Entrevista Teatro Infantil: Vanessa Dantas


 

Vanessa Dantas

Uma das mais destacadas referências do atual teatro infantojuvenil, Vanessa Dantas apresenta, seu mais novo projeto: “Thomas e as Mil e uma Invenções”. O espetáculo se passa na Zona Norte carioca, aonde Thomas Edison da Silva mora com os pais, a avó e o gato. Aos nove anos de idade, ele tem a mente fervilhando de ideias, sempre inventando engenhocas de todos os tipos. Seu pai, o eletricista Edison da Silva, tem como ídolo um dos maiores inventores de todos os tempos: o norte-americano Thomas Alva Edison (1847–1931). Ao batizar o filho, fez uma homenagem ao cientista na esperança que o menino trilhasse os mesmos passos do xará famoso.

Com texto assinado pela própria Vanessa Dantas, músicas especialmente compostas por Tim Rescala e direção de Fabianna de Mello e Souza, “Thomas e as Mil e uma Invenções” está em cartaz no Oi Futuro Flamengo, até o dia 10 de junho.

Nesta entrevista, Vanessa Dantas  comenta sobre seu processo de criação, suas motivações e perspectivas no momento em que seu projeto deixa em definitivo sua fase de concepção para finalmente ganhar o olhar do público.

