Entrevista: Gustavo Pinheiro


 

Por Renato Mello

Gustavo Pinheiro

Gustavo Pinheiro

Um dos principais destaques das últimas temporadas teatrais carioca, o dramaturgo Gustavo Pinheiro volta a ter sua mais recente e elogiada obra representada nos palcos,  “Alair”, em temporada no Teatro Ipanema entre os dias 14 de janeiro e 26 de fevereiro. Protagonizado por Edwin Luisi, celebrando 45 anos de carreira, e com direção de Cesar Augusto, o texto de Gustavo Pinheiro homenageia o fotógrafo Alair Gomes, no momento em que se completa 25 anos de sua morte. Alair Gomes foi um precursor da fotografia homoerótica no Brasil, conquistando a consagração internacional com seu trabalho, que reuniu mais de 170.000 negativos cujo tema central era a beleza do corpo masculino.

 Nesta entrevista gentilmente concedida ao Botequim Cultural, Gustavo Pinheiro aborda aspectos do seu processo de criação para “Alair”, comenta a repercussão recebida com sua obra anterior,  “A Tropa”, sua visão do atual momento teatral e revela alguns projetos futuros.

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Alair – Foto: Elisa Mendes

BC: – Como surgiu a ideia de se criar um espetáculo teatral sobre o fotógrafo Alair Gomes? De quem partiu esse processo e como você se inseriu nele?
GP:Há uns dez anos eu estava em um museu, acho que em Nova York, e entrei numa sala apenas com fotos de nus masculinos. Era uma sala branca, gigantesca, com uma única sequência de fotos, na altura dos olhos, que revestia todas as paredes da sala. As fotos eram elegantes e provocativas ao mesmo tempo. Fiquei louco e corri para ver quem era o fotógrafo. Era o Alair Gomes, sobre quem eu nunca tinha ouvido falar. Quando vi que era um brasileiro, fiquei louco! Desde então, comecei a me informar e estudar sobre a obra do Alair. Anos depois, em uma coxia da peça “A Tropa”, comentei com o diretor Cesar Augusto que o meu próximo texto seria sobre o Alair. O Cesar disse que também era fã do trabalho dele e ali nossa parceria se renovou para um novo espetáculo. Inscrevi o projeto no edital da Secretaria de Cultura do Estado do Rio e a peça ficou em primeiro lugar. Começamos os ensaios em março e estreamos em junho de 2017.
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BC: – Qual a maior dificuldade em conseguir dosar com tanta habilidade uma dramaturgia que é ao mesmo tempo poética, bem-humorada, erótica e que em nenhum momento resvala em qualquer resquício de vulgaridade?
GP:Meu maior cuidado era traduzir as dimensões de um personagem tão complexo como Alair, um homem de uma cultura vastíssima, um intelectual, mas que tinha a habilidade de também saber se mostrar interessante para um surfista de Ipanema.
Em termos práticos, a maior dificuldade foi mergulhar nos diários do Alair, uma infindável quantidade de documentos.
A obra do Alair consegue um feito raro: é sensual sem ser vulgar. Mesmo quando ele fotografa um pênis ereto, há uma construção de composição, cor, sombra, textura, muito referenciado nas esculturas gregas e romanas. E o diretor Cesar Augusto foi muito feliz em traduzir todos esses elementos para o palco. Soma-se a isso a inteligência cênica do Edwin Luisi, um homem muito elegante, com senso de humor, que soube dar o tom certo de sutileza ao personagem.
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BC: – Gostaria que você falasse sobre seu trabalho de pesquisa para conseguir revelar com profundidade e verdade um personagem tão complexo quanto Alair Gomes, não somente sua arte, mas igualmente seu método e trabalho e seu pensamento.
GP:- Me cadastrei como pesquisador de Alair Gomes na Biblioteca Nacional – onde a obra do Alair é preservada – e passei boa parte de 2016 lá, debruçado sobre os diários dele. Ele escrevia os diários à mão e em inglês. Foram tardes e tardes na Biblioteca Nacional, um trabalho de arqueólogo (risos).
Outro ponto fundamental da pesquisa foi o livro “A New Sentimental Journey”, que o Alair escreveu e nunca chegou a ser publicado. Consegui um exemplar raríssimo e foi uma das linhas estruturais do texto. Além disso, fiz várias entrevista com amigos e colecionadores de sua obra.
Estudei muito a forma como o David Hare constrói a estrutura do filme “As Horas”, que adoro. Aquelas três mulheres como vértices de um mesmo triângulo. Essa foi a inspiração para construir as três facetas de Alair que mostramos no palco: o dos anos 50, ainda jovem, apaixonado e oprimido pelos preconceitos; o dos anos 80, erudito e divertido, encantado pela Europa que viu em uma longa viagem e o dos anos 90, que recebia jovens em casa para sessões de fotos. São três lados de um mesmo Alair.
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BC: – O que mais te fascina em Alair Gomes?
GP:O que eu acho mais genial na obra do Alair é o fascínio que ele tem pela Beleza. Por isso sua obra não é vulgar, porque sua devoção à Beleza é tamanha que impede qualquer traço de vulgaridade. Quando conheci sua obra, pensei que se tratava de um fotógrafo performático, um dândi cheio de ego e manias. Quando me debrucei sobre seus escritos, descobri um tímido, inseguro e feio rapaz que, quando mais velho, se tornou um senhor discreto de Ipanema, que andava pelo bairro com sua câmera a fazer fotos. Meu interesse por ele ficou ainda maior! O Alair da vida privada era o oposto da exuberância de sua obra. Um gênio!

