Entrevista: Cristina Fagundes


 
Cristina Fagundes

Encerrando o ciclo da temporada do solo “Eu, Mãe” na Casa Rio, a diretora, dramaturga e atriz Cristina Fagundes documenta em cena para suas duas filhas, por meio de uma câmera, seu assombro com a passagem do tempo e com a recente maternidade, compartilhando com o público suas experiências pessoais e reflexões de mulher e mãe aos 43 anos de idade.

Dirigido pela própria Cristina Fagundes, conjuntamente com Alexandre Barros e Daniel Leuback, “Eu, Mãe” fará suas últimas sessões da presente temporada da Casa Rio nos próximos dias 09 e 10 de outubro, às 20 hs.

Nesta entrevista ao Botequim Cultural, Cristina Fagundes comenta as motivações que a levaram a conceber a peça, a recepção que tem percebido pelo público e reflexões pessoais sobre temas centrais da apresentação, como a maternidade e a passagem do tempo.

BC: – Quais foram suas motivações para criar um espetáculo sobre maternidade, querer repartir esse tema com o público?

CF: – O desejo foi de registrar para minhas filhas assistirem no futuro, como é a mãe delas hoje. Queria que pudessem ter acesso ao âmago de uma mãe recente, no caso a mãe delas, para entenderem como eu me sentia como mãe recente delas.  Que vissem por dentro de uma mãe. 

BC: – O tempo é um personagem muito presente neste texto. Como se você quisesse deixar uma mensagem através dele para suas filhas. Pensando lá no futuro, com que olhar você espera que elas vejam esse “passado” que você está construindo?

CF: – Espero que percebam todo o amor e a verdade do meu gesto de fazer essa cápsula do tempo e que compreendam, ao me verem como eu sou hoje, ou seja, como eu era lá no passado delas, que uma mãe vai muito além da função de mãe, que há uma pessoa que existe para além de cuidar de das filhas. Que tem medo, desejos, projetos, que tá viva, vibrante, pulsante. 

BC: – Que patamares do ciclo da vida se alcança quando deixamos de ser filhos para nos tornarmos pais?

CF: – Galga-se um novo patamar mesmo, a vida da um giro de 360 graus e passamos a ter mais responsabilidade, mais demandas, ficamos mais cansados, mais preocupados, passamos a viver para outro ser. Se antes tomávamos nosso banho e nos alimentávamos, agora, damos banho em outro ser também, alimentamos e limpamos e pensamos na segurança de outro ser também. Se antes tínhamos que cuidar de sobreviver, agora cuidamos também de fazer outro ser sobreviver. Um ser sem couraça, sem experiência, indefeso, com tudo a aprender. 

BC: – A experiência que você compartilha é a de uma maternidade num período de maior maturidade da vida. Isso pode trazer algumas seguranças, vantagens, mas também algumas angústias. Você projeta sua mãe na mesma idade que você, com as responsabilidades dela aos 43 anos. Que diferença principal você enxerga na maternidade da sua mãe em relação com a sua?

CF: – Minha mãe foi mãe aos 30. Então, é diferente. Estou mais cansada que ela. E na época dela, havia babás. Bem, hoje também há, mas não temos, então é só a gente mesmo. O lado bom de ser mãe mais velha, é que vivi muita coisa já, me diverti, saí até gastar minha vontade, namorei muito, dancei muito, fui livre, mas agora eu queria mesmo era me acalmar e ter minha família.

BC: – Falando um pouco sobre a concepção cênica da apresentação. Você optou por uma linha realista, acolhendo o público para dentro da cozinha, oferecendo itens, que mesmo singelos, como um copo d’água, um bolo, ou um chá de capim limão, remetem a uma certa afetividade. Como se desenvolveu essa proposta cênica? Ela já foi pensada ainda na fase de criação do texto?

CF: – A direção caminhou sempre muito junto com o texto. Um afetava e transformava o outro. Fomos eu e os outros diretores, o Alexandre Barros e o Daniel, pensando que era uma peça toda baseada na verdade, que geralmente os diretores buscam os melhores artifícios teatrais para criar uma mentira, uma encenação teatral para o público, dessa vez, nosso caminho era o oposto, era desconstruir qualquer artificialidade, pois queríamos um teatro verdade, algo muito real, pois o assunto era real, a peça é realmente sobre minha vida, não há personagens, não há mentira. Depois disso, zerada a mentira, aí sim, nos permitimos construir pequenas teatralidades utilizando a verdade da casa, como o copo d´água que ao transbordar vira uma tempestade, o terceiro sinal dado com um toque de colher no pires de café… A verdade confere muita potência à cena. 

BC: – Neste momento, três espetáculos se apresentam na cidade, embora de maneiras diferentes, abordando a temática da maternidade: “Eu, Mãe”, “Vale Night” e “Mãe Fora da Caixa”. Você sente que existe atualmente nas autoras uma inquietude para querer abordar mais profundamente sobre o tema?

CF: – Sinto que existe uma necessidade não só em autoras, mas na sociedade em se falar sobre esse tema. Ser mãe é a experiência mais transformadora em geral na vida de uma mulher. É algo muito intenso e que mexe demais na vida da gente. Precisamos falar mais sobre isso. É uma fase muito dura e não se fala muito nisso. As mães ficam muito solitárias e perdidas nesse rojão.  Para além do amor, há também a dor da transformação. Precisamos acolher as mães. 

BC: – Como você sente a percepção ao espetáculo, em especial daqueles que não tem relação direta com a maternidade ou a paternidade. De que maneira você os percebe tocados?

CF: – Vejo o público muito tocado, nunca fiz uma peça que emocionasse tanto o público, que chora copiosamente a cada sessão. Não é um choro de tristeza, mas de emoção mesmo. É lindo ver e fico muito impressionada. Choram sendo de pais ou não. Quem não é pai ou mãe, se sente tocado como filho, como neto e também por outras questões também muito profundas abordadas no espetáculo, como a passagem do tempo, o envelhecer nosso e dos nossos pais, o que fazemos como tempo que temos de vida, como expressamos nosso amor. Essa peça, é muito mais uma peça sobre o amor, do que sobre a maternidade.  Nesse momento de ódios, optei politicamente por falar de amor. 

BC: – Após a temporada na Casa Rio, que permite uma concepção muito particular e próxima ao público, existe a ideia de apresentar o espetáculo num outro formato, mais adequado às formas do teatro dito “convencional”?

CF:Esse ano não. Talvez ano que vem. Mas não tenho certeza. Talvez essa seja a última chance de conferir esta peça. Nesta quarta e quinta às 20h. Venham me ver e tomar um chazinho de capim limão e um provar uma fatia de bolo enquanto falamos de amor.  


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