Entrevista: Victor Maia


 

Por Renato Mello

Foto: Ernna Costa

Foto: Ernna Costa

Um dos mais profícuos nomes do teatro musical, o ator, coreógrafo e produtor Victor Maia está em cartaz com o espetáculo “Ayrton Senna, o Musical”, que cumpre temporada até 4 de fevereiro no Teatro Riachuelo, interpretando um dos personagens chaves do seu enredo.

Produzido pela Aventura Entretenimento, “Ayrton Senna, o Musical” retrata no palco a essência da personalidade e caráter, com espírito guerreiro e de solidariedade do tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna, reconhecido como um dos maiores pilotos de todos os tempos.

Nos últimos anos Victor Maia se apresentou em alguns dos mais representativos espetáculos do segmento musical, como “Ou Tudo Ou Nada” (The Full Monty), que lhe rendeu o prêmio Botequim Cultural como melhor ator coadjuvante em 2015; “Simbora – A História de Wilson Simonal“; “Quase Normal” (Next To Normal), com o qual teve duas indicações como melhor ator coadjuvante em 2014 (Prêmio Bibi Ferreira e Premio Cenym); “Alô Dolly!” (Hello Dolly!), ao lado de Marília Pera e Miguel Falabella; “A Aurora da Minha Vida – Um Musical Brasileiro“, dirigido por Naum Alves de Sousa, e “60! Década de Arromba”, que além de integrar o elenco do musical, foi coreógrafo e diretor de movimento.

Victor Maia gentilmente nos concedeu esta entrevista em que comenta seu processo de construção para atuar em “Ayrton Senna, o Musical”, assim como pontua alguns aspectos da sua carreira e sua visão sobre o teatro musical.

Foto: Caio Gallucci

Hugo Bonemer e Victor Maia em “Ayrton Senna, o Musical” – Foto: Caio Gallucci

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BC: – Em “Ayrton Senna, o Musical” você interpreta um personagem denominado como o “engenheiro”, mas que tem uma função dramatúrgica importante dentro de um processo interior do protagonista(Ayrton Senna, vivido por Hugo Bonemer). Quem é esse engenheiro?
VM: – Um engenheiro tem a função de se comunicar com o piloto durante o percurso da corrida e passar informações técnicas a respeito do carro e da competição. Durante anos o engenheiro do Senna foi o Patrick Harrison e ele aparece no espetáculo, mas não sou eu quem o interpreta. O meu personagem entra em cena de maneira sorrateira e a ideia é de que o espectador fique, durante parte do espetáculo, com uma interrogação na cabeça a respeito de quem ele realmente é, já que no decorrer da história ele vai estimulando o Senna a refletir sobre suas escolhas, relações e principalmente sobre se arriscar e estar sempre no limiar entre a vida e a morte.

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BC: – Além da atuação e da dança, “Ayrton Senna” requer dos seus atores a utilização de técnicas inusuais em teatro musical, que entre outras coisas te obriga a se equilibrar numa roda móvel de 4 metros de altura. Que desafios esse trabalho te acrescenta como artista?
VM: – Eu, assim como o Senna, adoro o risco e desafios. Já tinha feito circo antes, mas nunca tinha utilizado da técnica em cena. Durante o processo de ensaios tivemos workshops e preparação corporal com uma equipe que tinha bastante conhecimento da área. Rodolfo Rangel, nosso coach de circo, trabalha para o Cirque Du Soleil, o que nos garantia estar em excelentes mãos. Poder mostrar em cena essa faceta, nessa altura da minha vida, me enche de alegria porque eu sempre procuro surpreender as pessoas que já acompanham o meu trabalho com alguma novidade!

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BC: – Fale um pouco sobre o trabalho de criação do seu personagem e do trabalho em conjunto com o Hugo Bonemer e com o diretor Renato Rocha? Como se deu coletivamente o processo criativo?
VM: – Eu levei semanas para entender quais eram as camadas desse “engenheiro” e da relação dele com o Senna. O Renato mostrou muita confiança em mim e no Hugo nos deixando muito à vontade para experimentar, tanto que 90% das coisas que estão em cena, foram descobertas por nós, em ensaio. O Hugo, por sua vez, foi primordial para a minha composição, porque ele tem um olhar questionador, não óbvio e, acima de tudo, contemporâneo, o que dialoga demais com a estética do nosso espetáculo.

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BC: – Suas expectativas artísticas têm sido satisfeitas nessa temporada?
VM: – Sim, cada dia mais. Nosso espetáculo, apesar de estarmos acostumados a ver em teatro musical uma engrenagem fechada, definitiva, no que diz respeito a direção, tem como essência ser uma obra aberta para descobertas diárias. O que eu quero dizer é que todo dia testamos coisas, aperfeiçoamos outras, e dia após dia vamos tornando o espetáculo melhor. Na Broadway, os espetáculos são montados em oito meses mais ou menos, com todos os envolvidos recebendo um salário e depois fazem meses de ensaios abertos ao público para testar as coisas. No Brasil, graças ao investimento que (não) temos em cultura, essa realidade é inviável, então já que estamos tentando criar algo novo, quase ainda não visto em musicais, temos a humildade de testar e cada vez mais aperfeiçoar.