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BC: – De que maneira você percebe que um espetáculo como “Alair” pode contribuir para um debate na sociedade brasileira, justamente num momento em que nos deparamos cada vez mais com a intolerância e a hostilidade contra as minorias?
GP: É fundamental falarmos sobre homofobia e todo tipo de preconceito. Alair foi morto em casa, seu assassino era conhecido e no entanto nunca foi preso. Quase 400 pessoas morrem por ano no país por crime de homofobia. É uma vergonha gigantesca.
A arte é o lugar da contestação, de abrir os olhos da sociedade. Fiquei sabendo que “Alair” foi indicado a um prêmio de teatro LGBT em São Paulo com outras 47 peças! Quarenta e sete Producoes em uma única cidade, de um jeito ou de outro, abordaram o assunto! Em um ano onde vimos exposições e peças sendo censuradas de forma absurda, é um alento e uma resistência.
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Alair - Foto: Elisa Mendes

Alair – Foto: Elisa Mendes

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BC: – Após a repercussão que você alcançou com “A Tropa”, como você analisa a trajetória cumprida por “Alair” até agora e o que você espera dessa nova temporada que se inicia?
GP:É curioso porque são dois trabalhos muito diferentes em termos de linguagem, embora alguns assuntos que me interessam estejam nos dois trabalhos, como memória e solidão. “Alair” fez uma linda primeira temporada no Rio, com ótimo público e lindas críticas, fez uma bonita temporada de cinco semanas em São Paulo e agora fomos chamados pela equipe da Vem Ágora, que faz a curadoria do Teatro Ipanema, para fazer uma temporada de verão. Eu achei a ideia a cara da obra do Alair Gomes! A peça ganhou o edital do Teatro Municipal de Niterói e tem convites para ir à Salvador e Recife. É uma linda trajetória para uma peça tão delicada e atípica ao que se vê em cartaz, de modo geral. Mas o Edwin Luisi é um ator requisitadíssimo, um homem de vários projetos em teatro, dependemos sempre da agenda dele.
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BC: – Como é o desafio para um dramaturgo em trabalhar com 2 processos de criação completamente diferentes, como “Alair” e “A Tropa”? Em que aspectos essa dicotomia entre seus caminhos criativos te acrescenta como um autor teatral?
GP: – É um desafio, mas também é um prazer. Sou jornalista por formação. Um domingo de plantão no jornal eu estava na porta do IML, participando da cobertura do enterro do traficante Bem-Te-Vi da Rocinha, e no dia seguinte estava entrevistando o Tony Ramos. Para mim, essa era um pouco a graça da profissão.
Gosto de personagens. São eles que dizem como a história vai ser contada. Ao meu ponto de vista, “A Tropa” só poderia ser contada em um confinamento daqueles cinco homens em um ambiente de onde não se pode fugir. Em “Alair”, os diferentes aspectos da personalidade do personagem estão expostos, sem julgamentos. Os personagens e as histórias se impõem.
E depois tem uma das características mais lindas do teatro que é a soma de subjetividades. Eu trago o texto, com as minhas intenções. O diretor traz a visão e a vivência dele, em seguida os atores e assim por diante. É de todo mundo e não é de ninguém. É um processo lindo.

