Entrevista: Ricardo Kosovski


 

Por Renato Mello

Foto: Lourenço Monte

Foto: Lourenço Monte

Comemorando 40 anos de carreira artística, Ricardo Kosovski se encontra em cartaz até o dia 29 de outubro na Sala Multiuso  do Sesc Copacabana com o espetáculo “Tripas”. Voltará a se apresentar em temporada a partir do dia 11 de janeiro de 2018 no Teatro Poeirinha, em Botafogo.

Mais que um espetáculo teatral, representa o seu encontro com Pedro Kosovski, dois artistas, pai e filho, ator e diretor/autor, compartilhando com o público o cruzamento de suas biografias a partir da internação hospitalar repentina por uma crise de diverticulite aguda vivida por Ricardo Kosovski, dois anos atrás, concebendo artisticamente o rompimento do silêncio de um quarto de hospital para expor uma visão muito particular de sua própria história.

Nesta entrevista Ricardo Kosovski fala de questões abordadas pelo espetáculo e o cruzamento da sua realidade com a dramaturgia de Pedro Kosovski para levar à cena fragmentos extremamente pessoais entre pai e filho.

Foto: Lourenço Monte

Foto: Lourenço Monte

BC: – “Tripas” nasceu de uma experiência pessoal muito dolorosa. Que necessidade vocês sentiram de transformar um momento tão particular em uma criação artística e pública?
RK: – Quando vivemos situações limites, em geral, ou sucumbimos a elas, ou avançamos na compreensão do sentido das coisas. E é exatamente por acreditar que só a arte tem o poder curativo real, como o Teatro na Grécia, é que tentamos transmutar a dificuldade, o obstáculo, a dor em uma obra que circule e compartilhe com o público, nossa experiência quase pedagógica de transformar doença em cura, valorizando a vida através da arte.
Tem uma fala na peça que diz o seguinte: “(…) temos que dar crédito aqui aos médicos, porque eles são muito vaidosos, se sentem deuses, mas são esforçados, coitados… Todos sabem que a medicina é um campo muito limitado; quem se cura através da medicina tradicional ou é coincidência, ou sorte ou acaso. Medicina é exercício de protocolos”. Por conta disso, nós pensamos que eu só estaria realmente curado no dia que fizéssemos uma peça de teatro que falasse sobre essas coisas, a restauração do teatro curativo, grego… e também sobre outras coisitas más!

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BC: – O título “Tripas” sugere uma imagem muito forte. Por que a escolha dessa referência para tratar de uma temática tão pessoal para vocês?
RK: – Porque minha doença se instalou nas minhas “tripas”, literalmente. Meu intestino explodiu!!! E isso não é uma metáfora. Mas no caso específico da peça, as tripas se referem às entranhas não só do corpo humano, mas sobretudo da relação pai e filho. As tripas representam as diversas camadas de visceralidade da vida.

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BC: – De que maneira todo esse longo processo desde a internação, passando pela viagem a Israel e a concepção do espetáculo, transformou a relação entre vocês?
RK: – Não sei, mas é curioso um pai ser dirigido por um filho. Na vida ocorre o contrário, mas aqui o que acontece é um ponto de virada da relação, por que no fundo desse encontro não existe pai e filho e sim dois artistas. É claro que isso é uma construção, um trabalho. Não tem fórmula. Mas nesse sentido a vida está nos proporcionando uma experiência rara e singular que é um encontro entre pai e filho em outro lugar: na arte, no palco, no teatro. É um privilégio de poucos. Posso me gabar disso.

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BC: – A peça é geograficamente situada em um espaço físico tão diferente do nosso, o Oriente Médio. Como essa opção se insere dentro dos contornos autobiográficos da peça?
RK: – Quando Pedro resolveu escrever a peça ele disse que as pessoas adoram histórias de doenças, mas que em raríssimas situações, hospitais são bem retratados pelo teatro. E isso é compreensível porque o ambiente controlado, ascético e esterilizado do hospital não combina bem com a força libertadora e dionisíaca da cena. Então ele disse que ao invés de um hospital ele criaria um espaço fabular para desenvolver a peça: a fronteira do Golfo de Áqaba entre Israel, Jordânia, Egito e Arábia Saudita. E por um motivo simples: estivemos lá e atravessamos essa fronteira a pé numa espécie de peregrinação espiritual de pai e filho. Portanto, esse lugar geográfico que circunstancia a peça é simbólico e real ao mesmo tempo. Foi na travessia dessa fronteira que aconteceu o start do plot do trabalho.

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BC: – De que maneira aspectos da Ditadura militar se mesclam dramaturgicamente com a história familiar dentro do espetáculo?
RK: – A questão político-histórica é uma das importantes camadas da narrativa da peça. É onde saímos de certa forma, da questão privada, pessoal e lançamos ideias num lugar “público”: na história, na política. Difícil hoje em dia juntar um grupo de pessoas no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, para qualquer tipo de encontro, um chope, mergulho na praia, peça de teatro, e não tocarmos nas questões da política. Portanto, nos remetemos à minha infância a partir do golpe de 64, quando eu tinha cinco anos. Vinte anos depois, em 1984, nas Diretas Já, meu filho tinha um ano e levei-o às passeatas no meu cangote, assim como 30 anos depois, em 2014, ele leva seu filho Antônio, meu neto, às manifestações anti-golpe, e foi exatamente aí, nesse ano, que eu caí doente. Ou seja, os universos pessoais e da política se misturam e dialogam entre si.

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BC: – A relação pai e filho interfere de algum modo na concepção do espetáculo ou é um momento em que vocês são apenas o autor/diretor se relacionando com seu ator?
RK: – É claro que interfere. Lindamente. É uma intimidade e confiança absoluta. Mas como te disse anteriormente, são dois homens, dois artistas trabalhando juntos que por “coincidência” são pai e filho. Quando me pego pensando nessa “coincidência” me regozijo de risos e lágrimas, de alegria e emoção… É fantástico.
Em geral, estreia significa início de temporada. Pra mim, essa estreia é o final de uma temporada onde tive o privilégio de criar junto com meu filho uma visão particular de nossa própria história, e o espetáculo em si é uma reverência e chamada ao público para observar esse acontecimento, e se quiser, levar-nos juntos, podem. É só querer.

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BC: – Com a visão de quem tem 40 anos de carreira e trabalhado com alguns dos mais importantes nomes do teatro brasileiro, que qualidades você percebe no dramaturgo e diretor Pedro Kosovski?
RK: – Um artista rigoroso como poucos que conheci. Falo isso com toda a calma e distância possível. Já trabalhei com gente incrível, incluo aí, Fernandona, Fernandinha, Domingos Oliveira, Maitê Proença, Paulo Betti, e muitos, muitos outros. A lista é extensa e de variadas praias, afinal são 40 anos, mais de 100 peças entre atuação e direção em teatro, cinema e TV. Muita gente, muitos estilos… Mas Pedro é artista mesmo! Sua grande prioridade é o espaço de criação, tudo fica a serviço disso. Ele aprendeu bem o ofício, e ainda tem muito que realizar!

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BC: – Que expectativas você guarda para a temporada e o espetáculo como um todo?
RK: – A melhor possível! Cada trabalho que faço, entrego alguma parte minha e recebo de volta, em dobro. Sempre foi assim. Aqui eu doei meu coração e espero receber dois de volta. O primeiro para amar e o segundo… para amar também.

Foto: Lourenço Monte

Foto: Lourenço Monte


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Impressionante! Amei a peça, a entrega e a comunhão de Pedro e Ricardo! Parabéns!

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