Flip 2012 – 1º Dia


 

Rápida e indolor”, foi dessa maneira, tal como havia prometido, que Luís Fernando Veríssimo abriu hoje a 10ª edição da Flip utilizando-se de 6 breves minutos. A partir daí o ensaísta Silviano Santiago tomou a palavra para discorrer sobre o homenageado do ano, Carlos Drummond de Andrade. Analisou o trabalho de Drummond a partir de suas raízes em Itabira, contextualizando através da estrutura social de sua criação.

“De um lado, estava a descrição da decadência da oligarquia mineira, em constante embate contra a urbanização e o progresso; do outro, o otimismo crítico que combatia essa oligarquia, paradoxalmente, onde se situava o clã dos Andrade.”

Seguiu remontando a fixação do poeta na então capital federal, o Rio de Janeiro, momento aonde Drummond assume um viés mais próximo da crítica política e social.

O poeta e filósofo Antônio Cícero, que o sucedeu como palestrante, tratou de enfatizar essa dificuldade já citada por Silviano, de Drummond para se adaptar de uma realidade agrária e conservadora para a realidade da metrópoles, tendo como base o poema “A Flor e a Náusea”.

Após 1 hora, estava encerrado este ciclo, sucedido pelo show de Lenine.


Apostas para os Melhores Jovens Escritores

Alcelmo Gois cravou hoje no Globo um nome da lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros, que a edição nacional da revista “Granta” divulgará na Flip: Michel Laub. Modestamente o blogueiro aqui aposta também em Tatiana Salem Levy.


Incentivo à Literatura Brasileira no Exterior

Durante a Flip, a Fundação Biblioteca Nacional anunciará uma série de editais que ampliam seu programa de incentivo para circulação, promoção e tradução de livros brasileiros no exterior. Visam a ampliação da promoção da literatura brasileira no exterior, o valor total do programa chega a R$ 76 milhões. Tal anúncio tem sua relevância, afinal como frisou a jornalista da Folha de São Paulo, Raquel Cozer:

“Se Gonçalo M. Tavares, José Luis Peixoto, José Eduardo Agualusa, Inês Pedrosa e Mia Couto se tornaram conhecidos no Brasil, a responsabilidade é do Instituto Camões. Eles são alguns dos autores de países lusófonos que, nas últimas décadas, foram publicados no Brasil graças a incentivo da instituição portuguesa, que também trouxe esses autores para divulgar seus livros”.

No Brasil a Fundação Biblioteca Nacional tem entre suas funções a realizar um trabalho equivalente ao que o Instituto Camões realiza em Portugal.

Entre os projetos está a criação de 12 bolsas no valor de R$ 6.000,00 cada com o intuito de apoiar a circulação de autores brasileiros por países lusófonos.

Tradutores estrangeiros que pretendam traduzir escritores nacionais para seus respectivos idiomas poderão ter acesso ao programa de residência, para difundir a literatura e a cultura nacional no exterior. Serão R$ 15.000,00 que poderão ser utilizados em passagem e hospedagem durante 5 semanas de imersão.

E escritores nacionais também poderão concorrer a subsídios para viajar e divulgar seu trabalho em outros países. Serão 30 bolsas no valor de R$ 3.000,00.


A Flor e a Náusea


Carlos Drummond de Andrade

Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me’?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Créditos:
foto – Flavio Moraes(G1)


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

novembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930