Entrevista: Nara Keiserman


 

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A amizade entre a atriz e professora Nara Keiserman e o escritor Caio Fernando Abreu foi a principal motivação para a concepção do espetáculo “No Se Puede Vivir Sin Amor“, que após passagens com bastante sucesso pelo Sesc Copacabana e pelo Teatro Cândido Mendes, retorna numa nova temporada, agora no Espaço Tom Jobim do Jardim Botânico, de 4 até 26 de abril às 20h30 nas sextas-feiras e nos sábados e às 19h30 nos domingos.

A peça é uma coleção dos textos poéticos de Caio, morto em 1996, em que o amor é a premissa de uma existência eventualmente feliz e completa.

Nara Keiserman nos concedeu uma entrevista para falar sobre sua relação com Caio Fernando Abreu e o processo de criação do espetáculo a partir de sua obra.

Por Renato Mello.
Foto: Demétrio Nicolau

BC: – O que te motivou a montar um espetáculo teatral em cima do trabalho de Caio Fernando Abreu?
NK: – Não sei em que momento fiz essa escolha. Conheci o Caio em 1970, por aí, em Porto Alegre, na Escola de Teatro. Ele era muito amigo dos meus melhores amigos. Já era um escritor conhecido e ali mesmo, naqueles dias, comecei a ler seus contos. Quando comecei a dar aula na Cal, passei a usar seus textos nas aulas de Corpo, do mesmo modo que usava a música: para produzir imagens, sensações, impulsos. Convivo com estes textos, que fui selecionando naturalmente, desde então. Sempre gostei do momento em que, na aula, eu lia os textos para os alunos. Pronto. Eu queria fazer uma peça com eles.

BC:- Passados quase 20 anos de seu falecimento, por que sua obra ainda desperta tanto interesse, mesmo que seja por um público tinha pouquíssima idade quando ainda era vivo?
NK: – Não sei dizer direito, mas tenho uma intuição sobre isso. Acho que uma coisa é o fato do Caio se expor tanto e de tocar sem pudor em temas que, infelizmente, ainda são tabus. É muito estimulante, encorajador ver escrito o que se sente ou pensa, às vezes só consigo mesmo. A maioria das pessoas que curte o Caio, hoje, tem a idade que ele tinha quando escreveu. O Caio continua falando com a sua geração.

BC: – Você acredita que sua obra será ainda revisitada por gerações futuras?
NK: – Sim, enquanto a vida continuar como está.

BC: – Como foi realizado o trabalho de construção da dramaturgia?
NK: – Com o tempo, fui acumulando repertório dos textos que eu mais gosto e que soam bem na palavra falada. Alguns, não soam. Foram escritos para a leitura silenciosa, não sobrevivem quando tirados do papel. Outros, não, parece que têm uma embocadura. Escolhi estes e mais que tudo, os que me tocam, que falam comigo, que ressoam dentro de mim, produzem imagens, memórias, sensações.

BC: – De que maneira a relação de amizade que você tinha com Caio Fernando Abreu influenciou suas escolhas, seja nos textos, seja no conceito final do espetáculo?
NK: – Difícil dizer, porque não sei como seria a peça se eu não tivesse convivido com o Caio. Ele está sempre presente dentro de mim, durante a peça. Às vezes, enquanto me preparo para começar, o que faço na frente do público, chego a ouvir a voz dele. A peça está fundada em algumas coisas consideradas esotéricas, como os Chakras e os Guardiões do Fogo Sagrado. O Caio, que era um grande conhecedor e estudioso da Astrologia ia gostar disso. Fico tentada a dizer: gosta disso.

BC: – Após passagens pelo Sesc Copacabana e o Teatro Candido Mendes, como você sentiu a receptividade do público ao espetáculo?
NK: – No final da peça, as pessoas me abraçam muito emocionadas. Amparei, comovida, muitas crises de choro de pessoas que conheceram o Caio. Outras, me escreveram coisas lindas, muito lindas e encorajadoras para que eu siga fazendo a peça. Não é um trabalho convencional, me exponho muito e o que vivo ali naqueles 60 minutos me leva para uma dimensão que nunca havia experimentado em cena. Sinto que os espectadores acolhem generosamente essa minha exposição, que só é possível pelo ato tão corajoso do próprio Caio na escrita dos seus textos.


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