Entrevista: Rafael Teixeira, idealizador e tradutor de “Círculo da Transformação em Espelho”


 

Por Renato Mello

Foto: Rodrigo Castro

Foto: Rodrigo Castro

Primeira montagem no Brasil de um texto da dramaturga norte-americana Annie Baker, “Círculo da Transformação em Espelho” (Circle Mirror Transformation) estreia no dia 5 de outubro no SESC Copacabana, sob direção de Cesar Augusto e com um elenco composto por Alexandre Dantas, Carol Garcia, Fabianna de Mello e Souza, Júlia Marini e Sávio Moll.

O espetáculo narra a trajetória de cinco pessoas que frequentam um curso de artes dramáticas em uma pequena cidade. Ao longo de seis aulas, entre jogos e dinâmicas teatrais, a relação entre eles vai trazer à tona descobertas, paixões, inseguranças e segredos.

Idealizador e tradutor do projeto, o jornalista Rafael Teixeira revela nesta entrevista sua visão sobre o texto,  motivações para trazê-lo aos palcos brasileiros, o trabalho de tradução e o processo construção do espetáculo.

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BC: – Que aspectos do texto de Annie Baker te seduziram a ponto de trazer a montagem para o Brasil?
RT: – Há muitos. De cara, o modo como ela constrói os diálogos, com um rebuscamento e uma sofisticação que não têm nada de barroco. Ao contrário, parecem um decalque da fala do homem contemporâneo — o que só pode ser resultado de uma notável capacidade de escuta. Na obra da Annie Baker, as indicações de como dizer uma fala, que normalmente aparecem em textos teatrais como rubrica, são transportadas diretamente para os diálogos. Em Círculo da Transformação em Espelho, você jamais lerá “(gagueja)” ou “(hesita)” antes de uma fala. Em vez disso, o diálogo será literalmente gaguejante ou hesitante. Há momentos em que os personagens chegam a começar uma frase, interrompem-na no meio de uma palavra e retomam do início para, aí sim, terminá-la. Fico imaginando o desafio que isso representa para qualquer ator, porque os textos são quase como partituras musicais. Nesse sentido, também são maravilhosos os silêncios, pausas e elipses que a Annie Baker tanto valoriza. É como se ela soubesse não apenas o modo como as pessoas falam, mas também como elas calam. Os silêncios, esses, sim, aparecem o tempo todo nas rubricas, e frequentemente adjetivados (“silêncio estranho”, “silêncio constrangedor”, “silêncio ofendido”) e quantificados (“silêncio muito longo”, “após quinze segundos de silêncio”). Em uma entrevista, Annie Baker disse que queria escrever uma peça com “silêncios excruciantes”, e acho que ela conseguiu. 

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BC: – Você crê que a intensidade das relações entre os cinco personagens, cada qual com suas histórias de vida, frustrações e ambições, de algum modo reproduz naquele microcosmo particular toda a idiossincrasia da sociedade contemporânea?
RT: – Essa resposta é quase uma continuação da anterior. Porque, à parte as questões formais da obra da Annie Baker, já mencionadas, eu me vi irresistivelmente atraído pelo universo temático dessa autora. Não tenho muita certeza se ela tenta retratar a idiossincrasia da sociedade contemporânea. Tenho lá minhas dúvidas de que isso seja um objetivo deliberado. Vejo ela mais preocupada com seus personagens, individualmente, do que com essa suposta radiografia da sociedade. Mas, sim, se a sociedade é formada por pessoas, então, de alguma forma, a autora termina por mirar em uma coisa e acertar também em outra. O que me encanta em suas peças são seus personagens e acontecimentos comuns, ordinários, medíocres — no sentido real dessas palavras, que nada têm de negativo, em princípio. “Medíocre” pode ser sinônimo de “horrível”, “vulgar” ou “rasteiro”, mas também pode significar apenas “normal” ou “regular”. Muita atenção: não são personagens fracassados. O fracasso também é, sob certo prisma, uma forma de destaque. Um corredor que cruzou a linha de chegada de uma prova por último é, enquanto personagem, tão interessante quanto o que chegou em primeiro. Nessa comparação, o alvo da Annie Baker seria aquele que chegou em quarto, quinto lugar. São apenas pessoas como eu ou você. Tome o caso de Círculo da Transformação em Espelho como exemplo: há pessoas comuns, se relacionando de forma comum, ao longo de seis semanas comuns, em um curso de teatro comum, numa cidade comum. Mas podem ser jovens perdendo tempo nos fundos de um café, como em The Aliens. Ou funcionários de um cinema mequetrefe se conhecendo, como em The Flick. Ou pessoas fazendo um brainstorm para desenvolver um produto qualquer, como em The Antipodes. Tudo gira em torno dessas pessoas, das situações específicas (e sempre meio corriqueiras) da peça. Tem uma história particularmente ilustrativa que sempre me vem à cabeça quando eu penso nisso. Certo dia, eu liguei para uma amiga a quem havia enviado o texto de Círculo da Transformação em Espelho, com o pedido que ela o lesse e opinasse sobre a tradução. Ela me disse que estava adorando, que já estava quase no fim da história e que queria terminá-la logo “para saber o que, afinal, acontecia nessa peça”. E o que ela não havia percebido (mas logo notou, depois que conversamos) era que, na verdade, uma enormidade de coisas já havia acontecido. Só que essas “coisas” eram aparentemente muito banais para estarem numa peça de teatro. É de uma humanidade radical, e a generosidade que a Annie Baker dispensa a essas aparentes banalidades é emocionante. Essa é uma ideia que me toca profundamente: a de que existe beleza genuína no que a maioria de nós diria que é apenas trivialidade. 

