Entrevista: Felipe Lima, idealizador e produtor de “Lá Dentro Tem Coisa”


 

Por Renato Mello

rsz_2felipe_lima_1Depois do enorme êxito artístico e comercial de “Mas Por Quê??! – A História de Elvis“, que recebeu alguns dos mais significativos prêmios do teatro infantojuvenil, o ator e empreendedor cultural Felipe Lima retorna ao segmento com o espetáculo “Lá Dentro Tem Coisa” baseado na obra “Partimpim“, coleção de canções lançada pela cantora e compositora Adriana Calcanhotto.

Contando com um elenco  composto por representativos nomes do teatro musical brasileiro, dramaturgia assinada por Adriana Falcão, Rafael Gomes e Vinicius Calderoni,  direção de Renato Linhares e direção de arte do artista plástico Vik Muniz, “Lá Dentro Tem Coisa” estreia no dia 2 de setembro, no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, permanecendo em cartaz até 29 de outubro, sempre aos sábados e domingos, às 17 hs.

Nesta entrevista que gentilmente nos concedeu, Felipe Lima comenta o processo de criação do espetáculo, seu pensamento sobre o teatro infantojuvenil e suas expectativas com  “Lá Dentro Tem Coisa“.

Elenco completo: Luellem de Castro, Julia Gorman, Leonardo Senna, Simone Mazzer, Leo Bahia eEstrela Blanca, Foto: Daryan Dornelles

“Lá Dentro Tem Coisa” e seu elenco completo: Luellem de Castro, Julia Gorman, Leonardo Senna, Simone Mazzer, Leo Bahia e Estrela Blanca, Foto: Daryan Dornelles

BC: – Como surgiu a percepção que o universo de “Partimpim” poderia se transformar num espetáculo teatral?
FL: – Eu sempre fui apaixonado pelo trabalho da Adriana Calcanhotto, especialmente pelas coleções de canções para crianças lançadas por ela. Então, a ideia de me aproximar desse universo, de me basear no “Partimpim” para criar um espetáculo teatral infantojuvenil inédito, me surgiu muito naturalmente.

Costumo pensar que qualquer coisa pode ser uma inspiração para desenvolver um projeto, seja uma peça de teatro, um filme, um solo de dança, uma performance ou qualquer outro tipo de manifestação artística. No fim das contas, tudo se resume ao que te toca, ao que você tem desejo de fazer, de falar, de provocar nos outros como pensador e como artista.

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BC: – Adriana Calcanhotto participou de alguma forma do processo de concepção do espetáculo?
FL: – Quando conversamos pela primeira vez sobre desenvolver um projeto, cujo ponto de partida fosse o universo do “Partimpim”, a minha ideia era que ela pudesse se envolver em todas as etapas do processo de criação. Na época, conversamos sobre o meu desejo de ter a Adriana Falcão como dramaturga e sobre o Vik Muniz conceituar esteticamente o projeto, e ficou combinado de que eu o inscreveria nas leis de incentivo, captaria e retomaríamos o contato para continuar a desenhar o projeto.

Um ano e meio depois, quando retomamos o contato, ela estava dando aulas em Portugal, e, por conta disso, seria inviável participar do processo da forma como havíamos pensado. Como eu não poderia adiar a estreia por ter me comprometido com os patrocinadores a estrear em 2017, combinamos que eu enviaria o texto e a seleção musical para que ela pudesse estar ciente dessa parte do processo e de acordo com o seu desenvolvimento.

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BC: – Em “Mas Por Quê??!  – A História de Elvis”, você contou com Rafael Gomes e Vinicius Calderoni para escrever o roteiro. Agora em “Lá Dentro Tem Coisa” somou-se Adriana Falcão. Como foi esse processo de construção da dramaturgia com autores dessa qualidade?
FL: – Desde a primeira vez que conversei com a Adriana Falcão sobre o projeto, eu havia mencionado a possibilidade de ela escrever a dramaturgia do espetáculo em parceria com o Rafael Gomes e com o Vinícius Calderoni. Ela havia acabado de assistir ao musical “Mas Por quê??! -A História de Elvis” e tinha ficado encantada com o trabalho deles e imediatamente aceitou.

Para dar o pontapé inicial, trouxe-os de São Paulo para nos reunirmos e conversarmos sobre o projeto e, após essa primeira reunião, deixei-os em contato para que pudessem começar a escrever.

Desde então, alguns meses se passaram até chegarmos na versão final do texto, devido à dificuldade de conciliar a agenda de todos e o resultado ficou incrível. Um texto divertido, poético, inteligente, sensível e sincero.

Luellen de Castro e Etrela Blanco. Foto: Daryan Dornelles

Luellem de Castro e Estrela Blanco. Foto: Daryan Dornelles

BC: – O elenco é formado por ótimos atores, que também são cantores de enorme capacidade. Ainda é muito difícil montar um elenco infantojuvenil que exija tantos atributos dos atores? Como foi a escolha do elenco?
FL: – Se por um lado temos uma exuberância de excelentes atores-cantores no mercado desde o “boom” das produções de teatro musical, por outro, muitos deles costumam emendar um trabalho no outro e estão constantemente em cartaz em outras produções.

Em dois dias de audição, testamos muitos atores e atrizes sugeridos pela Marcela Altberg, nossa produtora de elenco, e pelo Felipe Habib, nosso diretor musical. O processo de escolha foi difícil. Vimos muita gente muito talentosa e tínhamos que escolher apenas cinco atores. No fim das contas, acabamos escolhendo seis.

