Entrevista: Gustavo Paso fala sobre os problemas com o “Porto Alegre em Cena”


 

Por Renato Mello

Foto: Mônica Villela

Foto: Mônica Villela

No dia 26 de setembro o diretor teatral Gustavo Paso publicou no seu perfil do Facebook uma denúncia envolvendo o Festival Porto Alegre em Cena, afirmando não ter recebido até o momento o valor devido por suas participações em edições anteriores. O Botequim Cultural encaminhou no dia 27 de setembro questionamentos à produção do festival, não obtendo nenhuma resposta até o momento(Ver AQUI). Gustavo Paso voltou a se manifestar sobre o assunto no dia 30 de setembro informando ter recebido reclamação da curadoria do festival pela exposição do problema. Na mesma mensagem, voltou a expressar sua revolta pelo tempo passado sem nenhuma resolução.

 Diretor, ator, cenógrafo e dramaturgo, Gustavo Paso acaba de completar 25 anos de teatro com uma atuação impressionante em 2017. Com espetáculos de sua Companhia ou como diretor convidado, vem consequentemente apresentando trabalhos de qualidade com total sucesso de público e crítica por onde passam.

 Só este ano estreou em São Paulo e no Rio espetáculos condecorados com inúmeras indicações tanto para o teatro adulto quanto para o infantil. Estreou no Rio de Janeiro o infantil “Casa Caramujo” que lhe rendeu ate agora 11 indicações a prêmios e excelentes críticas. Circulou com os espetáculos “Oleanna” e “Race”. “Oleanna” recebeu indicações ao Premio Aplauso Brasil para Direção, Elenco de Cia e Espetáculo de Cia, saindo vencedor como Melhor Espetáculo de Cia de SP em 2016, além de indicação no Premio APCA. Já “Race” lhe redeu 04 indicações a prêmios entre APCA, Shell e Aplauso Brasil. Estreou “Hollywood,” 3ª peça da trilogia Mamet com excelentes criticas, e em setembro apresentou a “A Festa de Aniversário” de Harold Pinter, no Teatro Poeira – RJ, que está em cartaz atualmente também com excelentes criticas.

Gustavo Paso gentilmente concedeu esta entrevista ao Botequim Cultural em que detalha toda uma questão que já perdura por 2 anos:

-X-X-X-X-

BC: – Que espetáculo você apresentou e que sentimento ficou da relação dele com o público local no 22º Porto Alegre em Cena?
GP: – “Oleanna” de David Mamet, primeiro espetáculo da nossa Trilogia Mamet. Nós temos uma relação próxima com Porto Alegre, mais precisamente no Theatro São Pedro, onde até fantasma já vi! Estreei o “Alzira Power” lá em 2009, depois passamos inúmeras vezes pela capital. Sempre uma felicidade pisar naquele palco, na cidade e o retorno desse publico. A repercussão da peça foi incrível, fizemos duas apresentações no festival.

BC: – Qual foi a alegação para não pagarem na data inicialmente estabelecida?
GP: – Que uma das empresas patrocinadoras, na época não foi a Prefeitura a empresa citada, que não havia feito o repasse.

BC: – Nesses 2 anos, ocorreram novas promessas e prazos estabelecidos para a quitação?
GP: – Apenas que não tinham a previsão do repasse, nos contatos feitos em média a cada 3 meses, partindo sempre da produção. O festival nunca se posicionou nesses anos sem ser questionado.

BC: – Por que não pagaram no ano passado, pois teve a edição normalmente do Festival assim como este ano?
GP: – Eles fizeram uma proposta em setembro de 2016, chegamos a tirar a nota, pagar o imposto além de atualizar toda documentação da empresa para o pagamento. Mas nada aconteceu, agora a promessa é que saia ate novembro.

BC: – Você tem informações se isso ocorreu com outros profissionais que participaram do evento?
GP: – Aconteceu, mas as produções não se colocam entre elas, existe um abismo nas relações teatrais… Nós aguardamos 2 anos pacientemente… Estamos num lugar tão ruim que vamos aceitando tudo. mas pedir para um artista não se impor ao reconhecer uma injustiça, uma falta de ética… é só olhar para o país… estamos perdendo espaço e não podemos abaixar a cabeça. A arrogância, o poder usado de forma equivocada, a tentativa de castração, censura… e, nesse caso, a tentativa de cerceamento da liberdade de expressão pelo curador do edital, fato (real) que nos levou a essa entrevista agora. É importante dizer que a falta de parceria é dos patrocinadores se não cumpriram o que combinaram com o Festival, e não das produções. Nossa parte na REAL PARCERIA cumprimos quando levamos a equipe técnica e atores com nosso dinheiro. O que é isso? Inversão de valores? Cabe o Festival se colocar publicamente defendendo seus acordos, seus artistas selecionados e não terceirizar o problema e tentar nos intimidar.

