Entrevista: Marcio Nascimento


 
Marcio Nascimento

Por Renato Mello

Projeto idealizado pelo ator Marcio Nascimento, o espetáculo “Iago”, inicia sua trajetória artística no dia 3 de outubro no Sesc Copacabana. Com texto assinado por Geraldo Carneiro, direção de Miwa Yanagizawa e do próprio Marcio, “Iago” propõe um jogo de cena estruturado em formas animadas, em que o ator interpreta 4 personagens da clássica obra shakespeariana, “Otelo”.

Simultaneamente à temporada, Marcio Nascimento ministrará uma oficina prática no teatro de animação, com ênfase na manipulação direta, com objetivo de proporcionar uma vivência prática com as ferramentas básicas da manipulação de bonecos e objetos.

Marcio Nascimento revela nesta entrevista as motivações e o processo de construção de “Iago”, se aprofundando na complexidade de um personagem tão mau, quanto fascinante, na definição do próprio ator.

“Iago” – Foto: Daniel Barboza

BC: – Como surgiu o projeto “Iago”?

MN: – Quando assisti pela primeira vez a uma montagem de “Otelo”, na UNI-Rio, com um numeroso elenco, sobressaía um personagem ardiloso, vil, cruel, que enredava toda a trama. Na respectiva montagem, o personagem Iago era interpretado pelo brilhante Paulo Giannini. Ali não surgiu o projeto, mas fui atravessado/tocado/iluminado por este personagem, que se acomodou de alguma maneira no meu “corpo e na minha alma”. Alguns anos se passaram e comecei a pesquisar o teatro de formas animadas e bonecos com mestres como Fernando Sant’anna e Miguel Vellinho. Foi um mergulho surpreendente! É inesgotável o mundo dos bonecos, dos objetos, das máscaras… Tudo era possível. E ganhava proporções maiores se se relacionassem com o teatro de ator. Aqui também ainda não surgiu o projeto, mas era a parte principal para este nosso “Iago” existir. Terminando os rodeios, o projeto surge quando, de tanto pensar na relação ator x boneco, me vem o desejo de contar uma história em que seja imprescindível o seu uso na cena. Meu amigo e mago dos bonecos Bruno Dante, em muitas conversas, foi uma pessoa que me estimulou para ter um trabalho próprio. Resgatei na lembrança a peça “Otelo” e sua trama toda manipulada. Vislumbrei aí um caminho de diálogo com o teatro de formas animadas. Assim surge “Iago”.

BC: – Iago é um personagem que representa a figuração do mal. Por que Iago?

MN: – “Por que Iago? Por quê?” Também tem essa pergunta na peça. Eu amo os grandes personagens. Antes do Iago eu quis muito fazer Cyrano de Bergerac. Aliás, desejo que se mantém vivo. Voltando a Iago, esse personagem o que tem de mau, tem de cativante. E é bem escrito, bem elaborado, conhecedor da alma humana. É fascinante. E é importante colocar o mau em cena. Para poder haver uma reflexão sobre as coisas. Onde estou e para onde quero ir. Tudo que vai para a cena se coloca em destaque. Vem para a superfície, suscita a discussão. O teatro é esse diálogo permanente com o público. “Vamos celebrar a estupidez humana”, já cantava Renato Russo em tom de ironia. E para equilibrar o mau, termino com outra citação, agora do Papa Francisco: “uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce”.

BC: – Geraldo Carneiro, um dos principais especialistas em Shakespeare no Brasil, assina uma dramaturgia escrita a partir de provocação da sua parte. Gostaria que você comentasse o texto do Geraldo Carneiro e explicasse de que maneira ele se molda com a proposição cênica sua e de Miwa Yanagizawa.