Foto: Dalton Valério

Foto: Dalton Valério

BC: – Como e por que Thomas Edison despertaram o desejo de montar um espetáculo que viesse da inspiração de sua vida e obra?
VD: – Eu assisti a um documentário sobre Thomas Edison, que contava a sua trajetória da infância à velhice. As histórias me espantam e por isso me fascinam. Se dez pessoas assistirem à mesma história provavelmente teremos dez visões diferentes. Cada história bate de um jeito na gente, pois a elas somamos também a nossa experiência de vida. Em mim bateu da seguinte maneira:
Quando se fala de um inventor ou um cientista, parece que está tão longe da gente. Parece que pertencem a outro mundo. Se espera que eles não cometam erros, mas isso é impossível. Eles não são super-heróis. São humanos, como todos nós.
Thomas Edison não foi um homem perfeito, tampouco foi um profissional perfeito (para falar a verdade, que ser humano terá sido?). Mas entre “erros” e “acertos”, o inventor contribuiu enormemente para a evolução do nosso mundo. Mesmo nos momentos mais difíceis da sua carreira, ele nunca desistiu, ao contrário, sentia-se cada vez mais motivado. Até o fim da sua vida conseguiu manter acesa a chama da curiosidade, da paixão pelo que fazia. Mas de que maneira ele conseguiu isso? Como as dificuldades da sua vida e da sua carreira (que foram muitas!) não conseguiram ofuscar o brilho dos seus olhos, a chama do seu coração? Isso me deixou bastante intrigada. Comecei a investigar mais a fundo, assistindo tudo que consegui encontrar sobre Thomas.
O inventor reuniu três “ingredientes” fundamentais: vocação, talento e dom. Essas três palavras, às vezes, podem confundir, mas elas são bem claras e distintas umas das outras. Vocação é o chamado, quando nos sentimos atraídos para realizar alguma coisa. O talento é a habilidade que possuímos (ou não) para cumprir a vocação. E dom é graça. Dom é para o outro. É o talento que cumpre a vocação pela felicidade de todos. Imediatamente pensei: quero falar sobre isso!
Como o meu trabalho é voltado para crianças, foi inevitável pensar de imediato como é importante esse tema para pais e filhos. Como deixar aflorar o desejo, a curiosidade das crianças, sem influenciá-las a seguir o caminho que desejamos para elas? Para que as crianças possam ouvir o seu próprio chamado, para que elas possam descobrir o seu talento e o seu dom é preciso que elas tenham liberdade para escolher, experimentar, no seu próprio tempo. Mas também é preciso apresentar caminhos para elas. Como saber da existência de caminhos, se eles não forem apresentados para a gente?
A mãe de Thomas foi a responsável pela sua educação. Me chamou a atenção como ela ia percebendo o que fazia os olhos do pequeno Thomas brilharem. Ela teve o olhar curioso para ele. Entre livros apresentados ao filho, ela também lhe deu algo fundamental: asas!
O espetáculo fala disso. Quando você reúne vocação, talento e dom, quando você ouve o seu coração para encontrá-los, você se torna mais feliz e consequentemente as suas realizações também são capazes de deixar a todos mais felizes. Felicidade inspira!
É um tema capaz de cativar não apenas as crianças e os adultos em relação às crianças. Mas também é uma oportunidade para os adultos refletirem sobre as suas escolhas. Sempre há tempo para novas ideias, novos caminhos.
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BC: Como surgiu essa ideia de transpor o universo de Edison para uma típica família da Zona Norte Carioca?
VD: – Eu gosto de trazer as histórias para o nosso universo brasileiro, para a nossa cultura. O carioca é encantador, carismático, tem musicalidade. Mesmo em situações difíceis consegue encontrar a esperança, ter fé, sem perder o humor e a alegria. Conforme os personagens foram surgindo, fui percebendo que eles tinham uma alma que cantava, uma alma carioca, brasileira. Além disso, a sonoridade do subúrbio carioca é muito rica, o choro, o samba… Isso foi outro ponto a favor.
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BC: – Com “Thomas e as Mil e uma Invenções” ressurge uma parceria que foi muito bem-sucedida anteriormente em “Cinderella, uma Opereta Brasileira”. Que qualidades você enxerga na direção de Fabianna de Mello e Souza para voltarem a trabalhar juntas?
VD: – Eu tenho alguns mestres, que admiro, respeito e me inspiro. Fabianna é um deles. É uma diretora apaixonada pelo trabalho artesanal do ator. Além disso, é uma profissional que abraça, que divide pensamentos e construções comigo e com toda a equipe. O espetáculo estreou e a gente continua trocando para que ele fique cada vez melhor. Toda vez que trabalhamos juntas, aumenta a minha admiração pela pessoa e profissional que é a Fabianna.
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BC: – A música é algo muito presente, para não dizer vital, nos seus projetos. Queria que você comentasse as criações de Tim Rescala para o espetáculo?
VD: – Há tempos eu queria trabalhar com o Tim em um espetáculo. Já havíamos trabalhados juntos no “Blim Blem Blom”, a convite do próprio Tim. Era uma rádio novela da MEC FM sobre música clássica. Ali, aprendi muito com ele sobre dramaturgia. Foi um trabalho incrível.
Eu sei que Tim gosta de criar músicas, então, quando surgiu a oportunidade de um espetáculo inédito, não pensei duas vezes em chamá-lo. O que mais me marcou no processo foi que eu passei um período bem difícil enquanto criava. Tive alguns problemas sérios de saúde na minha família, que me deixaram bastante arrasada. Eu escrevia uma cena e travava, a tristeza tomava conta de mim. É tão difícil lutar contra a tristeza. Cheguei a pensar se seria capaz de dar conta desse trabalho. Mas aí vinha o Tim sempre com uma música fantástica, arrepiante. Ao mesmo tempo que cada uma delas servia brilhantemente à história, também me inspirava a continuar escrevendo. Cada música que chegava me despertava novas ideias. Aos pouquinhos, a felicidade foi voltando, foi tomando o espaço da tristeza, até ela desaparecer por completo. Como pode isso acontecer? Como pode a música abrir horizontes e o coração? Eu não sei. A música é algo mágico, a do Tim, tenho certeza que é!
