Entrevista: Fabricio Moser


 

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Por Renato Mello

Iniciando nova temporada do seu solo, “Laura”, o ator e diretor Fabricio Moser concedeu entrevista ao Botequim Cultural para falar de um espetáculo de cunho autobiográfico concebido a partir de uma tragédia familiar, o assassinato de sua avó na esquina de casa, quando Moser sequer tinha completado 1 ano de vida.

Aspectos interiores, opções artísticas e motivações para levar ao palco uma representação sobre um episódio tão representativo de sua vida são temas desta conversa sobre um espetáculo que busca descobrir quem foi essa mulher, filha, mãe e avó, e quais circunstâncias marcaram sua vida e morte e como elas se relacionam com a família e o neto que não a conheceu. Se a forma como Laura morreu silenciou a sua trajetória de vida, na peça esse evento trágico se inverte, gerando um encontro teatral e evocando a presença da personagem.

Laura” permanecerá em cartaz de 4 a 27 de agosto na Sala Baden Powell, Copacabana.

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BC: – Seu espetáculo trata de uma questão íntima muito profunda a partir de um episódio trágico. De que maneira essa dor foi vivida dentro da sua relação familiar ao longo de todo esse período até o momento em que você resolveu compartilhá-la?
FM: – Ao longo dos meus 33 anos de vida, houve um movimento de apagamento dessa tragédia. Esse episódio foi digerido pela família especialmente através do silêncio, que fez desaparecer do nosso convívio a figura da minha avó materna e perpetuou um trauma coletivo. A partir do momento em que decidi enfrentar essa dor e fazer a peça sobre a vó Laura, promovendo a fala sobre essa tragédia através de seus rastros e das diversas testemunhas que ainda permanecem vivas, as quais entrevistei e entrevisto continuamente, abriram-se diversas janelas sobre a história da nossa família e eu descobri questões até então escondidas, recalcadas. Houve um pequeno movimento na família contrário a feitura da peça, da investigação desse evento íntimo sob o olhar artístico, mas que não foi forte o bastante para não a deixar existir através do teatro. Fato é que, através da peça e da sua feitura, essas dores e amores puderam ser revividos de outras maneiras pelos meus familiares, e a figura da minha avó, até então esquecida, ganhou relevo dentro da minha trajetória e retomou sua presença na consciência de toda a família. Os mortos passaram a conviver com os vivos não mais apenas pelo vínculo da tristeza e da dor, mas também da alegria e da saudade.

BC: – Como surgiu sua necessidade de criar um espetáculo teatral de sua história familiar?
FM: – Eu falo um pouco dessa necessidade, desse chamado, durante a peça. De alguma forma houve um convite, eu recebi ao longo da vida alguns sinais. Há um jornal velho cuja capa estampou o assassinato da minha avó e que me foi mostrado na infância por uma tia contadora de histórias. Nunca me esqueci daquela imagem. Desde então, a percepção do silenciamento dessa personagem dentro do contexto familiar e as repetidas tragédias que acompanharam a minha vida me convocaram a colocar essa história em cena, a aprender e ensinar através dela.

BC: – Ao longo dessa convivência com a personagem do seu espetáculo, qual foi sua mais significativa descoberta pessoal?
FM: – A descoberta de si, o movimento de autoconhecimento, que acontece através da jornada de um outro, da consciência coletiva, o papel de nossos ancestrais e as heranças de nosso passado comum.

BC: – O que da sua avó habita em você?
FM: – Todas as noites me coloco essa questão em cena, diante do público, e muitas respostas já se apresentaram. Há alguns traços da vida da vó Laura que me apareceram com mais força, como o gosto pela dança, a abertura para o indizível, a magia, como é o teatro, e a coragem por quebrar paradigmas.

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BC: – Qual sua percepção de como a história que você conta é recebida por pessoas que não conhecem sua trajetória de vida? De que maneira e em que medida o espetáculo “Laura” te acrescentou, seja como artista ou indivíduo?
FM: – Ao longo da trajetória da peça, vivenciei diversas reações, tanto durante as apresentações como após elas, sempre muito positivas, emocionantes. Há um inventário com mais de 100 escritos deixados por quem já viu a peça sobre suas avós, e que fazem parte do cenário-instalação. Acho que, embora a minha história seja a de um desconhecido pra muitos, o trabalho consegue estabelecer relações de identificação, seja porque todos já tivemos avós, conhecendo-as ou não, seja porque todos já vivemos tragédias familiares e buscamos respostas para o presente conhecendo o nosso passado. Como artista, esse trabalho fez todo o sentido na minha trajetória profissional. É um caminho para o um novo entendimento da cena, da arte, mais liberto de uma formação tradicional, seja pelo cruzamento de linguagens artísticas ou mesmo pela ideia de invenção de uma poética. Além disso, há uma proposição por trabalhar e empreender de forma independente, uma necessidade nos tempos de hoje.

