Entrevista: Denise Fraga e Tuca Andrada falam sobre o espetáculo “A Visita da Velha Senhora”


 
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Foto: Cacá Bernardes

Por Renato Mello

A Visita da Velha Senhora” é um dos meus textos teatrais favoritos. Por isso mesmo a proposição de uma entrevista com Denise Fraga e Tuca Andrada foi precedida de uma enorme satisfação da minha parte.

Escrita em 1956 pelo autor suíço Friedrich Dürrenmatt, desvenda a fragilidade dos valores morais diante do poder do dinheiro através de uma narrativa cheia de humor e ironia, com personagens humanizados que vão paulatinamente revelando o que o ser humano é capaz de fazer sob a manta da coletividade. A história se passa na pequena Güllen, uma cidade arruinada a ponto dos trens passarem ao largo porque nada justificaria uma simples parada por ali. Os cidadãos esperam ansiosos a chegada da milionária que prometeu salvá-los da falência. No jantar de boas-vindas, Claire Zachanassian impõe a condição: doará um bilhão à cidade se alguém matar Alfred Krank, o homem por quem foi apaixonada na juventude e que a abandonou grávida por um casamento de interesse. Ouve-se um clamor de indignação e todos rejeitam a absurda proposta.  Claire, então, decide esperar, hospedando-se com seu séquito no hotel da cidade.

Depois de grande êxito na temporada em São Paulo, a montagem dirigida por Luiz Villaça inicia temporada no Rio de Janeiro, de 1 a 25 de março no Sesc Ginástico.

Nesta entrevista gentilmente concedida ao Botequim Cultural, Denise Fraga e Tuca Andrada revelam algumas facetas de seus personagens,  destrincham toda a força contida na sede de vingança de Claire Zahanassian e na construção narrativa de Friedrich Dürrenmatt.

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Foto: Cacá Bernardes

BC: –  Como foi gestar uma personagem com uma carga emotiva de tanta intensidade, despejando sentimentos represados por décadas? Como foi esse processo para exteriorizar sentimentos tão extremos?
DF: – É uma personagem muito rica mesmo. Em intensidade e em complexidade.  Ela é um monstro fabricado pelo ódio, um monstro sedutor e cheia de humor, mas um monstro.  O que é incrível deste autor é esta habilidade de colocar tantas camadas na mesma coisa.  Claire é ao mesmo tempo terrível e simpática, tem razão e não tem razão, a peça é ao mesmo tempo uma comédia e uma tragédia.  Como ele mesmo diz: uma comédia trágica.  Uma obra prima da dramaturgia.  Uma tragédia terrível escrita em timing cômico.  Dürrenmatt não é maniqueísta, nos faz ver todos os lados e com isso nos alarga, nos faz pensar.  Coloca dentro da questão principal da peça que seria “até onde nós vamos por dinheiro” uma interessantíssima muito mais abrangente discussão sobre justiça e omissão. A peça é incrível e Claire é um dos personagens mais ricos e deliciosos que eu encarei.
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BC: –  Que motivações levam uma mulher a propor uma vingança tão devastadora?
DF: – Claire foi abandonada grávida aos dezessete anos porque Alfred queria se casar por interesse com a mocinha rica da cidade.  Alfred é levado à justiça acusado de ser o pai da criança e se livra pagando duas testemunhas, que dizem ter dormido com aquela que dormia com a cidade inteira.  Impossível saber de quem era o filho.  Claire deixa Güllen grávida, doa a filha, a criança morre e ela acaba caindo num prostíbulo de onde é resgatada pelo milionário Zahanasian, de quem herda a fortuna e os negócios. Mas todo este drama justifica a sua vingança maquiavélica tantos anos depois?  Claire é um monstro produzido pelo capital, pela ambição: “o mundo fez de mim uma puta, agora eu faço dele um puteiro.”   Dürrenmatt nos faz pensar em nossa condição de prisão às estruturas de poder do mundo capitalista, entrelaçando uma série de cenas hilárias em que vemos esta cidade se render ao poder do dinheiro sem que ninguém exatamente puxe o gatilho.  É uma peça genial!
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BC: – Tuca, no texto original o seu personagem se chama Schill, mas na atual montagem o nome foi alterado para Krank. Quem é Krank? Como é viver um personagem que se descobre responsável por aflorar um sentimento tão extremo por parte de Claire?
TA: –  O nome Alfred Schill foi mudado para Alfred Krank, pela tradutora(Christine Röhrig) e pelo diretor do espetáculo(Luiz Villaça), em razão da sonoridade. Krank significa doente em alemão. Schill significa aproximadamente estrábico. Alfred Krank é um personagem trágico por excelência, tem todas as características que o qualificam e o enquadram assim. Um homem de inteligência curta, tosco e covarde que não percebe que desenhou o seu próprio destino na juventude e acredita que o valor de um ser humano esta, única e exclusivamente, no que ele possui. Não consegue perceber a extensão do mal que fez a Clara quando jovem e pensa que por ela ter se tornado uma bilionária tudo foi esquecido. Tem a certeza que arranjará tudo da melhor maneira e que sairá como salvador da cidade. Somente do meio para o final da peça consegue perceber a dimensão trágica da sua vida e essa percepção só se dá por não haver mais fuga, por não haver saída. O que resta a ele é reconhecer seu erro e aceitar seu destino. Um personagem profundamente humano que me fez olhar para trás e tentar ver onde fui Krank na minha vida, onde fui “doente” e “estrábico”.