BC: – Além de não receber, pelo seu relato você mesmo assim pagou todos os profissionais que te acompanharam, aumentando ainda mais o déficit na sua contabilidade. Que consequências práticas essa situação te ocasionou?
GP: – Normalmente nós não colocamos os técnicos, nem os atores esperando para receber das apresentações fora do RJ. Então, além de não recebermos, ainda pagamos todos que viajaram conosco, inclusive as passagens aéreas, pois o festival já em 2015 teve um corte um mês antes da nossa apresentação e como parceiros nos comprometemos em comprar todas as passagens aéreas da equipe para estarmos juntos, realmente entendendo a crise e podemos seguir em parceria. Agora receber um e-mail do atual curador dizendo que não houve parceria de nossa parte, que é um desserviço cobrar ou criticar o festival, que nós temos que reclamar com os patrocinadores??? Essa visão turva de quem está errado é uma agressão aos artistas e agradecemos a vocês por se interessarem pelo assunto e tentar saber do festival porque age assim.
Nossa parceria é incontestável no 22º POA Em Cena. Vale citar que nesse mesmo ano em 2015 fizemos um outro Festival (na região Nordeste) que demorou 6 meses para pagar, mas havia uma preocupação em comunicados claros e constantes da produção com as tratativas com o patrocinador para efetuar o pagamento, agiram de forma clara, respeitosa e ética!

BC: – Que sentimento te causa em ver o festival em atividade mesmo com débitos pendentes de anos anteriores?
GP: – Vergonha e incompetência. Tenho mais de 25 anos de profissão vivendo todas as áreas para se colocar um espetáculo em cena: da ideia, da criação, passando pela captação, pré-produção até a pós-produção… Sou um Homem de Teatro. Realizo produções com patrocínio e sem patrocínio, entendo a necessidade de fazer, de seguir, a urgência de persistir e resistir. Não estamos colocando em dúvida a dificuldade do Brasil e os patrocínios que atrasam e que são cada vez mais escassos, não! Entendemos isso, pois vivemos essa mesma realidade. O que não entendemos é a falta de contato… a falta de explicação vinda de quem nos contratou para se apresentar em seu festival, assim dando a ele visibilidade, troca e real parceria na confiança de voltarmos para casa com dever cumprido e poder receber por isso… e receber a notícia de que lá se vai a segunda edição do festival depois da sua… que você ainda não recebeu… A falta de comprometimento no sentido real de se preocupar com esses contratos em abertos, pois não se engane, o contrato foi com o Festival, então é necessário um comunicado transparente a todas as produções, em respeito a todos os profissionais e se preocupar em criar ações que possam reverter verba para os pagamentos em atrasos, pois é isso que fazemos para sobreviver nas crises, inventar modos, criar possibilidades pra continuar gerando, dessa forma que a roda continua e que as parcerias se estabelecem em cima de respeito, transparência e competência, reconhecendo cada um as suas faltas e seguir melhorando como ser humano. Porque terceirizar os problemas e apenas aguardar patrocínios não vai fazer com que as coisas mudem. Pois se você não pensa em mecanismos para quitar o que deve e segue um, dois, três anos, a culpa não é da lei, não é da Petrobras ou da Prefeitura. A culpa é do ser humano que dirige o empreendimento. Por isso insisto na diferença entre quem produz cultura para seu sustento e quem produz cultura para o alimento de todos.

BC: – Você não vê nisso uma falha nos mecanismos de controle, visto que existe a utilização de isenção fiscal, patrocínio de empresas estatais e ainda assim se permite a captação de recursos independente de débitos em aberto de exercícios anteriores?
GP: – Tudo isso é falta de ética. 99% dos problemas do Brasil é causado pela falta de ética. A lei está lá, a culpa não é da lei não investigar, é de quem se utiliza… de quem a explora e explora quem lhe dá conteúdo! Ao captar para um novo ano era obrigação da direção do festival quitar o anterior, e aí reside a falta relacionada ao ser humano não de instituições, e é quando a situação se agrava. Eles tinham obrigação de pensar em mecanismos para quitar o que deviam… ECONOMIA CRIATIVA não é só um termo bonitinho e na moda, ele ao ser realmente executado, com desejo verdadeiro, pode consertar muita coisa. O erro não é de nenhum patrocinador, a culpa não é da lei. A culpa é do ser humano que dirige o empreendimento.
Se você me perguntar como quitar anos anteriores eu tenho certeza que conseguiríamos encontrar uns três ou quatro caminhos, pelo menos. Foi falta de compromisso, de ética e de respeito conosco e com outros.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

dezembro 2017
D S T Q Q S S
« nov    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31