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BC: – Você acredita que o público identifica no espetáculo de vocês a figura mítica de Ayrton Senna? Que retorno você tem sentido do público em relação ao espetáculo?
VM: – A plateia tem ficado muito emocionada ao final das sessões. Senna era um herói brasileiro e mesmo aqueles que não o acompanharam sentem essa força. O espetáculo procura focar no Senna herói e o Senna “humano”, mais atento as questões sociais. Essa é uma faceta pouco explorada do Ayrton e o musical busca apresentar também esse outro lado. Talvez isso divida um pouco a atenção do público no início, mas no desenrolar da história tudo isso vai potencializando e virando uma força só.

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BC: – “Ayrton Senna, o Musical” tem recebido algumas críticas negativas. Você entende que a dita “crítica especializada” não compreendeu bem a proposta do espetáculo?
VM: – Acho de verdade que as pessoas tem receio no que é novo e são apegadas aquilo que lhes é confortavelmente comum, habitual. Por mais que todo mundo busque ser original a ousadia assusta. Hair quando foi encenado na Broadway pela primeira vez provocou um choque, um alarde! Parecia que o chão da Broadway iria ruir e o teatro estaria fadado as ruinas. Não estou comparando o nosso musical com Hair, mas acredito que a gente esteja fazendo parte de um movimento que vislumbra criar uma nova forma de apresentar o teatro musical, principalmente, no Brasil.

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BC: – Como você vê o atual cenário do teatro musical no Rio de Janeiro? Você não acha que tivemos poucos musicais representativos na atual temporada?
VM: – A cidade está passando por uma crise seríssima do que diz respeito ao investimento cultural né? Com toda essa confusão fica muito difícil produzir e realizar teatro. Teatro Musical requer muito aparato técnico e com isso investimento. Cerca de 40 pessoas são empregadas numa montagem de um espetáculo, digamos, modesto. E sem incentivo, investimento, fica impossível. Uma pena. Teatro tem uma função que vai muito além de entreter o espectador. Formamos opinião, questionamos, desenvolvemos novos pontos de vista. Isso não parece ser importante para os nossos representantes políticos e pelo que me parece, para eles, é até melhor.

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BC: – Você participou nos últimos anos de propostas muito diferentes: Produções independentes(“Ordinary Days”), grandes produções (“Ou Tudo ou Nada”), clássicos da Broadway(“Alô Dolly”) biografias(“Simbora”). Os espetáculos que você apresentou nos últimos anos te realizaram plenamente como artista ou existe algum desejo pendente?
VM: – Eu nunca estou satisfeito com a minha trajetória artística. Quero sempre mais. Quero sempre ir além dos meus limites e experiências. Acho que a essência do artista está nisso: se reinventar, desafiar, superar expectativas pessoais… Eu ainda sonho em protagonizar uma opera rock com bastante demanda vocal. Todo mundo me conhece por ser um ator com bastante habilidade física. Agora quero apresentar a todos um Victor Maia que vai bastante além disso. Tenho pensado em produzir algo nesse perfil, já que os convites ainda não chegaram.

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Victor Maia com a estatueta do Prêmio Botequim Cultural 2015 - "Ou Tudo ou Nada"

Victor Maia com a estatueta do Prêmio Botequim Cultural 2015 – “Ou Tudo Ou Nada”

BC: – Uma pergunta com algum cabotinismo da minha parte: você ganhou o nosso prêmio Botequim Cultural de teatro como melhor ator coadjuvante por “Ou Tudo ou Nada”. O que representou para você?
VM: – Representou a confirmação de que estou construindo uma carreira sólida! Eu sempre me questiono a respeito do meu percurso como artista: se estou no caminho certo, fazendo as escolhas certas… Receber a confirmação através de uma indicação e posteriormente de um troféu me fortalece e me faz ter mais coragem para seguir sempre de cabeça erguida e preparado para “matar no peito” qualquer desafio que me apareça. Em cena e fora dela.

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BC: – Depois de “Ayrton Senna, o Musical”, quais são seus projetos para 2018 no teatro musical?
VM: – Por enquanto seguir coreografando o “Caldeirão do Huck”, na TV Globo… é a única certeza que eu tenho. As propostas como coreografo em teatro estão aparecendo, mas tenho estado mais atento as propostas como ator! Por enquanto estou confirmado na temporada paulista do musical “Ayrton Senna”. Depois dela ainda não sei. Algum convite?


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