BC: – Quanto à criação dramatúrgica, gostaria que você abordasse a forma como se deu esse processo.
FM: – No caso de Laura, o método é a pesquisa em si e a dramaturgia recebeu forte influência de tudo o que se apresentou e se apresenta como material desde o princípio. A estrutura dramática se construiu de maneira orgânica, mas há forte influência de conceitos como ego-história, bem como noções estruturais que remetem a jornada do herói mítico, em Joseph Campbell, que se assemelham às fases do sonho, em Jung, ou a lógica das cartas do tarô, um dos saberes que minha avó, por exemplo, praticava. Ela lia cartas para as pessoas, e a peça é, de certa forma, um jogo, um jogo de cartas. Houve também uma inclinação por inverter o evento fundamental na estrutura da tragédia, trazendo-o para o princípio da peça, partindo da morte em direção a vida, do silêncio em direção a palavra.

BC: – Você assumiu a função de direção. Não sentiu a necessidade de buscar um olhar externo para algo que se passa pelo seu terreno pessoal?
FM: – Eu assumi a função de criador e convoquei outros seis artistas que admiro para colaborarem nesse processo: Ana Paula Brasil, Cadu Cinelli, Francisco Taunay, Gabriela Lirio, Nathália Mello e Rafael Cal. Mas sem haver hierarquia ou especificidade, todos colaboraram com base na sua identificação com o trabalho e da forma como sentiam vontade. Assim, houve e há um olhar externo e uma interferência externa que é filtrada pela minha performance artística, já que se trata de um autobiografia. Essa escolha aceita a fragilidade da vida e do teatro, a fricção entre a realidade e a ficção, erros e acertos, nada é igual mesmo sendo repetido. No fim, trata-se de uma história minha, contada por mim, mas que é atravessada por outras histórias todas os dias, de outras avós, famílias, de nossos ancestrais em comum.

BC: – Há momentos de interatividade e troca com a plateia. Por que essa opção e de que maneira ela se dá?
FM: – A ideia é fazer dessa experiência pessoal uma experiência coletiva. Essa essência teatral e empática pra mim é uma das grandes chaves subjetivas desse trabalho, um mecanismo que começo cada vez mais a fazer presente nas minhas obras, uma ideia de que teatro é interação. Como todo mundo teve avós e pode testemunhar ao longo da vida alguma tragédia, o trabalho procura essa identificação e o público é levado a ajudar na construção do inventário de lembranças a cada noite, um jogo de escolha das fontes disponíveis, da qual o público participa em diferentes momentos da peça sem uma imposição ou obrigatoriedade. Há momentos em que o público ajuda a escolher o rumo da peça, bem como pode fazer parte dela compartilhando seu testemunho. Me imagino como minha avó recebendo as vizinhas em casa, fazendo um chá pra elas, conversando.

BC: – São aproximadamente quatro anos desse percurso desde que decidiu transformá-la em espetáculo. Para sua nova temporada na Sala Baden Powell, você ainda consegue renovar expectativas?
FM : – Como se trata de um trabalho autobiográfico e documental, ele se transforma com o tempo, inclusive novas fontes documentais só foram agregadas à dramaturgia recentemente. É o caso de uma carta escrita por um filho ainda vivo da vó Laura, meu tio Pedro, que eu só consegui localizar depois de já ter estreado e circulado com o trabalho. No princípio da trajetória da peça, eu dispunha de certa quantidade de material, mas hoje eu disponho de muito mais documentos, porque um trabalho teatral como o meu se transforma intencionalmente com o tempo. Por se tratar de um trabalho intimista, as sessões, embora já quase completem uma centena, tendem a alcançar um público reduzido a cada temporada, ao menos no caso do Rio, o que faz pensar também que a expectativa é de ampliar o alcance da peça, já que vivemos em uma metrópole.

BC: – Por fim, para você, quem foi Laura?
FM: – Laura é alguém que tem meu sangue e que, como não pude conhecer pessoalmente, estou conhecendo um pouco a cada noite através do encontro que o teatro proporciona. Sem dúvida, descobri que ela foi como uma bruxa: fazia chás, xaropes e benzimentos que curavam as pessoas. Como mulher, teve uma vida difícil e por ter decidido viver da forma que sentia vontade, e partir em busca da sua felicidade representou uma afronta a uma sociedade machista como a de uma cidade antiga e pequena do interior do Rio Grande do Sul, pagando com a morte por sua ousadia. Por mulheres como ela é que devemos seguir lutando e transformando a nossa sociedade tão desigual em uma comunidade mais justa e afetuosa.

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FICHA TÉCNICA
Criação, dramaturgia, direção e atuação: Fabricio Moser
Colaboração artística: Ana Paula Brasil, Cadu Cinelli, Francisco Taunay, Gabriela Lírio, Nathália Mello e Rafael Cal
Assistência de Produção e de Palco: Ricardo Martins/Eduardo Almeida
Programação Visual: Bruno Morais

SERVIÇO
Sala Municipal Baden Powell (Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 360, Copacabana)
De 4 a 27 de agosto de 2018
Sábados, domingos e segundas, as 19h
Inteira: $ 40
Meia: $ 20
Lotação: 40 pessoas
Classificação: 16 anos
Duração: 80 minutos


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