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BC: – Vocês conseguem enxergar alguma atualidade com nossa realidade nesse texto de Dürrenmatt, escrito ainda na década de 50?
DF: – Completamente!  O texto sempre será atual, é um clássico.  E acho que a velha questão de Brecht, “Que ética resiste à fome?”, será sempre um dilema para a humanidade.  Mas o que acontece agora é que a peça parece ter sido encomendada para ser encenada nestes tempos esquisitos que estamos vivendo.  Queremos montá-la há 4 anos, mas ela foi ficando assustadoramente propícia.  Dependendo da notícia do dia, as falas que dizemos à noite vão tomando um sentido cada vez maior.  Sem estar falando da coisa, parece que estamos falando da coisa.  Estamos diariamente presenciando histórias de sucesso onde a ética foi envergada e moldada descaradamente em praça pública sem nenhum pudor, muitas vezes escondendo-se atrás de discursos racionais.  Há que estar atento.  Li dia desses uma frase do Mather Luther King muito boa neste sentido: “Ao final, não lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos.”
TA: – Esse texto é totalmente atual e parece que foi escrito para o Brasil de agora. Um texto que fala sobre ética, justiça, até onde se vai para ganhar o pão, que concessões se faz para a sobrevivência, sobre linchamento publico. É só abrir qualquer jornal brasileiro hoje que todos esses assuntos estão lá.
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rsz_1e82a1025BC: – O que particularmente me parece pungente nessa história é a inevitabilidade de uma sentença de morte porque simplesmente uma engrenagem foi ligada e nada pode detê-la. Como vocês vem o processo dramatúrgico desenvolvimento por Dürrenmatt nesse sentido?
DF: – Dürrenmatt amava as tragédias gregas onde o destino é algo que não se pode mudar.  A peça faz um paralelo nítido com as tragédias.  Apesar de se tratar de uma comédia.  Por que ninguém pode deter a engrenagem?  Dürrenmatt nos faz pensar sobre isso.  Ele diz que “neste manicômio labiríntico em que inventamos viver, onde não há mais culpados e inocentes, todos temos culpa, estamos engendrados num mundo onde as pátrias transformaram-se em Estados, os povos em massas e o amor pátrio em fidelidade à firma.” Ele acredita que “a tragédia do mundo moderno só é passível de representação no teatro através da comédia.”   A comédia faz a gente olhar de longe pra tentar entender, né?  É bonito e angustiante.  A peça diverte e a arrebata.  É um dilema: fico feliz de poder falar sobre isso nesta hora e triste por a peça ser cada vez mais pertinente.
TA: – Acho que a engrenagem pode ser parada sim mas não há vontade, nem coragem das pessoas daquela cidade para para-la. Usam um crime cometido no passado como desculpa para cometer outro crime pelo simples fato que esse crime lhes trará vantagens. Torcem a Justiça para que esta Justiça lhes seja útil. Olha aí a atualidade do texto no Brasil de hoje. Dürrenmatt criou um texto impecável, nada está fora do lugar. Não há uma única peça sobrando, tudo está amarrado, todas as citações que faz tem uma razão para estar ali. Sem contar que por ser um escritor de novelas policiais radiofônicas, o autor consegue criar um suspense que prende o fôlego da plateia do começo ao fim.
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BC: – Vocês acreditam que o comportamento humano se modifica quando se esconde no meio da coletividade?
DF: – Sim, muito.  Uma das perguntas que gosto de fazer a respeito da peça além de “o que somos capazes de fazer em nome do nosso pão?” é: “Até onde dá pra fingir que está tudo bem?” A peça nos faz ver o quanto de nossa omissão pode se concretizar em ação.
TA: – Sem dúvida! Escondido o ser humano deixa todos os monstros virem à tona, haja vista o Facebook.
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BC: – Dürrenmatt delineia os principais vértices de uma sociedade, tendo o professor como um símbolo da construção de valores éticos, o pároco que é responsável pela autoridade religiosa, o policial que mantém a lei e a ordem, e o médico representando o poder da burguesia. É possível compreendermos através do texto de Dürrenmatt todo um funcionamento cínico e ao mesmo tempo universal das engrenagens sociais?
