Entrevista: Duda Maia


 
Duda Maia

Duda Maia

Por Renato Mello

Após a enorme repercussão alcançada por “A Gaiola”, um dos mais premiados espetáculos dos últimos anos destinados ao público infantojuvenil, Duda Maia retorna a esse particular segmento com a estreia de “Contos Partidos de Amor”, inspirado na obra de Machado de Assis.

Contos Partidos de Amor” estreia no dia 17 de março no Teatro III do CCBB e aborda de forma bem-humorada e poética sentimentos presentes na vida tanto de crianças quanto de adultos: o amor e o ciúme. O espetáculo dá continuidade à trilogia “Três Histórias de Amor para Crianças” iniciada em 2016 justamente com “A Gaiola” e posteriormente com “Amor Dentro da Gente”.

Atualmente em cartaz com “O Tempo Não Dá Tempo”, espetáculo itinerante em homenagem aos 90 anos de Angel Vianna, no OI Futuro Flamengo; e em preparação para dirigir o musical em homenagem à cantora Elza Soares, Duda Maia revela nesta entrevista detalhes sobre o processo de criação para “Contos Partidos de Amor”, suas opções cênicas e motivações para seguir  atuante no teatro infantojuvenil

Foto: Raí Junior

Foto: Raí Junior

BC: – Que aspectos você enxerga na obra de Machado de Assis que possibilitam adaptá-la para um público infantojuvenil?
DM: – Escolhi Machado de Assis por não ser muito montado para crianças. Gosto de desafios. Mas, principalmente, porque resolvi falar de ciúme, e na sua escrita aparece com muita clareza esse lugar da posse, do orgulho e da vaidade. Quando comecei a comentar com alguns amigos, pais e mães, que queria falar de ciúme para criança e que tinha escolhido fazer uma adaptação de Machado de Assis, todos ficaram muito empolgados. Tanto por apresentar o autor para o público mirim, quanto por apresentar um tema considerado potente para possibilitar novas conversas.
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BC: –  Mesmo escrito há mais de 100 anos, quando as relações sociais e morais eram diferentes, de que maneira a abordagem de  Machado de Assis para questões relacionadas aos sentimentos humanos ultrapassam aspectos temporais?
DM: – O amor e o ciúme são atemporais, gostar e querer atenção é de quem está vivo. É instinto, não é racional. Para montar a peça, não mergulhamos nas questões morais e sociais do século XIX, muito pelo contrário, até modernizamos os pensamentos da época. Mas mesmo trazendo para 2018, a essência está lá, o coração do ser humano, a maneira como o Machado de Assis descrevia uma pessoa capturada pelo amor e atormentada pelo ciúme. Amor e ciúme é de hoje, foi do Machado, foi de antes do Machado. Acredito que será sempre assim.
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Foto: Rai Junior

