Entrevista Teatro Infantil: Banda Mirim


 
Foto: Georgia Branco

Comemorando 15 anos de trajetória, a Banda Mirim se apresenta nos próximos dias 5 e 6 de outubro às 11 hs no Rio de Janeiro, no Sesc Ginástico, como parte da circulação que realiza através do programa BR Distribuidora de Cultura por todo país, com o aclamado “Festa”, um musical inteirinho sem falas, com performances arrebatadoras para 13 músicas originalmente compostas e, é claro, diversão de sobra. Enaltecendo a vida, o encontro e o tempo, a peça vai além do entretenimento: cativa sim as crianças, mas também acessa as memórias afetivas dos adultos de forma poética e lúdica, reforçando o papel essencial do teatro para a formação emocional do cidadão. As apresentações contam com intérprete de LIBRAS e audiodescrição

Durante esse tempo de atividade, a Banda Mirim possui um repertório que já foi assistido por mais de 200 mil espectadores, produziu quatro CDs, três livros, cinco DVDs, três especiais para televisão, duas revistas e uma série em jornal, além de ter recebido 28 prêmios.

“Festa” tem direção e dramaturgia de Marcelo Romagnoli, iluminação e cenografia de Marisa Bentivegna e figurino de Fabio Namatame. Estão no elenco Claudia Missura, Alexandre Faria, Tata Fernandes, Simone Julian, Nina Blauth, Lelena Anhaia, Olívio Filho, Nô Stopa e Edu Mantovani.

Fora do palco, a Banda Mirim participa de um encontro com artistas, músicos e produtores culturais para trocar experiências e debater novos caminhos do teatro infantil no Brasil. Também realiza a oficina “Práticas Criativas” para arte-educadores, estudantes de artes cênicas, música, iniciados e interessados no universo pedagógico infantil. Essas atividades acontecem no dia 3 de outubro no Circo Crescer e Viver, sendo ambas gratuitas.

Nesta entrevista concedida ao Botequim Cultural, os integrantes da Banda Mirim falam sobre o espetáculo “Festa“, analisam a trajetória do grupo e comentam a Oficina Prática de Criação que realizarão durante sua passagem pelo Rio de Janeiro.

Marcelo Romagnoli – Foto: Daniel Kersys

BC: – “Festa” pontua os vários ritos de passagem na vida de uma criança, contada através da música, sem falas. Como se dá esse processo de simbiose entre dramaturgia e música para contar essa história?

Marcelo Romagnoli: – A Banda Mirim tem uma característica de juntar teatro e música. A música tem uma forte potência narrativa nos espetáculos da banda, ela não está ali como um entretenimento. Está ajudando a contar a história, faz parte da dramaturgia. Então “Festa” a gente acaba aproveitando bastante essa característica narrativa. Não tem texto escrito, dramaturgia está espalhada pelas imagens, pela música, pela interpretação, os personagens envelhecem, personagem principal vai envelhecendo, a gente vê isso no corpo da atriz, tudo isso ajuda a contar essa história.

BC: – Quais pontos da sensibilidade infantil vocês procuram atingir com o espetáculo?

Marcelo Romagnoli: A gente espera atingir não só a criança da plateia, mas também o adulto. Fala do desenrolar de uma infância, então quem é criança se identifica com isso, até chegar lá na terceira idade, na idade da experiência. A intenção é capturar, sensibilizar plateias de todas as idades com o espetáculo.

BC: – Que aspectos de “Festa” são responsáveis por ainda mantê-la ativa desde sua concepção em 2014? Que retorno ela traz para vocês?

Nô Stopa(atriz, cantora e compositora): – A sorte de termos um dramaturgo que cria os personagens especialmente para cada artista potencializa as características e as qualidades de cada um e nos ajuda bastante nas montagens. Em cada espetáculo passamos por um processo criativo diferente. O que há em comum em todos é uma investigação direcionada onde nos aprofundamos no tema e criamos estofo emocional para sustentar a presença e o estado dos personagens em cena. Em “Festa” tivemos um processo diferente, com menos tempo para pesquisar. Levantamos a peça em cerca de dois meses. Para isso, lançamos mão da bagagem adquirida na nossa trajetória de dez anos, da cumplicidade e intimidade que criamos juntos nesse percurso, além da vivência artística galgada por cada um paralelamente à Banda Mirim. Hoje, cinco anos depois, com mais algumas experiências somadas à nossa história, remontar “Festa” foi um grande presente. Interpretar nossos 15 anos é um motivo lindo para estarmos felizes e inteiros em cena!