DF: – Acho que sim.  É um autor genial!  Como você mesmo disse, lida com arquétipos, mas como se nada fosse, de modo muito sutil, vai capturando o público.  A peça muitas vezes se assemelha a um thriller policial, mas com o público capturado, nos fala de uma coisa muito maior.
TA: – Pessoalmente acho que esse é um dos pilares desse texto, a denúncia de como a nossa sociedade é cínica, de como a justiça serve a determinados interesses e perde o senso de Justiça. Até o professor que, como você mesmo disse, tenta a construção de valores éticos, acaba reconhecendo que a sociedade que nós construímos está podre e que seu esforço é em vão. No final da peça ele é apenas um bêbado desesperado.
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BC: – Como foi o trabalho de criação com Luiz Villaça? De alguma maneira a sua experiência no audiovisual interferiu na concepção do espetáculo?
DF: – A formação do Luiz é no cinema, mas ele já dirigiu várias peças.  Sinto que o grande barato do Luiz é o ator e a cena.  Fazer a cena acontecer com potência, em sua plenitude.  E isto serve ao cinema e ao teatro.  Fico muito feliz por ele estar fazendo Teatro.  O Teatro nos dá tempo para experimentar.  O ensaio é o lugar do erro e se amplia muita coisa quando se pode errar.  O Luiz é um diretor que deixa o ator trabalhar junto, criar livremente para que depois ele equalize todas as riquezas que todos ofereceram.  Fizemos workshops, foi muito rico o processo.  A peça nos oferecia uma variedade enorme de material, de camadas a investigar.  E ele entende muito de ritmo, por vezes parece um maestro de orquestra.  O cinema, neste sentido, dá uma visão muito boa a respeito do quanto de tempo, de silêncio, de vigor ou suavidade uma cena precisa, uma história precisa para ser contada.
TA: –   O Luiz Villaça é um diretor que respeita profundamente a criação do ator, ele gosta de atores e sabe que aquela história apesar de ter a assinatura dele será contado por nós, os atores. Ele sabe conduzir o ator para onde ele deseja que vá sem impor nada e isso não é pouca coisa. Entender um ator e se fazer entender não é tarefa para iniciante. Além de que o Luiz foi o diretor mais carinhoso com quem já trabalhei e tem uma paciência de monge budista. Acredito sim que sua experiência no audiovisual tenha interferido na concepção do espetáculo mas não me sinto capaz de dizer como e até onde, sempre me senti sendo dirigido por diretor de teatro.
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BC: – Denise, quais os desafios de produzir, em tempos de retração nos investimentos culturais, um espetáculo com um numeroso elenco em cena e ainda sair em turnê pelo Brasil?
DF: – Primeiro: só conseguimos fazer isso porque existe a lei Rouanet e temos parceiros. O Bradesco patrocina nossas produções há dez anos.  Fizemos a produção da peça no Sesi, ficamos seis meses em cartaz em São Paulo no maravilhoso Teatro Popular do Sesi com ingressos gratuitos.  Agora vamos viajar pelo Brasil com este elenco numeroso, uma equipe de dezoito pessoas ao todo, mas porque temos o patrocínio do Bradesco, senão isso não seria possível. Aqui no Rio, tivemos o apoio do Sesc.  Estas instituições entendem não só a necessidade da arte para um povo, mas o quanto a produção cultural movimenta a economia do país.  Para nós da Nia, eu, Luiz e nosso incrível produtor, Zé Maria, um ousado homem de teatro, ter uma boa temporada significa fazer São Paulo, Rio e a turnê.  Precisamos fazer isso como uma necessidade: levar nossas produções ao maior número de pessoas possível.  É preciso contar a tal história que nos flechou o coração, é preciso propagá-la.  Não é fácil. A conta é alta e precisa ser bem planejada.  É perigoso, tudo é muito caro com este número de pessoas.  Mas e aí?  E o que precisa ser dito? Esta peça nunca mais será montada?  As cidades fora do eixo cultural terão que se contentar com a febre dos Stand Ups? Quando se pensa a arte só pelo que rende, pode se perder muito.  É preciso escolher ganhar menos para ver proliferar outras riquezas.