Foto: Rai Junior

BC: – A questão do afeto permeia seus últimos trabalhos infantojuvenis, como em “A Gaiola” e “Guerra Dentro da Gente”. Você entende que de alguma forma “Contos Partidos de Amor” dialoga com seus espetáculos anteriores?
DM: – Sim. Assim como nas peças “A Gaiola” e “Guerra Dentro da Gente”, em “Contos Partidos de Amor” proponho apresentar situações que acontecem diariamente, dentro de casa e no dia a dia da escola. Até hoje não tive vontade de encenar histórias que não falam da essência do ser humano. Acho gente um bicho muito estranho e muito lindo. Quando falo sobre isso tanto pra crianças, quanto para adultos, acabo me entendendo um pouco também.
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BC: – Que aspectos da sensibilidade infantil você espera atingir com “Contos Partidos de Amor” e de que maneira?
DM: – Essa é uma pergunta difícil de responder, pois não tenho um pensamento sobre isso. Quando estou em sala, procuro primeiro afetar os atores, descobrir a partir dos seus corpos como eles se sensibilizam com aquela história, aquele gesto, aquela maneira de cantar ou tocar. Quando os atores começam a reagir na sala de ensaio, com risos ou choros, ou se empolgar e querer ensaiar e discutir mais, começo a perceber que estou encontrando um caminho que irá interessar a quem assistir, crianças e adultos. Como todo trabalho que faço, tem esse lugar híbrido de misturar linguagens. Esse novo trabalho irá acessar o público pela música, pela dança e pela forma detalhista de se contar uma história machadiana.
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BC: – Gostaria que você abordasse a construção da dramaturgia do espetáculo, o desafio de unificar uma base literária fragmentada por diversos contos.
DM: – Lemos muita coisa e discutimos muito. Queríamos fazer algo original, que bebesse da fonte Machado de Assis, mas que fosse nosso de verdade. Sempre começo meus trabalhos pela linguagem física. Primeiro descobrimos o nosso gestual ciumento e possessivo e, a partir dele, fomos escolhendo as histórias e os poemas. Escolhemos duas histórias para aprofundar, “To be or Not To be” e “A História da Fita Azul”.
O Eduardo Rios escreveu belamente do seu jeito, mantendo sua essência, mas mudando muita coisa também. Usamos também alguns poemas que serviram como inspiração para o Eduardo escrever as letras e Ricco Viana musicar, como “O Verme” e “Círculo Vicioso”. E com esse material, fomos costurando, bordando e organizando. É um espetáculo fragmentado, sim, mas bem amarrado. Sou da dança, não é? Gosto das coisas bem claras e organizadas (risos). E é importante sempre ressaltar que todos opinaram. É um processo coletivo entre atores, diretora assistente, produtor, criadores. Todos discutem, falam e questionam. A partir dessa escuta, vou organizando as ideias. Amo esse processo de criar junto. É um aprendizado diário muito rico.
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Luciana Balby,Tiago Herz,Duda Maia,Diego de Abreu, Eduardo Rios e Isadora Medella. Foto: Rai Junior

Luciana Balby,Tiago Herz,Duda Maia,Diego de Abreu, Eduardo Rios e Isadora Medella. Foto: Rai Junior

