Quando as Pessoas Andam em Círculos” tem um olhar direcionado ao público jovem, algo muito raro na cena teatral. Por que o nosso teatro tem tido dificuldade em dialogar com esse segmento?

CA:De fato, o público jovem habita um limbo entre as produções de teatro para adultos e para crianças. Não se trata de rótulos ou de classificação etária apenas – na Artesanal, o que se diz é: “Fazemos teatro; e ponto” -, mas essa é uma questão que sempre se levanta quando temos a oportunidade de debater o espetáculo com escolas. “Por que vocês vêm tão pouco até a gente”?  E nós, que estamos fazendo e pensando a cultura, não podemos ignorar essa responsabilidade.

O que eu sei é que os jovens são por natureza curiosos e estão em busca de perguntas, de identificação e de prazer! Tem as séries, os assuntos que a galera vai falar, o burburinho. Temos que ser instigantes, pulsantes. Acredito que os centros culturais e os teatros sejam mais interessantes do que os shoppings. Claro, também podemos abrir uma outra aba para falar da nossa sociedade segmentada, da acessibilidade que criamos a todo a esse público novo para teatro. Mas, no mais, se estiver interessante, pulsante e der o que falar, os jovens virão.

BC: – Você acabou de receber o Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem. O que representa esse prêmio para você?

 CA: – Eu sinto antes de tudo muita gratidão aos meus companheiros de palco. E à toda equipe por trás de nós, que com tanto capricho e atenção aos detalhes (marcas registradas da Artesanal) permitiu que o nosso trabalho pudesse ir tão longe. O Projeto SP é uma referência para o teatro da infância e juventude no país inteiro, e foi uma alegria muita grande pra mim estar representando, além da Artesanal, o Rio de Janeiro – na hora de agradecer, o sotaque carioca saiu reforçado. Além disso, a premiação, que existe há 25 anos, estava sob risco de não conseguir realizar as suas próximas edições, portanto havia um componente emotivo muito forte presente em todos os envolvidos. Ter sido contemplado em um momento tão significativo para o Projeto SP, vindo de outra cidade, foi algo indescritível. Não existe um sentido da vida, mas existem provas do sentido da vida. O reconhecimento por um trabalho, que exigiu e segue exigindo tanta garra e suor, representa pra mim uma dessas provas.

BC: – O espetáculo estreou em São Paulo e agora inicia temporada no Rio. O que vocês carregam de positivo da temporada paulistana e quais expectativas para o Rio?

CA: – De tudo, a bagagem mais importante de São Paulo foi a abertura que a cidade teve conosco desde o primeiro momento, no acolhimento de ideias. O Sesc Pinheiros nos recebeu em um horário novo para eles – 20h -, cuja meta foi justamente a criação de um horário específico para teatro jovem. A temporada que começa agora no Rio era um desejo de toda a equipe. Estaremos de quinta a segunda, às 19:30h, no teatro 2 do CCBB. Faremos 40 apresentações em uma temporada de 53 dias. A adrenalina tá correndo solta, porque sabemos que não podemos parar. Nos querem descrentes e desmotivados. Somos bombardeados por notícias que beiram o surrealismo-fanático-bizarro, especialmente na nossa cidade e no nosso estado. A arte dá ferramentas para lidar com isso, ajuda a organizar estes sentimentos todos. Não vamos sucumbir. Insistimos na explosão cultural que é o charme do Rio de Janeiro.

BC: – Refletindo espetáculo, você enxerga alguma saída para o mundo?

CA: – Vamos buscar quem somos nós, nossa identidade e a força que ela tem. Descobrir que temos mais coisas em comum do que poderíamos supor. Essa é a chave que destrava a intolerância. Eu não vou parar de escrever, nem de atuar, nem de cantar. Vou continuar.
Como diz o “Esquisito”: “Mesmo que o mundo acabe, a utopia da paz não pode morrer”.


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