MN: – A criação do texto é um capítulo a parte, pois, me perdoe Geraldo, e ele sabe disso, ele não foi o primeiro autor contactado. Pois mesmo eu sabendo ser ele um especialista em Shakespeare, o achava inalcançável para o projeto. O Sesc ainda não havia confirmado a temporada. Comecei a pensar em quem poderia escrever. Eu assisti a um espetáculo que o Dib Carneiro Neto escreveu e o Gabriel Villela dirigiu, chamado “Um Réquiem para Antonio”, sobre a  relação entre Salieri e Mozart. O texto era ótimo, mas fiquei com o prólogo na cabeça. Tinha algo de Iago ali. Quando estive em São Paulo, o chamei para uma conversa. Ele adorou a ideia, ficou motivado, aceitou. Menos de uma semana depois ele pede desculpas, mas por estar trabalhando muito, precisaria recusar o convite. Pensei em matá-lo, mas desisti. Brincadeira. Já estava eu, ali, movido pela trama Shakespeareana? O Sesc já havia acenado com uma data, o tempo ficava curto para ele desenvolver uma dramaturgia. Próximo passo, o Lawrence Flores Pereira que fez a tradução que eu estava lendo. Conversa vai, conversa vem, o Lawrence além de escritor é professor da Universidade de Santa Maria no Rio Grande Sul, e estava muito ocupado. Disse que adoraria escrever, se sentiu estimulado, mas não teria tempo. O Sesc deu uma nova data. Comecei a roer as unhas. O tempo começou a encurtar. Aí a Raquel Botafogo, minha querida amiga, me indicou o Pedro Kosovski, seu primo. Lá fui na esperança. Conversa ótima. Um cara especial. Ao final da conversa sobre Iago, quase acertamos de montar outra peça, mas não Iago, ele já estava com vários projetos engatilhados para este ano. Saí da Torta & Cia arrasado. Voltei para a Torta & Cia e pedi outra torta, agora sem companhia e outro café. Vou me acabar nisso aqui, pensei. Dali mesmo liguei para a Miwa, que me indicou o Pedro Brício. Achei ótimo. Mas quero outro nome para garantir. Desliguei. Liguei para o Marcio Malard que me indicou o Geraldo Carneiro. Ele e o Wagner Tiso estavam num ensaio juntos e decidiram, os dois, intervir por mim. Pensava em entrar em contato com o Brício, quando o Malard me liga: “Olha, o Geraldinho gostou da ideia e quer se encontrar com você”. Sentei com o Geraldo e falei como imaginava a peça, e que seria só um ator, bonecos e um músico. E para centrar a trama no quarteto principal. De lá para cá, Miwa e eu fomos fazendo cortes significativos a só deixar permanecer o que fosse necessário. A cada dia de ensaio era uma descoberta: corta mais; volta com o que foi cortado. O Geraldo captou muito bem a nossa proposta, ele é incrível, porém, o ajuste final só poderia ser dado de fato na sala de ensaio, com o texto sendo dito. Ele nos ajudou nos cortes. Essas mudanças no texto só foram possíveis, graças a enorme gentileza de Sir Gerald Carneiro, o imortal!

BC: – Como ocorre o processo de codireção com Miwa Yanagizawa? Como vocês se dividem e se complementam ao mesmo tempo?

MN: – A Miwa além de grande atriz é uma diretora sensível, perspicaz, de escuta apuradíssima, educada, gentil, fala baixo, fala pouco, mas fala o essencial. E ainda me acalma. Sou muito agitado. Ela observa, observa, observa, e vai te deixando livre. Aí você acha que está bom. Aí ela vem: “meu amor, estou aqui pensando que naquela hora…” Eu já ouço rindo. Rindo por dentro, né? Pois já vi que era o tempo que ela me deu para eu melhorar aquilo e eu não consegui. E, além disso, ela cria um ambiente fértil, tranquilo, que é fundamental e necessário. Quando nos encontramos eu sabia o que eu queria, claro que não temos a dimensão e o controle de saber para onde isso vai.  Mas com ela a peça foi se aprofundando. Todos os passos e escolhas foram em comum acordo. E isso aconteceu com toda a equipe. A gente só se divide quando eu estou em cena e ela é o olho de fora. Mas aí sentamos e falamos de como a coisa está fluindo. Trocamos impressões. Miwa é a parceira perfeita para este trabalho. Sou muito grato por ela ter aceitado o convite!

BC: – Qual os principais desafios, do ponto de vista do ator, neste projeto?

MN: – Este espetáculo, assim concebido, só poderia ser feito por um ator que também manipulasse boneco. É ator e boneco a peça toda. E a demanda não é pouca. São quatro personagens: Otelo, Desdêmona, Cássio e Iago. São 4 vozes. É Shakespeare… E aí eu pensava, é isso mesmo que eu quero? Por vezes eu pensei em ter outro ator dividindo a cena, mas não havia espaço na peça para isso. Fugiria do conceito. Sei bem que é um exercício esquizofrênico fazer essa peça. Pois eu falo com o outro personagem que tem a minha voz. Eu pergunto e eu respondo. Eu planejo e atuo na cena. Eu experimento em mim a emoção de cada personagem. Afeto e sou afetado por todos. Eu não pensava nas dificuldades que isso proporcionaria. Não sabia mesmo que seria tão intrincado. Mas o tanto que tem de medo tem de prazer. E é assim que eu vou!

BC: – Você já tem uma longa parceria com Bruno Dante. De que maneira vocês trabalharam a concepção das formas animadas para o espetáculo?