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BC: – Como foi a receptividade do público na temporada do SESI de São Paulo?
DF: – Incrível, graças a Deus!  Tivemos casas cheias todos os dias.  É incrível fazer no Sesi.  Poder fazer com ingressos gratuitos uma peça como essa.  E me confirmou o quanto que a peça, apesar de sua sofisticação, é popular.  Pela acessibilidade, chegava ao teatro um leque muito vasto de tipos de pessoas, de todas as classes e idades.  Muito bonito, muito rico.
TA: – Incrível! Esse projeto de teatro popular que o SESI tem é fantástico, além de ser totalmente gratuito. Foram inúmeras vezes que ouvimos alguém do público dizer que era a primeira vez que estavam num teatro. Foi muito recompensador!
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BC: – O espetáculo agora parece entrar num novo estágio, ganhando as estradas do Brasil. Que expectativas você tem dessa temporada o SESC Ginástico?
DF: –  Estivemos no Sesc Ginástico em 2012 com Sem Pensar, também dirigida pelo Luiz.  Na segunda semana, tinha uma placa na bilheteria “ingressos esgotados até o fim da temporada”.  Não quero ter expectativas altas, mas gosto de pensar que este teatro me dá sorte.  Nunca mais esqueci esta plaquinha.  Vendo o que a nossa Visita tem causado nas pessoas, estou bem otimista.  Quando olho os comentários no nosso Instagram e no Face sobre a peça, percebo que ela tem causado nas pessoas exatamente o que causou em mim quando li e tive tanta vontade de leve-la aos palcos.  Acho que uma das maiores funções do teatro hoje é dar voz às nossas angústias.  Tem uma reação costumeira da plateia que não chega a ser uma risada, mas é uma reação coletiva que é como se estivessem dizendo: “obrigada por dar palavras àquilo que eu sinto e não sei dizer.” o Teatro é um grande ritual de reflexão.  Duas horas de todos nós ali, presentes fisicamente, sem os celulares, pensando juntos, realmente conectados. Isso virou uma preciosidade e algo muito poderoso.  Como dizia Brecht/Galileu: “Pensar é um dos maiores prazeres da raça humana.” Quando isso é feito através do humor, então, é o melhor divertimento.
TA: –  Sempre as melhores possíveis afinal temos um espetáculo que tá contando o que está acontecendo com a nossa sociedade nesse exato momento.

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Foto: Cacá Bernardes

Ficha Técnica:
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução: Christine Röhrig
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral: Luiz Villaça
Direção de Produção: José Maria

Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino

Direção Musical: Dimi Kireeff
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Preparação Corporal e Coreografias Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Fotografia: Cacá Bernardes
Assessoria de Imprensa RIO:  Barata Comunicações | Eduardo Barata
Assessoria de Imprensa SP: Morente Forte Comunicações
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Produção Original: SESI-SP | FIESP
Patrocínio Exclusivo: Bradesco
Realização: Sesc Rio de Janeiro, NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

A VISITA DA VELHA SENHORA
Teatro Sesc Ginástico
Av. Graça Aranha, 187, Centro
De 01o a 25 de março de 2018
De quinta a sábado às 19h, e domingo às 18h
Sessões extras dias 23 e 24 de março às 15h
Estreia dia 01o de Março às 20h.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada) | R$ 7,50 (associados Sesc)
Horário de funcionamento da bilheteria:
de terça a domingo das 13h às 20h
Informações: (21) 2279-4027
Recomendação: 14 anos | Duração: 120 minutos | Gênero: Comédia Trágica


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