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BC – “Círculo da Transformação em Espelho” “dialoga” com os silêncios e as sutilezas, em que os detalhes podem ser encontrados nos pequenos gestos. Hoje estamos acostumados a um ritmo acelerado, sem nos permitir a espaços reflexivos. Você acredita que o público atual ainda tem a sensibilidade para escutar os sons do silêncio?
RT: – A maneira mais sucinta e honesta que eu posso responder a essa pergunta é: não sei. Sim, é verdade, muito se diz que o público contemporâneo perdeu a sensibilidade para o sutil, a minúcia, a quietude, o silêncio. E, no entanto, a Annie Baker está aí, no esplendor jovial dos seus 36 aninhos, escrevendo peça atrás de peça, lotando teatros e ganhando prêmios com elas. A nossa aposta — minha, do diretor, do elenco e de todos os envolvidos no projeto — é de que sim, ainda há pessoas dispostas a pagar um ingresso para entrar em um teatro e se conectar com uma obra de arte, tanto na palavra quanto no silêncio. E, talvez muito ambiciosamente, a gente espera, pelo menos no tempo de duração do espetáculo, converter aqueles cuja sensibilidade já parecia há muito perdida. Se conseguirmos isso, já me terei dado por satisfeito.

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BC: – De que maneira sua experiência na crítica teatral contribuiu no processo de concepção do espetáculo?
RT: – O exercício da crítica, de saída, fornece um repertório, porque o crítico, naturalmente, acaba vendo uma quantidade enorme de peças, muito mais do que o público comum. Peças boas e peças ruins. Peças excelentes e peças horríveis. Obras-primas e insultos. De modo que, se eu não tivesse visto tantos espetáculos ao longo de tantos anos, talvez eu não fosse capaz de perceber a joia que é Círculo da Transformação em Espelho apenas lendo o texto. Eu sempre fui um crítico meio fora de esquadro, porque o processo de realização de uma obra me interessa tanto quanto (ou até mais, às vezes) do que a montagem em si mesma. Para o bem e para o mal, eu sempre tentei me deixar impregnar por essa interlocução, em vez de me instalar numa torre de marfim, de simplesmente me comportar como um imperador romano levantando ou abaixando o polegar para decretar vida ou morte. Isso é naturalmente transportado para a sala de ensaio, onde eu acabo trabalhando como uma espécie de dramaturgista — não dramaturgo, porque não sou o autor, mas alguém com um domínio do texto, que dialoga com o diretor e o elenco. É curioso, porque, como crítico, eu sempre tentei ir além da minha condição exclusiva de público para me imaginar no lugar do artista, de modo a compreender suas intenções e escolhas. E agora, o esforço é no sentido contrário: produzindo uma peça, me esforço para imaginá-la enquanto público. 

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BC: – Comumente se diz que “traduzir é trair”, outros entendem que é universalizar. No ofício de verter palavras para outro idioma, que sentimento prepondera em você? “Apoderar-se” de um texto alheio, reinventá-lo ou ampliar horizontes?
RT: – Eu acho que não saberia escolher entre as três opções que você me deu. Ampliar horizontes certamente não foi o meu objetivo, porque os horizontes dessa peça já são por demais amplos para que eu tenha qualquer ambição nesse sentido. Reinventá-lo também não, porque já está tudo ali no texto, e especialmente porque se trata da primeira montagem de uma peça da Annie Baker no Brasil. Eu quis apresentar essa autora em toda a sua potência específica, de modo que me ater à sua partitura era, no meu entendimento, uma condição indispensável. Por eliminação, talvez eu fique com “apoderar-se”, no sentido de que, sim, é preciso conhecer profundamente o texto, seus climas, suas intenções, para que a tradução soe como se fosse a peça em seu idioma original. Mas em nenhum momento me passou pela cabeça, por exemplo, transpor a peça para o Brasil. A história se passa em Shirley, uma cidadezinha fictícia criada pela autora (que, aliás, aparece em outras peças dela), no estado de Vermont, nos Estados Unidos. E lá ela continua se passando na nossa montagem, muito embora talvez eu pudesse situá-la, digamos, em Friburgo. Em nome de uma melhor compreensão e acolhimento por ouvidos daqui, só o que fiz foram minúsculos ajustes em expressões ostensivamente americanas, como “meu irmão vai se casar no próximo outono” (já que aqui não usamos estações do ano como referência temporal) ou “eles foram colocar moedas no parquímetro” (quando na maior parte do Brasil não pagamos estacionamento dessa forma).