MN: – O Bruno é um grande parceiro e eu escuto muito o que ele fala. Nós pensamos fazer Iago a partir de um teatro de animação mais desconstruído. Trabalhar de maneira que o público possa ver de forma mais evidente a animação. O momento em que o boneco ganha a vida e quando morre. Quando volta a sua condição de coisa, de objeto. E esse jogo está na peça inteira. Os bonecos não seriam já os bonecos da peça. Eles vão se tornando. Partimos de uma ideia de trabalhar com elementos que não fossem nitidamente expressivos, mais inanimados, como se fossem coisas que ficaram num teatro e juntamos isso para animar. Pensamos assim, em tornar mais potente a cena. Mas o grande jogo da peça é unir a manipulação, que o próprio personagem, Iago, faz na trama em relação aos outros, com o jogo do manipulador em relação as formas a serem manipuladas. Isso é um contexto muito forte na peça e que só se faz existir dentro desta condição.

BC: – A trilha sonora parece trazer uma importante pontuação à representação. Como ela se insere na narrativa?

MN: – Como é fundamental a trilha deste espetáculo e como está sendo meticulosamente planejada pelo grande músico, compositor e “cirurgião” Rodrigo De Marsillac. A música é Otelo, é Iago, é Desdêmona. Ela ora caminha junto, ora se afasta para se contrapor. Rodrigo criou uma música que segundo ele mesmo diz: “acompanha as camadas propostas pela encenação. Entre os aspectos que levo em conta foi supor que o papel da música talvez fosse o de fazer o ‘veneno de Iago’ trabalhar, ir entrando nos acontecimentos e ajudando, de certa forma, a manipular a trama pelo próprio Iago”. Ele traduziu isso sonoramente. E para abrilhantar ainda mais a música, teremos por quase toda a temporada a presença ilustre do mestre violoncelista Marcio Malard. Que já tocou com Elis Regina, Tom, Gal, Gil, Caetano, Lenine, Sepultura, na OSB, Wagner Tiso, Maria Bethânia… quer mais? O músico que o substituirá por 3 ou 4 sessões será o jovem e supertalentoso Pablo de Sá.

BC: – Durante a temporada no Sesc Copacabana haverá uma oficina prática de teatro de animação. O que será proposto na oficina?

MN: – Gosto e aplaudo essas atividades paralelas às temporadas, permitem uma troca dos profissionais em cartaz com os profissionais que se interessam pela proposta das oficinas. E o Sesc assim, valoriza e estimula a troca de ideias, pensamentos e práticas. A oficina pretende trabalhar os conceitos básicos para se manipular um boneco. Seja ele de manipulação direta, de fio, de luva. E serve para artistas que de alguma maneira se encantam com a magia deste teatro.

BC: – Quais são suas expectativas e receios para a temporada de “Iago” que se inicia no Sesc Copacabana?

MN: – Expectativas eu as tento evitar, pois o próximo passo pode ser a frustração. Mas é impossível não as criar. Faz parte da vida. Eu gostaria de que as pessoas embarcassem na proposta da peça. Acabei de revelar um receio. A equipe comprou a ideia e estamos felizes caminhando assim. Acreditamos na soma da força poética de Shakespeare com o teatro de formas animadas. A sala Multiuso do Sesc tem essa característica, permite experimentações. Bem, o teatro é experimental por natureza, creio eu. Ao longo desses anos muito bem vividos, o Sesc Copacabana criou um público fiel as suas produções. E torcemos, todos nós da equipe, para que Iago cumpra uma bela primeira temporada por lá!


Equipe Iago – da esq para a dir: Tiago Ribeiro, Marcio Nascimento, Marcio Malard, Miwa Yanagizawa, Geraldo Carneiro e Bruno Dante. Foto: Daniel Barboza

Informações da oficina: Oficina Prática no Teatro de Animação, com Marcio Nascimento/Datas: 08, 09, 15, 16, 22 e 23 de outubro de 2019/Horário: das 14 às 19h/Local: Sala Leme do Sesc Copacabana/Inscrições: enviar e-mail para contato@paguproducoes.com.br com carta de intenção até 01/10/2019.

Ficha Técnica “Iago”/Texto: Geraldo Carneiro/Direção: Marcio Nascimento e Miwa Yanagizawa/Interpretação: Marcio Nascimento/Direção musical: Rodrigo De Marsillac/Músico: Marcio Malard/Cenário: Carlos Alberto Nunes/Figurino: Tiago Ribeiro/Iluminação: Renato Machado/Formas animadas: Bruno Dante e Carlos Alberto Nunes/Direção de produção: Pagu Produções Culturais/Produtor executivo: Fernando Queiroz

Serviço: Iago Texto de Geraldo Carneiro baseado em “Otelo” de Shakespeare. Direção: Marcio Nascimento e Miwa Yanagizawa/Estreia dia 3 de outubro, às 18h na Sala Multiuso do Sesc Copacabana/Sessões de quinta a domingo, sempre às 18h. Temporada até 27 de outubro/Sesc Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160. Tel. 21 2547-0156/Ingressos: R$ 7,50; R$ 15 (meia), R$ 30 (inteira)/Duração: 60 min/Classificação etária: 14 anos/Lotação: 43 lugares


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