Entrevista: Fernando Nicolau e Bruno Dante – Criadores de “Histórias de uma Margarida”


 
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Mariana Dias em “Histórias de uma Margarida” – Foto: João Julio Mello

Por Renato Mello

De uma saia longa, cheia de bolsos, nascem histórias contadas através de objetos lúdicos, que conduzem as crianças a uma viagem pela imaginação. Inspirada no conto “A Paixão de Dizer”, publicado no livro “Mulheres” de Eduardo Galeano, a atriz e autora Mariana Dias criou Margarida, uma contadora de histórias, que deu origem ao projeto “Histórias de uma Margarida”, cumprindo temporada até o dia 29 de outubro no Teatro Cândido Mendes, Ipanema.

Histórias de uma Margarida” representa o primeiro trabalho de direção de Fernando Nicolau para crianças, logo após o êxito artístico do monólogo “Se Eu Fosse Iracema”, ainda em circulação pelo país. Os objetos cênicos levam a assinatura do artista visual Bruno Dante, que recebeu em agosto último a menção honrosa no Prêmio Zilka Sallaberry pela linguagem de animação do espetáculo “Por que nem todos os dias são dias de sol?” e que tem se notabilizado pela criação de bonecos tanto para teatro adulto, como no espetáculo “Gritos”, quanto para teatro infantil, como o recente “Tra la lá”.

 Nesta entrevista, Fernando Nicolau e Bruno Dante revelam um pouco mais sobre o processo de criação que desenvolveram para “Histórias de uma Margarida”.

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Para Fenando Nicolau:

Foto: Lenise Pinheiro

Fernando Nicolau – Foto: Lenise Pinheiro

BC: – Ano passado você dirigiu o monólogo “Se Eu Fosse Iracema” e agora está no processo de criação de um espetáculo de contação de história para o público infantil. Quais as diferenças e semelhanças na tentativa de atrair a atenção do público, tanto o infantil quanto o adulto, tendo apenas um ator solitário em cena?
FN: – “Se eu fosse Iracema” é um projeto de vida, idealizado por mim e Fernando Marques, criado por um coletivo de artistas, em processo colaborativo, durante três anos de pesquisa teórica e seis meses de pesquisa cênica/montagem em sala de ensaio, com o objetivo de provocar ecos acerca da questão dos povos indígenas brasileiros. “Histórias de uma Margarida” é um projeto de vida idealizado por Mariana Dias, criado por artistas, em processo colaborativo, durante três meses de pesquisa cênica/montagem em sala de ensaio, com o objetivo de deslocar a personagem Margarida do espaço de educação infantil para o teatro.
Semelhanças: solos feitos por intérpretes femininas; produções – de baixíssimo orçamento – financiadas pelos próprios realizadores; processos criativos colaborativos; profissionais escolhidos, também e principalmente, por afetos íntimos, e liberdade, autonomia para criação dos universos – buscando contemplar o olhar singular de cada profissional envolvido.
Diferenças: Origens e naturezas dos projetos; processos de construção dramatúrgica; duração da pesquisa teórica e da pesquisa cênica/montagem e disposições entre cena e plateia.
Não tento atrair, de forma consciente, a atenção do espectador no momento da criação em sala de ensaio. Me parece que os encontros entre artista e espectador, no momento da feitura da cena, ocorrem pela identificação dos afetos, pela qualidade da auto exposição impiedosa, pelo (re)conhecimento dos campos simbólicos e por vias que nunca saberemos quais são.

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Para Bruno Dante:

Foto: João Julio Mello

Bruno Dante – Foto: João Julio Mello

BC: – Você tem trabalhos recentes em espetáculos adultos como “Gritos” e diversos trabalhos no teatro infantil. Quais as diferenças e semelhanças na conceituação do seu trabalho nesses segmentos?
BD: – O início do processo de um espetáculo é sempre um abismo, mas um território desconhecido que me instiga a buscar meios e referências para contar uma determinada história. Neste ponto, vejo que os segmentos se assemelham, é sempre um lugar abstrato que vai ganhando corpo, tomando forma e encontrando sua estética, a partir do que se quer dizer e de que forma se apropriar do discurso. Outra semelhança é o caráter lúdico que meu trabalho estabelece, independente se é um espetáculo adulto ou infantil, o fato de trazer bonecos para a cena é também explorar o universo fantástico e fora de convenções.
Quanto às diferenças entre os segmentos, dentro do meu processo de criação e conceito, sinto não serem tão delimitadas, sempre será um mergulho em um determinado universo e construção de possibilidades para que ele fisicalize.

