Entrevista: Viniciús Arneiro


 

Por Renato Mello

image-1Formado na Escola de Teatro Martins Penna e já tendo em seu currículo a direção de espetáculos que repercutiram no cenário teatral carioca, como “Cachorro”, “Fluxorama”(junto com Inez Vianna e Rica Clemente), “Cassia Eller, o Musical”(Com João Fonseca)e  mais recentemente “Os Sonhadores”, Viniciús Arneiro está atualmente em cartaz no Sesi Centro com “Rose”, texto de Cecilia Ripoll, composto no núcleo de dramaturgia SESI Cultural, sob coordenação de Diogo Liberano.

Rose” conta a história de uma incansável funcionária pública de uma escola municipal carioca que, durante a semana, se angustia com a escassez de merenda para as crianças e, aos fins de semana, como empregada doméstica de uma família abastada, se depara com o desperdício de comida boa jogada ao lixo sem a menor piedade.

 Levando ao palco questionamentos sobre ética e valores presentes em nossa sociedade, Viniciús Arneiro concedeu esta entrevista ao Botequim Cultural na qual comenta as discussões refletidas no espetáculo, suas motivações pessoais  e suas opções para a concepção de “Rose“.

Foto: Bob Maestrelli

Foto: Bob Maestrelli

BC: – Que aspectos do texto de Cecilia Ripoll despertou em você o desejo de fazer parte desse processo?
VA: – O meu interesse pelo projeto foi anterior a escolha da dramaturgia a ser encenada. Ele surgiu quando eu soube pelo Diogo Liberano (coordenador do Núcleo de Dramaturgia) qual seria o programa do curso. Foi então que ele me fez o gentil convite de encenar o texto escolhido, antes mesmo de saber qual seria. Eu fiquei especialmente interessado pela forma como o Diogo elaborou as etapas de trabalho, a sua pedagogia e critérios para que houvesse um processo horizontal. A partilha dos exercícios de escrita entre autores e autoras do núcleo, a reflexão coletiva e aberta a partir do material produzido, sobretudo porque eles participavam intimamente dos processos uns dos outros, exercendo a interlocução e o pensamento crítico; por tudo isso e por outras inúmeras práticas, eu senti que poderia colaborar em algo de extrema relevância para o cenário teatral do país. E, imediatamente, aceitei o convite. Em relação ao texto da Cecília Ripoll, foi uma gratíssima surpresa ao me deparar com uma escrita tão direta e elaborada ao mesmo tempo. Um tema tão agudo e urgente, desenvolvido com inteligência crítica, sem qualquer traço de arrogância ou ironia, tem uma sintonia fina, difícil de encontrar. É uma dramaturgia que, logo na primeira leitura, me deixou ciente do quão difícil seria encena-la. 
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BC: – De que maneira o espetáculo dialoga com a degradação moral nos mais distintos níveis, que enxergamos no Brasil de hoje?
VA: – “Moral” é a diferenciação de intenções, decisões e ações entre aquelas que são distinguidas como próprias ou impróprias. A partir dessa definição de dicionário me abrem algumas reflexões: ao passo que hoje vemos um levante de grande parte da sociedade que diz zelar pela moral e os bons costumes, vemos uma explícita defesa de um conservadorismo assassino, pois sim, ele mata muitos de nós todos os dias. São tempos onde um policiamento massivo sobre as expressões culturais está se organizando de forma articulada e consistente. São tempos de polarização, ou seja, pouca troca e nenhuma escuta entre os polos. São tempos de fakenews, de difamação, de apedrejamentos na praça pública do Facebook. Tudo isso para dizer que existe uma organização séria por trás de todo esse movimento fascista, que age sob a custódia – no senso privado – do significado da palavra moral. É uma palavra difícil neste momento. Ela nos priva demais a cada minuto. Mas voltando a questão do que a dramaturgia “Rose” propõe, intuo um desejo de diálogo entre os polos, uma tentativa não maniqueísta de articular os discursos. Mas não é uma peça neutra. Os sentidos das ações da personagem Rose não são neutralizados. Uma espécie de instinto de sobrevivência constitui as intenções e a decisão dela ao pegar/roubar comida da casa de uma família rica (onde ela trabalha como empregada), que desperdiça alimento enquanto na escola pública (onde ela trabalha como merendeira) as crianças passam fome e brigam por comida. Existe sim uma degradação moral em questão. A meu ver, ela tem lugares de repouso. Ela costuma ficar bem ali, entranhada nos que destilam ódio aos movimentos populares, nos que rosnam com o fortalecimento da população pobre ao conquistarem o mínimo de dignidade com o dinheiro público, nos que torcem pela precarização das escolas e universidades públicas, nos que executam negros, mulheres, a comunidade LGBT, índios, nos que matam e vendem nossa fauna e flora. Enxergo nestes indivíduos opressores, que se intitulam “cidadãos de bem” a degradação, o apocalipse, o fim dos tempo. 
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BC: – A percepção dos valores éticos talvez seja um dos mais necessários debates a serem travados pela nossa sociedade. Você acredita na contribuição do texto para esse contexto, principalmente no contraponto da moralidade X legalidade?
VA: – Sem dúvida a dramaturgia colabora para esse debate. Mais do que a questão moral, eu diria que são os valores éticos que estão implicados no texto, justamente pela forma com que a Cecília expõe o dilema ao público. Ela propõe uma complexidade ao caso, uma vez que argumenta bem os pontos de vista. O dilema é real. Mas, particularmente, confesso que a contribuição maior que enxergo ali é ver alguém que age pelo querer bem, um bem querer genuíno, que só é possível se houver algum espírito de contravenção, algo de revolucionário.  Render-se ao sistema (muitas vezes perverso) pode nos levar a uma apatia ou impotência igualmente questionáveis. A personagem Rose não tira proveito algum da situação, muito pelo contrário, ela presta um serviço. Algo que por vias legais, dadas as circunstâncias, seria impossível.
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BC: – Além de autora, Cecilia Ripoll é também diretora. Como se deu essa relação entre vocês para a construção de “Rose” e de que maneira ela contribuiu na sua concepção cênica?
VA: – Quando se têm duas ou mais funções tão centrais, acredito que num processo de criação essas funções se ativem, conversem entre si, mas o foco se mantém na função pela qual você, de fato, responde e assina. Foi assim que senti a Cecília e assim estabelecemos nosso diálogo; à base de uma troca intensa e de uma relação suave e sincera. 
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BC: – Quais foram seus maiores desafios como diretor para a construção cênica desse texto?
VA: – É uma escrita com alto teor literário, tem ares de romance, é uma saga épica, é uma peça de teatro, é na primeira, na segunda e na terceira pessoa que ela se compõe, é o olhar da classe trabalhadora sobre a vida, é uma peça sobre a luta de classe, sobre paixão, comida, ética e caráter. Ou seja, a própria história é a protagonista. O que faz dela, sem dúvidas, uma peça difícil de ser encenada. O caldo é grosso. E esse é o brilho dela. Ao mesmo tempo que a dramaturgia nos pede que a história seja contada sem rodeios, sinto que ela nos permite (e deseja) que a encenação crie meios de extravasar.  Costumo pensar a cena de uma forma mais árida, sem muitos objetos ou apetrechos cotidianos, sem muita rede de proteção pros atores e para mim, justamente porque isso nos gera um problema, um bom problema. O desafio é como transpor as ideias na cena, como compor, como iluminar o texto e dar carne a ele. Esse corpo que ele ganha quando é encenado, a meu ver, é sustentado pela forma com que eu vou nutrindo as ideias dos atores e atrizes durante o processo. É um agenciamento onde a criação tem muitos braços e a escuta precisa ser a principal ferramenta de acesso para que se construa uma cena diversa, com uma direção menos hegemônica. 
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BC: – Você conta com um elenco de atores que prioriza o fazer teatral e toda uma camada artesanal que reside nessa expressão artística, como Ângela Camara, Dida Camero, Márcio Machado, Natasha Coberlino e Thiago Catarino. Como foi o processo de escolha do elenco e que qualidade você enxerga nesses atores para conduzir a história?
VA: – Costumo pensar que compor elenco é um processo alquímico. Cada projeto tem suas especificidades, claro. Mas a escolha do elenco no caso de ROSE surgiu da necessidade de ter atores e atrizes que tivessem, de fato, essa camada artesanal que você menciona na pergunta – por serem essencialmente artistas de teatro. Acompanho o trabalho desses artistas a algum tempo e nunca havia trabalhado com nenhum deles anteriormente. Intuitivamente os escolhi por ver neles uma personalidade bastante intrigante enquanto atores e atrizes, cada um à sua forma, mas todos tem uma qualidade de presença cênica que me fascina. E são radicalmente diferentes. Quis olhar para eles, quis saber como criam, como pensam, quis aprender sobre suas visões de mundo, de cena, quis ouvi-los. É um privilégio ter partilhado com cada um desses atores e atrizes essa criação, pois são gente forte e inteligente, são gentis e destemidos. Era apenas uma intuição a reunião dessa gente ao redor de ROSE, uma intuição que hoje sinto que foi acertada. Que sorte! Sabemos que não é fácil, sabemos que reunir-se para fazer teatro tem se tornado algo cada vez mais desafiador e mais estranho. Ao mesmo tempo, nunca fez tanto sentido seguir tentando, arriscando o que se tem ou o nada que temos a perder.

