Festival do Rio 2013 – Manual de Voo


 

Começa neste fim de semana mais uma edição do tão aguardado Festival do Rio. Já fui daquele tipo de sair a 1 hora da madrugada no deserto de uma Av Presidente Vargas depois de um debate sobre Dziga Vertov na Casa-França Brasil(não sei como não fui assaltado ou coisa pior), atravessar a passarela do Aterro à noite debaixo de tempestade para assistir “Anjos de Cara Suja” na Cinemateca do MAM e lógico, ficar  8 horas numa fila(em tempos pré-internet), faltando aula ou trabalho para garantir todos os meus ingressos para determinada edição do Festival do Rio(com o sistema caindo o tempo todo).  Costumava ver pelo menos 3 filmes por dia e num fim de semana podia ser até 5. Quando acabava o Festival eu estava podre.

Como dizia o antigo Banco Bamerindus, “O tempo passa, o tempo voa...” e hoje lembro com graça daqueles tempos, ainda mais porque estou completamente afastado do festival e não tenho nem sombra daquele gás com o crepúsculo hoje já batendo minha porta.  Atualmente tenho outras prioridades, obrigações e paixões na vida. Ainda acompanho, de certa maneira, o Festival. Mas de forma, digamos, teórica. Vendo de longe e dando dicas para as novas gerações de “festivaleiros”.

Mas mesmo naqueles tempos, muitas coisas fugiam da minha compreensão. Recordo-me de anos em que haveria sessão única de determinado filme(num ano foi Almodovar e no outro Lars Von Trier), à meia noite no Odeon. Era só aquela sessão e fim. Havia uma busca frenética para se conseguir aqueles míseros ingressos disponíveis e quem os conseguia exibia com orgulho pelos saguões dos cinemas como se fosse bilhete premiado, diante do espanto de seus interlocutores. Eu olhava aquilo como uma idiotice, pois era de conhecimento público de notório que aqueles filmes não demorariam nem 2 meses para entrar em cartaz no Brasil.

Esse é o primeiro conselho que dou aos novos “festivaleiros”. Não gastem sua energia com filmes que já tem estreia garantida no Brasil. Esqueçam “Nebraska”, esqueçam o filme do François Ozon, esqueçam o desenho animado do Campanella.  Quero também muito ver os 3, mas tudo tem sua hora. Esqueçam igualmente a Première Brasil(tá, vá lá, de repente algum documentário).Percam seu precioso tempo com filmes que há grandes chances de nunca mais você ter a oportunidade de vê-los numa tela grande.

Dando uma olhada na programação desse ano, eu daria uma chance para “Bastardos”(da Claire Denis), “Walesa“(do Andrzej Wajda), “A Garota de Lugar Nenhum”(Jean Claude Brisseau). Mesmo que esse filmes sejam ruins, ainda assim são diretores importantes que tem alguma coisa a dizer.

Daria uma passada na “Première Latina”, ali sempre garimpei coisas interessantes. Esse ano tentaria “La Paz”, do Santiago Loza e “Donos”, do Agustín Toscano. Fiquei triste porque “Wakolda”, da Lucia Puenzo não está no festival. Estou seco para vê-lo, esse me faria sair da minha inércia e voltar ao velho ambiente do Festival.

Todo Festival do Rio que se preze tem documentários interessantes, é algo a não ser desprezado. Parecem-me promissores “Gore Vidal e os Estados Unidos da Amnésia”, “Acesso à Zona de Risco” e principalmente “Os Filhos de Hitler“.

Nunca deixei de assistir a um clássico pelo menos. Aqueles filmes históricos que só tivemos a chance de ver em VHS ou DVD de repente ganha uma nova dimensão numa tela gigante. Recordo-me de uma sessão histórica de “A Batalha de Argel”, do Gillo Pontecorvo, que era eletricidade pura na sala, com o próprio personagem verídico daqueles acontecimentos retratados pela lente realista de Pontecorvo  na sala com a gente. Após a sessão foram 10 minutos de aplausos de pé e a sala debaixo de uma descarga emocional que poucas vezes presenciei. Esse ano terá vários filmes do Hitchcock e clássicos do expressionismo alemão, acho que valem a pena.

Claro que você deve deixar espaço para algo do seu gosto pessoal, eu por exemplo, como amante de automobilismo veria “Jackie Stewart – O fim de semana de um Campeão”. Mas isso é um gosto peculiar meu.

Tenham em mente uma coisa, vocês verão muitos filmes ruins no festival, faz parte. Deem chance ao erro. Arrisquem-se! Não tem nada pior que “festivaleiro” careta que só vai a filme de grife e na certeza. Não existe prazer maior para um “festivaleiro” que entrar despretensiosamente numa sessão de um obscuro filme e se deparar com uma inesperada e surpreendente obra-prima. O sujeito se sente como se fosse “o descobridor” daquele filme.

Quanto a mim? Tô fora! Para horror dos “festivaleiros” vou ver um filme bem pipoca num Kinoplex da vida,  tipo “O Tempo e o Vento“. Minha fase xiita acabou junto com minha juventude.


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