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BCQue qualidades você percebe no processo de criação artística que Renato Linhares vem desenvolvendo em “Lá Dentro Tem Coisa”?
FL: – O Renato é um artista que transborda: transborda criatividade, humanidade, sensibilidade. Ele é um pensador, um experimentador que agrega muito ao processo de criação e o faz de uma forma muito doce, muito carinhosa.

Nesse espetáculo, ele repete a parceria com o Felipe Habib, o nosso diretor musical, que também assinou a direção musical de “Mas Por quê??! – A História de Elvis”, dirigida por ele. Eles estão afinados artisticamente e conseguiram criar uma dinâmica de trabalho muito particular que deixa os atores muito à vontade para cocriarem o espetáculo durante o processo de ensaios.

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BC: – Como se deu a participação de Vik Muniz no projeto?
FL: – Quando comecei a estruturar o projeto, liguei para o Vik para convidá-lo para assinar a direção de arte. Disse a ele que havia conversado com a Adriana e que gostaríamos que ele pudesse conceituar esteticamente o projeto. Ele foi muito receptivo. Disse que adorava o trabalho da Adriana, que ela inclusive havia ilustrado um livro infantil dele chamado “Melchior, o mais melhor”, lançado pela Cobogó em 2011, e que teria muito prazer de fazer parte do projeto, porém, que não poderia se envolver na produção das peças por uma questão de agenda, de tempo hábil, e, portanto, que se sentiria mais confortável de aceitar o convite se eu tivesse uma equipe com a qual ele pudesse trocar e fazer sugestões a partir do trabalho deles, das propostas que eles trouxessem para o espetáculo.

Além de ter dialogado algumas vezes com a equipe criativa ao longo do processo de ensaios, partiu dele o conceito da arte do espetáculo, desenvolvida pelo nosso designer.

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BC: – O teatro infantil ainda carrega, erroneamente, uma percepção de amadorismo em relação aos patrocinadores, ao público em geral e mesmo dentro da própria classe artística. Qual a dificuldade de levantar um orçamento compatível com uma equipe artística e técnica tão conceituada como “Lá Dentro Tem Coisa”?
FL: – Apesar de se tratar de uma peça infantil, de uma peça que retrata o universo de uma criança, costumo pensar nela da mesma forma como eu penso uma peça adulta. Tenho o mesmo cuidado na escolha do texto, dos atores e da equipe criativa. Talvez seja por isso que, guardadas as devidas as proporções, não tive mais dificuldade de levantar um orçamento compatível para realizá-la do que teria em levantar um para realizar uma peça adulta. Captar recursos é sempre difícil, independente se é para o teatro, cinema, dança ou festival de música, ou se é com a iniciativa pública ou com a iniciativa privada.

Infelizmente temos poucos editais e os que temos contam com cada vez menos verba para contemplar os projetos. Muitas empresas que poderiam contribuir através das leis de incentivo não têm interesse de investir por acreditar que não se beneficiam contribuindo com um projeto cultural. É uma mentalidade que precisa mudar.

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BC: – O que te move para desenvolver projetos no segmento infantojuvenil?
FL: – Gosto de contar histórias, de pensar sobre as pessoas, sobre as relações, de levantar questionamentos e isso vale tanto para o segmento adulto quanto para o segmento infantojuvenil.

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BC: – Agrada-te o nível técnico do teatro infantojuvenil que se faz hoje ou você ainda percebe uma lacuna a ser preenchida?
FL: – Apesar de adorar teatro infantil, não tenho o costume de frequentá-lo aleatoriamente, muito por conta do horário. Vou quando os amigos estão em cena, na direção ou na produção e me convidam.

Confesso que, apesar de não ter visto muitos espetáculos ultimamente, adorei os dois que assisti ano passado e esse ano: o musical “Tra-la-lá”, no Oi Futuro Ipanema, e “Pedro Malazarte e a Arara Gigante”, no Oi Futuro Flamengo. Saí muito feliz com o que assisti.

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BC: – Por fim, quais são suas expectativas para “Lá Dentro Tem Coisa”? Pretende levá-lo para outros estados?
FL: – Estou muito feliz com o projeto. Com a criação, com a equipe, com as parcerias, enfim, com tudo! Acho que “Lá Dentro Tem Coisa” foi uma conjunção de bons encontros, tanto artístico quanto afetivo. Espero que o projeto seja bem recebido, que possa tocar não apenas as crianças, mas também jovens e adultos e que essa primeira temporada traga muitas alegrias a todos os envolvidos.

 Após a temporada carioca, pretendo excursionar com a peça, passar por diversas cidades, pelas principais capitais entre as cinco regiões do país, para que possamos levar essa obra ao maior número de pessoas possível e sair um pouco do eixo-cultural Rio-São Paulo. A ideia é que continuemos em cartaz pelo menos até meados de 2018.

1_Lá Dentro Tem Coisa_Leonardo Senna e Julia Gorman_Crédito Daryan Dornelles

Leonardo Senna e Julia Gorman. Foto: Daryan Dornelles

 


Palpites para este texto:

  1. Meus parabens ao Felipe Lima pela iniciativa, por nutrir o universo criativo infanto/juvenil. Essas sementinhas sao minha esperanca na construcao de adultos que terao a mente mais aberta para as artes e verao o mundo com olhos mais doceis. Obrigada pelo trabalho lindo de contar historias e nos levar a lugares magicos! “all we need is magic”

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