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BC: – Dentro do seu projeto existe uma ação denominada “Pequenos Grandes Inventores”, em que estudantes de uma escola municipal participaram de alguma forma do processo. De que forma isso ocorreu?
VD: – Fizemos uma leitura dramatizada de um trecho da peça na Escola Senador Correa, para os estudantes do quarto e quinto ano. Após a leitura, fizemos uma pergunta às crianças, a mesma pergunta que circunda o menino protagonista da peça: “O que você inventaria para deixar as pessoas mais felizes?”. Orientamos as crianças a desenharem as suas invenções. Procuramos estimular seus olhares curiosos de maneira que prestassem atenção nas pessoas ao seu redor e suas dificuldades no dia a dia.
Selecionamos algumas das invenções desenhadas, que foram reproduzidas em protótipo pelo nosso cenógrafo, Glauco Bernardi. Três das invenções podem ser conferidas dentro do espetáculo, na própria história. Outras farão parte da miniexposição “Pequenos Grandes Inventores”, a partir do dia 05 de maio, no Centro Cultural Oi Futuro e também na página oficial de “Thomas e As Mil e Uma Invenções” (https://www.facebook.com/thomaseasmileumainvencoes/).
Todas as crianças são nossas convidadas para verem o espetáculo. Estou ansiosa por esse dia. Quero muito saber qual será a reação delas ao verem as criações expostas para todos. As crianças precisam confiar em si mesmas, nos seus potenciais, no seu afeto. Precisam ter a consciência de que nós podemos tornar a vida das pessoas mais felizes.
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BC: Foi feito um curta-metragem especialmente para a peça, que é inserido no meio da história. De alguma forma você já se utilizou desse recurso dramatúrgico em “Tra-la-lá”, mas pelo que compreendi, naquele caso com uma função mais próxima da metalinguagem do que agora. Como funciona essa inserção em “Thomas e as Mil e uma Invenções” e qual a sua função para a história?
VD: – Tanto em “Thomas e As Mil e Uma Invenções” como em “Tra-La-Lá”, a inserção de curta-metragem não partiu de uma vontade e, sim, de uma necessidade de ambas as dramaturgias.  Uma das músicas mais famosas de Lamartine Babo, “Canção Para Inglês Ver” é uma sátira do compositor à época, aos estrangeirismos adotados nas grandes cidades brasileiras. O cinema americano tinha acabado de chegar no Brasil, o que despertou um exagerado uso de palavras em inglês por aqui. Até os malandros cariocas salpicavam “hellos” para lá e para cá.
Já no caso de Thomas Edison, foi no seu laboratório que surgiram as primeiras máquinas de filmar. O cinetoscópio, por exemplo – invento de William Kennedy, um dos engenheiros de Edison – era uma espécie de caixa com projeção interna para apenas uma pessoa. Foi uma importante contribuição dos laboratórios Edison para a chegada do cinema. Logo depois, os Lumière patentearam o cinematógrafo, marcando a história inicial do cinema com a projeção em telas.
No espetáculo, Thomas Edison – retratado em um quadro na parede – ganha vida e salta para a cena. Através do cinema, que nos permite a possibilidade de viajar no tempo, o inventor apresenta a sua trajetória de estudo, trabalho, persistência e paixão, ampliando os horizontes do menino protagonista e também do público.
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BC: – O elenco é formado por Gabriel Stauffer, Hugo Kerth, Letícia Medella e Thais Belchior. Queria que você falasse um pouco do seu elenco e comentasse as razões de suas escolhas.
VD: – A escolha do elenco envolve também Fabianna e Tim, os diretores. Neste espetáculo, precisávamos de um quarteto com vozes específicas e também versatilidade enquanto atores, uma vez que três do quarteto dobram papéis. Gabriel interpreta Seu Edinho, que é o pai na história e também interpreta o próprio Thomas Edison. São personagens completamente diferentes e Gabriel dá vida para ambos de maneira admirável. Já havíamos trabalhado juntos. Já a Leticia, há anos eu tinha vontade de convidá-la para algum projeto. Ela interpreta a mãe, Dona Nancy e também a avó, Dona Madá – mãe de Dona Nancy. Não vou dar spoiler, mas posso dizer que se parece impossível uma atriz se desdobrar tão rápido em cena, Letícia prova para a gente que não. Vale muito à pena ver o trabalho dela. Já Thais, estudamos juntas. Sempre quis convidá-la para trabalhar e, então, surgiu a oportunidade. Ela interpreta Mina e Marion, as gêmeas e consegue despertar sentimentos opostos na plateia com ambas as personagens.
Dobras de papéis não são nada fáceis, mas ser protagonista também é uma baita responsabilidade. Hugo interpreta Thominhas, o menino da história. Assim como com Gabriel, também havíamos trabalhado juntos. Além de excelente ator, Hugo é disciplinado e tem muito carisma. As crianças se identificam muito com o Thominhas.
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BC: – Depois de aproximadamente 3 anos desde a ideia inicial, “Thomas e as Mil e uma Invenções” finalmente chega ao seu destino, o palco do teatro. De que maneira o projeto amadureceu para você nesse espaço de tempo entre a concepção e concretização?
VD: – Ainda estamos em processo, no início da realização. Para mim, a temporada é fundamental para poder avaliar o amadurecimento do projeto. Através do público é possível saber os caminhos acertados, o que não funciona tanto, o que deve ser aperfeiçoado. Teatro é deliciosamente vivo. É movimento. Está em constante transformação. O que posso dizer é que com o pouco tempo em cartaz, tenho percebido que as crianças ficam muito ligadas, atentas à história. Elas torcem, se divertem. E os pais também. Isso me deixa muito feliz.
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BC: – Por fim, que expectativas você aguarda nesse momento que ele ganha o olhar do público?
VD: – Eu não costumo criar expectativas. Procuro me conectar com a plateia, com o espetáculo, dia a dia, para a sua evolução e para a minha própria, enquanto profissional. A equipe de Thomas conversa muito, está sempre atenta, são profissionais incríveis. Conversamos sobre todos os acontecimentos para que a temporada possa ser a cada dia melhor. O teatro nos permite essa deliciosa possibilidade.