Serviço
ROSE
Temporada de 12 de março a 10 de abril
Dias e horários: segundas e terças às 19h
Local: Teatro SESI Centro
Endereço: Avenida Graça Aranha, 1 – Centro – Rio de Janeiro/RJ (Próximo ao Metrô – Estação Cinelândia)
Valor: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Bilheteria: segunda a sexta, das 12h às 20h. Sábados, domingos e feriados, quando houver atração, duas horas antes da sessão.
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos
Capacidade: 230 lugares

Equipe de Criação
Dramaturgia: Cecilia Ripoll
Direção: Viniciús Arneiro
Assistência de Direção: Marcela Andrade

Elenco (Personagem):
Ângela Câmara (Dona Celina)
Dida Camero (Rose)
Márcio Machado (Diretor Renato/Carlinhos da Costa Junior)
Natasha Corbelino (Maria Juliana)
Thiago Catarino (Antônio Pedro)

Direção de Arte: Flavio Souza
Preparação Corporal: Márcia Rubin
Direção Musical: Tato Taborda
Iluminação: Livs Ataíde
Fotos para comunicação visual: Bob Maestrelli
Mídias Sociais: Teo Pasquini
Design Gráfico: Davi Palmeira
Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues – Aquela que Divulga
Produção: Clarissa Menezes
Coordenação do Projeto e do Núcleo de Dramaturgia SESI Cultural: Diogo Liberano


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