BC: – São 9 atores em cena que buscam se expressar com humor e através do trabalho corporal. Gostaria que você comentasse a contribuição do elenco na sustentação e no processo de maturação do espetáculo.

Marcelo Romagnoli: – A Banda Mirim é um grupo grande, não é comum um grupo de 14 pessoas se manter durante tanto tempo no Brasil, com tantas dificuldades de mercado, tentando se viabilizar constantemente. Uma outra característica nossa é que a maioria das pessoas estão juntas nestes 15 anos, ou seja, são fundadoras do grupo, então tentamos ultrapassar todas as dificuldades do mercado mantendo a criatividade em dia. Então são 9 musicais nesse período, uma produção intensa, vários formatos de shows, muitas ações formativas, um grupo com produção muito forte, isso ajuda a manter o grupo vivo, o elenco coeso, a gente pensa parecido dentro do grupo, então isso é muito bacana, todo mundo tem a mesma concepção parecida de mundo, de acreditar numa vertente social e sensível do mundo da criança, em relação ao mundo do adulto, tentando abarcar esses dois lados da vida, a criança e o velho, acho que tudo isso nos mantém vivos diante de todas as dificuldades que a arte do Brasil enfrenta.

BC: – Num momento em que se diz que cores meninos e meninas devem usar, justamente uma das características do trabalho da Banda Mirim é questionar estereótipos e padrões pré-estabelecidos. De que maneira você enxerga o discurso artístico da Banda Mirim dentro da ordem vigente deste momento?

Claudia Missura(atriz): – A Banda Mirim sempre buscou uma comunicação com todas as idades, tentando falar pra todos. Nosso discurso artístico é de inclusão, nada separatista. Queremos nos comunicar através do texto e da música com todos e falar de vários assuntos que nos atravessam. Falamos sobre amizade, infância, velhice, memória, descobertas e curiosidades. Tanto nas peças quanto nos shows nossa bandeira é e sempre será o afeto, o amor. Nosso posicionamento é um convite a ver e sentir a vida de um ponto de vista mais amoroso, com humor e poesia. Trazer assuntos para que pais e filhos possam continuar a conversa em casa. Um hiato nessa balbúrdia de intolerância e violência que estamos vivendo. Acreditamos que um espetáculo, um show, um filme, possa contribuir na formação do pensamento e estrutura emocional de um ser e mudar o rumo de qualquer história. Da nossa história.

Foto: Georgia Branco

BC: – São 15 anos de trajetória da Banda Mirim. Quais as grandes dificuldades para se manter em atividade por esse período?

Andrea Pedro(produtora):Manter um trabalho artístico continuado nunca foi uma tarefa fácil e ainda um grupo tão numeroso e praticamente o mesmo desde a sua formação. Mas as dificuldades não passam pela criação, pois as afinidades artísticas somadas à amizade e à admiração mútua só avançam com o tempo. Nossos maiores entraves estão no mercado, já que sobrevivemos há 15 anos à margem dos apelos comerciais. Então, dependemos de recursos e de políticas públicas para manter vivo o coletivo como organismo pensante e pulsante, aglutinador de pessoas afins e realizador de projetos tão ambiciosos como nosso tamanho. Circular pelo país com 16 pessoas apresentando espetáculos tecnicamente complexos acaba só sendo possível graças a editais como o Programa BR Distribuidora de Cultura, que nos trouxe até o Rio. Com leis de incentivo e patrocínio de empresas públicas ou privadas conseguimos diminuir as fronteiras e alcançar novas plateias. Com editais de fomento conseguimos propor novas pesquisas. Até então pudemos contar com tais oportunidades mas, atualmente, o que não era tarefa fácil tem se transformado em missão impossível, infelizmente. 