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BC: – Que qualidades você enxerga no trabalho de direção de Cesar Augusto no processo de construção do espetáculo?
RT: – Tenho que me controlar para que essa resposta não seja longuíssima, porque eu poderia ficar enumerando as qualidades do trabalho do Cesar por muito tempo. Ele sempre esteve no projeto, foi o diretor em quem pensei desde o início, e (à parte a minha mulher), o primeiro leitor da tradução. Tudo (realmente tudo) que veio depois de ele topar o convite para dirigir a peça tem a mão dele. Estabelecemos uma parceria genuína — eu jamais quis que o Cesar entrasse como um “diretor convidado”, que respondesse a mim. Seria uma burrice enorme da minha parte dispensar as virtudes dele não apenas como diretor, mas como homem de teatro. Pra começar, o Cesar é ator (um excelente ator, diga-se). É um dos fundadores de uma das mais geniais companhias do país, que é a Companhia dos Atores, portanto tem muita experiência nesse diálogo entre atores. Isso era algo que eu já sabia, mas ver como essa qualidade se desenrola na sala de ensaio é um deleite — você imediatamente percebe a gigantesca vantagem que é contar com um profissional com esse entendimento algo telepático da dinâmica com o elenco (e do próprio elenco, internamente). Além disso, o Cesar tem repertório teatral (e, mais amplamente, artístico, mesmo): já viu muita coisa, de todos os tipos, de todos os gêneros, com as mais variadas propostas, no Brasil e no exterior. Não à toa, você pode vê-lo tão à vontade conduzindo peças mais realistas (como A Tropa), peças mais “experimentais” (como Mamãe) e peças em que esses dois aspectos se combinam. Vejo no Cesar uma sabedoria de sempre trilhar um “caminho do meio”. Ele sabe o que quer, mas se abre o tempo todo para novas possibilidades. Tem um entendimento do que seja direção, mas sabe usá-lo em favor do texto, sem nunca ostentá-lo como um exibicionismo. Tem inteligência cênica, mas não a impõe goela abaixo do ator. No mais, é um sujeito agregador, incapaz de levantar a voz, além de divertidíssimo — tem a melhor risada do teatro carioca. A peça não poderia estar em melhores mãos.

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BC: – Queria que você falasse um pouco sobre o elenco. Como foram as escolhas?
RT: – A escolha foi feita em conjunto com o Cesar, e levou em conta três aspectos: queríamos atores cujo trabalho admirássemos, que a gente conseguisse realmente enxergar nos personagens e que fossem pessoas boas de estar e trabalhar junto. Acho que nada além do que seria normal almejar em qualquer escalação de elenco. E, sem falsa modéstia, eu não tenho receio de afirmar que conseguimos reunir um time sensacional. A Fabianna é a própria Marty: sendo também professora de teatro, já traz em si um jeito de falar, uma expansividade, um acolhimento que são próprios da personagem, sem deixar de acrescentar-lhe outras camadas. O Alexandre resolveu lindamente uma potencial encrenca: não tendo nem 50 anos, trouxe uma jovialidade e uma estampa que funcionaram muito pro James que a gente imaginava, sem trair-lhe a experiência de um personagem já de 60. O Sávio injeta sutilmente algo de palhaço (que está na base da sua formação artística) no Schultz, o que funciona à perfeição pra esse personagem meio fora de lugar. A Júlia é tudo que a gente queria como a Theresa: uma mulher bonita, sim, mas ainda mais interessante e charmosa do que bonita, além de uma atriz sagaz, aplicada, estudiosa e de uma enorme inteligência cênica. E a Carol tem aquela curiosidade, aquele humor, aquela rapidez e aquele desejo de desbravamento que caíram como uma luva pra Lauren. 

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BC: – Quais suas expectativas para a temporada de “Círculo da Transformação em Espelho”?
RT: – Como realizador, nada muito diferente do que qualquer um desejaria pra sua própria peça: que seja um sucesso. Nosso desejo é que essa temporada curtinha seja um trampolim pra que a peça siga uma trajetória mais longa, não apenas no Rio mas também viajando. Como público, eu gostaria que outros realizadores, estimulados pelo Círculo, fossem atrás de textos de jovens autores estrangeiros inéditos para montar aqui no Brasil. Há tanto sendo criado e conhecemos tão pouco! Seria lindo ter mais gente trazendo essas obras para cá. 


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