BC: –  Mais uma vez você trabalha com uma obra literária adaptada por Eduardo Rios. Que qualidades você enxerga em Eduardo Rios para solidificar a estrutura narrativa em alguns dos seus recentes trabalhos?
DM: – Acho o Eduardo um dos grandes destaques do cenário atual. Ele mistura numa dose muito precisa, dois componentes que amo na escrita: poesia e humor. Além de ser um profissional extremamente generoso para o trabalho coletivo, ele é exigente e batalha por suas ideias, mas com um respeito imenso por quem está no palco. Como ele também é muito bom ator, tem a sensibilidade de escrever para quem vai dizer, vai dando a palavra de presente pra quem vai defendê-la.
Amo quando ele se surpreende com o que escuta, ele vibra como se não fosse ele quem escreveu, como se tivesse ouvindo pela primeira vez. Amo criar ao lado dele, me sinto livre e suas palavras têm movimento, elas dançam. Esse menino vai muito longe. E queria destacar o Ricco Viana, nosso diretor musical, que também é responsável pela dramaturgia. A música de Ricco e a forma como ele a coloca, quase vira texto. Outro talento que tenho o prazer de ter em minha equipe.
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BC: – Sobre o elenco, como se deu a sua formação? Quais as razões da formatação desse quarteto formado por Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz? Que qualidades você enxerga em cada um deles que os amoldam na sua concepção cênica?
DM: – Então, essa é uma parte delicada. Acertar o elenco é acertar mais da metade da peça (risos). Para trabalhar comigo, precisa ter muita disponibilidade. Primeiro porque é extremamente cansativo, muitas horas de trabalho físico. Não faço trabalho de mesa, vou entregando o texto, aos pouquinhos, à medida que vou acreditando nos corpos. Não tem uma análise sobre o que vai ser dito, então, não dá para decorar o texto e vir de casa sabendo. Além disso, eu precisava de atores que tivessem afinidades musicais, como cantar e tocar, e isso também é difícil de conseguir.
Eu precisava de bons atores, disponíveis e inteligentes, musicais, e também diferentes, porque sou da escola da não atuação. Quero a pessoa com a história dela e as experiências dela e isso, às vezes, é muito sofrido para o ator, se ver e se mostrar de verdade, como você é. Diego, Lu, Tiaguinho e Isa são maravilhosos. É um encontro bem particular. O Diego é um ator experiente que tem uma linha cômica tênue com um entendimento raro da palavra, além de ser um ótimo percussionista. A Isa é de uma irreverência arrebatadora, tem um corpo maravilhoso que responde muito rápido e sua experiência como diretora musical, cantora e musicista tem sido essencial para todos em sala. A Lu é uma cantora potente e vigorosa e, ao mesmo tempo, tem uma simplicidade encantadora na sua interpretação, e com a característica ariana de ser direta e rápida, que encaixou como luva na história que ela conta. O Tiaguinho é nosso ator mais novo, acho que ele é dos atores mais modernos da atualidade, sua interpretação é contemporânea, não tem vícios. E ao mesmo tempo, tem um rosto teatral, é uma figura muito interessante em cena, e com habilidades musicais. Esse quarteto é um deleite pra quem dirige.
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BC: – Dentro da própria classe teatral, o teatro infantil ainda é visto, de maneira distorcida, como algo menor. O que te move para realizar tantos projetos voltados para esse segmento?
DM: – Eu sei que estamos vivendo um momento difícil e sei que o teatro para crianças termina sofrendo um pouco mais, perdendo espaço e recursos, mas não posso me queixar. Tenho conseguido abrir portas para dialogar sobre esse segmento, ao lado da competente produção de Bruno Mariozz, e criado parcerias, como é o caso do CCBB, que já é a minha casa, que trata desta área de forma muito séria. Sou otimista e vejo muitas outras produções trabalhando com o mesmo cuidado e dedicação. Não penso em fazer um trabalho para criança, busco boas ideias, vou atrás do que me interessa falar.
Curiosamente, as últimas idealizações têm sido pra crianças, assim foi com as peças “A Gaiola” e “Guerra Dentro da Gente”, e agora “Contos Partidos de Amor”. Tenho outros infantis na cabeça. São livros que leio e tenho vontade de tirar do papel e virar movimento. Mas, claro, que uma vez montado, quando estou na plateia, morro de amor, pelos olhinhos curiosos, os comentários sagazes e principalmente pelos diálogos que se abrem com os adultos no final de cada sessão. Acho que o teatro sério para crianças é necessário, uma atitude política. A esperança de um mundinho melhor.
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BC: – Que expectativas você aguarda para “Contos Partidos de Amor”?
DM: – Sempre procuro fazer teatro para a família, e não para as crianças. Busco, com o programa de ir ao teatro, agregar os espectadores. O que quero sempre é que quem esteja no palco, só queira estar ali e em nenhum outro lugar. E quem está do outro lado, escutando, observando, sentindo, que esteja atento o tempo todo, e imaginando e criando a sua história, sem vontade de parar para ler o programa, se desligando de verdade do que acontece fora do teatro e vivendo uma experiência única. Pode ser pretensioso querer tudo isso junto, mas que é lindo quando acontece, é.

Foto: Rai Junior

Foto: Rai Junior

FICHA TÉCNICA
“Contos Partidos de Amor”
Baseado na obra de Machado de Assis
Texto: Eduardo Rios
Direção e roteiro: Duda Maia
Diretora Assistente: Leticia Medella
Intérpretes-criadores: Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz
Trilha Sonora Original: Ricco Viana
Preparação Vocal: Agnes Moço
Figurino: Kika Lopes
Cenário: Diogo Monteiro
Iluminação: Renato Machado
Identidade Visual: Anna Cunha
Fotografia: Rai Junior
Direção de Produção: Bruno Mariozz
Produção: Palavra Z produções culturais
Idealização: Camaleão produções culturais

SERVIÇO:
Temporada: 17 de março a 1º de abril de 2018.
Local: CCBB RJ – Teatro III (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro).
Informações: (21) 3808-2020.
Dias e horário: Sábados e domingos, às 16h e 19h.
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia para clientes e funcionários do BB, estudantes e maiores de 60 anos).
Bilheteria: de quarta a segunda, das 9h às 21h.
Vendas online: www.ingressorapido.com.br
Duração: 50min.
Capacidade: 69 lugares.
Classificação indicativa: Livre. Rec. Etária: 6 anos.
Acesso para portadores de necessidades especiais
Para mais informações: ccbbrio@bb.com.br
http://culturabancodobrasil.com.br/portal/


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