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Para Fernando Nicolau:
BC: – Assim como ocorre no conto original de Galeano, de alguma forma o espetáculo busca reavivar por meio de uma memória afetiva os sentimentos e sensações que pareciam enterrados no passado?
FN: – De certo modo sim. Com poesia. Criando um mundo que não tem nada que ver como este mundo onde vivemos.

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Para Bruno Dante:
BC: – Que objetos você criou para “Histórias de uma Margarida” e quais suas funções dentro da narrativa do espetáculo?
BD: – O que me atrai em “Histórias de uma Margarida” é sua característica surpreendente, uma personagem que tira dos bolsos de sua saia inusitados elementos que contam histórias. Procurei criar objetos cênicos a partir da forma de gotas, como gotas de água que regam este jardim. A proposta é que essas formas sugerissem muitos outros significados além do que é mostrado, como, por exemplo, um galo que também pode ser um peixe, uma casquinha de sorvete, uma tromba de elefante. O mais legal disso tudo é possibilitar à criança que ela interprete a forma e desafie o olhar e a própria imaginação.

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BC: – Por que a escolha de um cenário monocromático com a preponderância do verde e objetos cênicos alaranjados? O que representam essas cores e o seu contraste?
FN: – Eu e Bruno Dante escolhemos o tom de verde escuro, símbolo da natureza soberana – e de onde tiramos grande parte da inspiração na vida e na arte -, e o laranja da ausência de gênero.
BD: – Escolhemos o verde como caminho de reverenciar a natureza, a monocromia para mim também é sinônimo da perspectiva da criança: Que jardim não era tão verde, mas tão verde para nós quando crianças a ponto de levarmos na memória que só existia o verde ali? Em ‘Histórias’ é um pouco por aí. Trazer a monocromia surrealista deste jardim. Com relação aos objetos alaranjados, foi uma possibilidade de evidenciarmos estes elementos, como representação de uma cor híbrida, sem gênero.

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Para Fernando Nicolau:
BC: Qual a contribuição de Bruno Dante para a concepção final do universo do espetáculo?
FN: A contribuição do Bruno Dante me parece ser fundamental para a abertura dos meus sentidos lúdicos, algumas vezes adormecidos. Dante me nutre diariamente com a sua maneira de ver o mundo e transformar o real em fantástico.

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Para Bruno Dante:
BC: – Fale um pouco sobre o processo de criação do espetáculo em conjunto com o Fernando Nicolau.
BD: Admiro o olhar sensível e cuidadoso de Fernando. Foi um processo muito bonito onde pudemos compartilhar nossos universos e aprender um com o outro. Muitas vezes eu me sentia fazendo um bolo junto com ele, juntando ingredientes e experimentando que surpresas poderiam sair desse forno.

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BC: – Que aspectos te atraem no teatro infantil para atuar num segmento que é visto como algo “menor” até mesmo dentro da classe artística?
FN: – A possibilidade de semear distintas/ múltiplas narrativas, plantar resíduos poéticos e inventar outros mundos. O juízo de valor é invenção do adulto.
BD: – Para mim, criança é referencial de futuro. Dialogar com elas na arte é uma tentativa de estimular o potencial criativo e transformador que elas possuem. Elas me lembram todo o tempo que a vida é mais simples e me oferecem perspectivas tão importantes de mundo.

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BC: – Quais são suas expectativas para o espetáculo? 
FN: – Procuro não criar muitas expectativas
BD: – Cheguem em nosso jardim e levem consigo nosso carinho em fazer este espetáculo.


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