A Tropa

A Tropa

BC: – Como surgiu a ideia de escrever uma discussão familiar de cunho político como em “A Tropa”?
GP: – Durante os protestos de 2013, eu tinha ficado muito impressionado com a violência dos comentários das pessoas, de todas as correntes políticas. Um lado xingava o outro e amizades de anos eram interrompidas por ideologias políticas. De repente caímos num tal “fulano bloqueou beltrano na rede social”, como se o ato de “bloquear” desaparecesse com a pessoa (e sua ideia contrária). Daí fiquei pensando: e se todas as diferenças – políticas, sociais, ideológicas, religiosas, sexuais – estivessem restritas à uma família, o menor núcleo de afeto que há, o núcleo inegociável, que você não escolheu e onde não se pode “bloquear” alguém? Assim nasceu “A Tropa”. E a cada ano que passa, a peça fica mais atual. Já são dois anos em cartaz, três temporadas no Rio, uma em São Paulo, viajamos por várias cidades (Belo Horizonte, Brasília, São José dos Campos etc), sempre com uma resposta maravilhosa das plateias.

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BC: – Ganhar o concurso de dramaturgia “Seleção Brasil em Cena” abriu de alguma forma as portas para a carreira que “A Tropa” teve?
GP: – Sem a menor sombra de dúvida. O “Seleção Brasil em Cena” é um divisor de águas na minha vida e na minha carreira. Não sei se “A Tropa” teria saído do papel sem o Concurso, ou pelo menos se teria saído tão rápido. O Brasil em Cena é um projeto lindo, feito por gente que entende de teatro, e que dá ao novo autor o que ele mais deseja: ver seu texto montado. E não é qualquer montagem, né?  Estrear no CCBB (onde vi inúmeras peças maravilhosas) tendo Cesar Augusto na direção, Otavio Augusto como protagonista, uma equipe de jovens e talentosíssimos atores ao lado (Alexandre Menezes, Rafael Morpanini, Eduardo Fernandes e Daniel Marano) e uma ficha técnica da melhor qualidade (Raquel André, Bia Junqueira, Adriana Ortiz, Ticiana Passos).
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BC: – Falando um pouco sobre o cenário teatral carioca, que dramaturgos contemporâneos você admira e por que?
GP: – Antes de ser um autor de teatro, eu sou um apaixonado espectador. Eu tenho prazer em assistir teatro. Meus pais sempre me levaram ao teatro e esse foi um hábito que permaneceu na minha vida. Vejo teatro toda semana, às vezes duas, três vezes por semana. Digo isso porque tento ao máximo ver o trabalho dos meus colegas, não só autores, mas atores, cenógrafos, iluminadores. Gosto muito de Julia Spadaccini, Jô Bilac, Daniela Pereira de Carvalho. São meus contemporâneos, apesar de já fazerem teatro há bem mais tempo que eu. Fiquei louco com o que o Felipe Vidal fez em “Cabeça – Um documentário cênico”. Dos estrangeiros, gosto muito de Neil Labute, Yasmina Reza, David Hare e Nick Payne. E sempre volto  – como espectador e leitor – a Nelson Rodrigues, Tennessee Williams, Eugene O’Neill, Arthur Miller, a turma do besteirol, Miguel Falabella, Mauro Rasi…
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BC: – Como é possível levantar espetáculos e se manter em cartaz diante da crise que vivemos na cultura nos âmbitos federal, estadual e municipal? É preciso resistir e criar estratégias de guerrilha?
GP: – Sem dúvida é preciso resistir. Já estamos resistindo. “Alair” é um desses milagres cênicos de resistência, um projeto sem um real de patrocínio, que só é possivel pela vontade de um grupo  de contar uma história e que tem a sorte de ser abraçado pela plateia.
Como levantar espetáculos e como se manter em cartaz é a pergunta que todos se fazem hoje. Outro dia cruzei com um video da Fernanda Montenegro em que ela dizia uma coisa absolutamente verdadeira: “o ato teatral é sempre um gesto de loucura e de amor. Se pegar qualquer movimento do teatro brasileiro e ele for equacionado no papel, se for pensar na produção, orçamento, você não vai fazer. Você tem que ir e fazer. Se você saiu vivo daquilo, maravilhoso. Se você morreu no caminho, não tem importância, você vai renascer e vai tentar de novo.”
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BC: – É possível dar alguma pista dos seus projetos futuros?
GP: – Estou escrevendo um monólogo, uma comédia, para a Mariana Xavier. É uma atriz que admiro, muito engraçada! Também estou escrevendo uma peça a ser dirigida pelo Pedro Granato, amigo e ótimo diretor de São Paulo. Susanna Kruger tem um texto meu nas mãos para dirigir, um projeto que ela gosta muito, vamos ver se vamos conseguir colocar de pé, chama-se “Relâmpago Cifrado”. Entreguei ao Victor Garcia Peralta um texto chamado “Castelo de Areia”, que adoro! Uma comédia ácida, contemporânea, deliciosa. Além disso, estou escrevendo outros textos, mas ainda é cedo para falar sobre eles. E também trabalho no roteiro da adaptação de “A Tropa” para o cinema.


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