Foto: Dalton Valério

Foto: Dalton Valério

Ficha Técnica
Espetáculo – “Thomas e as Mil e Uma Invenções”
Direção – Fabianna de Mello e Souza
Dramaturgia e Texto – Vanessa Dantas
Músicas, Direção Musical e Arranjos – Tim Rescala
Direção de Movimento – Eléonore Guisnet
Consultoria Dramatúrgica – Evelyn Disitzer
Colaboração Dramatúrgica e de Pesquisa – Tiago Herz e Thais Velloso
Elenco – Gabriel Stauffer (Thomas Alva Edison/Seu Edinho), Hugo Kerth (Thomas Edison da Silva), Letícia Medella (Dona Nancy/Dona Madá) e Thais Belchior (Mina/Marion)
Músicos – Daniel Ganc (violão), David Ganc (flauta), Jayme Vignoli (cavaquinho) e Oscar Bolão (percussão)
Stand-in músicos – Gabriel Leite e Leo Pereira
Participação especial (Curta Metragem) – Arthur Thaumaturgo
Iluminação – Aurélio de Simoni
Cenário, Objetos Cênicos e Exposição Pequenos Grandes Inventores: Glauco Bernardi
Figurinos – Espetacular Produções e Artes – Ney Madeira e Dani Vidal Visagismo – Mona Magalhães
Criação e Confecção de Adereços (bonecos e barriga) – Bruno Dante
Assistente de direção musical e pianista ensaiador – Tibor Fittel
Preparação vocal – Marcello Sader
Assistente de figurino – Rafaela Rocha
Assistente de produção – Juliana Soares
Operação de luz – Ana Luzia de Simoni e João Gioia
Alfaiataria – Renato Nascimento Costura – Railda Costa
Ilustrações e comunicação visual – Bruno Dante
Roteiro (Curta Metragem e Pílulas) – Vanessa Dantas e Leo Miranda
Direção Geral Audiovisual – Guilherme Fernandes
Designer de som e operador – Branco Ferreira
Assessoria de imprensa – Paula Catunda e Bianca Senna
Mídias sociais – Rafael Teixeira
Fotografia artística – Dalton Valério
Administração financeira – Natália Simonete
Serviços Contábeis – Cris Consult e Hiper Serviços
Assessoria jurídica – Reinoso e Canedo Advogados
Direção de Produção – Pagu Produções Culturais
Idealização do Projeto – Vanessa Dantas
Realização – Marcatto Produções Artísticas e Pagu Produções Culturais

SERVIÇO
Espetáculo: “Thomas e As Mil e Uma Invenções”
Temporada: 21 de abril a 10 de junho de 2018.
Local: Centro Cultural Oi Futuro (Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo).
Telefone: 3131-3060.
Dias e horário: Sábado e domingo, às 16h.
Sessões com libras nos dias 12/05 e 02/06.
Sessão com audiodescrição no dia 26/05.
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia).
Classificação: Livre.
Duração: 70 minutos.
Bilheteria: Terça a domingo, das 14h às 20h.
Capacidade: 63 lugares.
Venda pela internet: www.ticketplanet.com.br


Palpites para este texto:

  1. Dalton Valerio -

    Esse processo de formação de publico infanto juvenil no teatro, operetas e musicais, feito pela Vanessa é incrível, importantíssimo. Parabens e muito sucesso !

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