BC: – Ao mesmo tempo, como esse período de 15 anos contribui para o processo de construção dos espetáculos?

Lelena Anhaia(atriz e musicista)Quinze anos numa família grande. Esse conhecimento do outro e de si mesmo que a convivência proporciona é o grande trunfo de um tempo extenso de trabalho conjunto. Assim, cada vez que começamos um trabalho novo é como se estivéssemos continuando um processo que se iniciou no primeiro encontro. Dessa maneira, o processo fica cada vez mais fluído, porque cada um vai entendendo uma medida, uma maneira de se colocar nesse quebra cabeça que é um grupo. Estabelece-se então uma espécie de linguagem particular, que vai percorrendo todos os trabalhos, que contribui muito no processo de criação.

BC
: – Nessa passagem pelo Rio haverá uma oficina prática de criação. O que será proposto nessa oficina?

Tata Fernandes(atriz, cantora e compositora) – Nessa oficina compartilharemos exercícios que fomos aprendendo, inventando e desenvolvendo ao longo desses 15 anos. Propostas simples para que todos possam, através de brincadeiras com o corpo e a voz, aguçar a atenção, a prontidão, a escuta o reflexo, o ritmo e o estado de presença.

BC: – Não tenho recordação de passagem da Banda Mirim pelo Rio. Um importante diretor de teatro infantil de São Paulo, certa vez comentou comigo que parece ter um bloqueio que dificulta a ida de peças de São Paulo para o Rio. Ainda assim tempo, nos últimos anos foi possível assistir alguns(poucos) espetáculos da Vagalum-tum-tum, da Le Plat du Jour e da Cia Solas de Vento, além de um espetáculo com texto e direção do próprio Marcelo Romagnoli, “Terremota”. Quais os entraves que impedem uma maior circulação de espetáculos infantojuvenis de São Paulo aqui no Rio de Janeiro?

Marcelo Romagnoli – Acho que deveria haver mais intercâmbio entre espetáculos de crianças do Rio e São Paulo, os adultos tem circulação maior, mas ainda assim restrita. É bem difícil mesmo acontecer intercâmbio com mais força. Interesse das instituições, dos espaços culturais, talvez um pouco nós do meio, os produtores, criadores, talvez a gente não se aplique tanto porque sente dificuldade na pele dificuldades de locomoção. A gente conta muito com os editais de circulação, os editais estão minguando, da Caixa, da Petrobras, do Banco do Brasil, isso é muito chato. Isso ajuda a manter esse diálogo vivo e sem falar das outras capitais, das outras regiões do Brasil, sair do eixo Rio-São Paulo, é muito importante. Saber o que está sendo feito o que está sendo criado de música para teatro para criança e juventude pelo Brasil é muito rico, e a gente não tem muito esse acesso. A criação dessa rede seria grande avanço para essa área da Cultura. 

BC: – Em novembro vocês farão uma ocupação no Sesc da Av Paulista. Qual a expectativa para essa ocupação e que espetáculos do repertório da Banda Mirim serão apresentados?

Alexandre Faria(ator)Temos uma ligação emocional forte com o Sesc Avenida Paulista, estreamos nosso espetáculo “Sapecado” ali, quando ainda era uma unidade provisória, e foi incrível! Literalmente, inauguramos o espaço, em 2008, antes dele começar a existir definitivamente na cena cultural paulistana. Vai ser muito bacana voltar ali, fazer nossa “festa de debutante” justo na Paulista, hoje o coração de São Paulo, que nos finais de semana, principalmente nos domingos de abolição do carro quando o cidadão-pedestre é rei, vira um território de cultura, arte, lazer, convivência, diversidade, tolerância… de tudo o que precisamos hoje em São Paulo e no Brasil… Vamos estar ali com nossos primeiro e último espetáculos, “Felizardo” e “Buda”, em apresentações entremeadas por leituras abertas de todas as outras peças. De repente, até atraímos passantes desavisados, novos públicos, molecada que brinca na Avenida, para conhecer a arte da Banda Mirim. Para nós, e para quem embarcar com a gente nessa experiência, vai ser “a” oportunidade de conhecer a curva artística desenhada nos 15 anos de convivência desse coletivo.


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