Flip 2012 – 3º Dia


 

Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros da Revista Granta posam com Roberto Feith da Objetiva/Alfaguara

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Tem um simpaticíssimo vendedor da livraria Argumento(até já saiu matéria sobre ele no jornal), que sempre que aparece por um cliente indeciso sobre que livro levar ele chega solicito e pergunta: “Quer um rápido briefing?” E começa a contar com riqueza de detalhes a trama do livro. Sempre fico por perto quando vejo a cena, próximo, discreto, calado e acima de tudo fico encantado com sua desenvoltura, o entusiasmo, a ênfase e a paixão com que ele narra os enredos por longuíssimos minutos diante do cliente estático, acompanhando sem piscar o desenrolar daquela trama. Tenho a sensação que ele é capaz de fazer isso com qualquer livro do estoque e mesmo daquele que eventualmente não goste particularmente. Sempre que testemunhei tal cena(e foram várias) o cliente acabou levando o livro. Costumo então pensar cá com meus botões de como tal método seria ineficaz comigo, porque a trama de um livro não é o primordial para mim, o que me interessa é como se conta a história e como ela flui no virar das páginas. Uma mesma história na mão de2 escritores diferentes pode render um excelente livro para um e péssimo livro para outro escritor.

Escrevi esse preambulo acima porque fui dormir com a mesa entre Enrique Vila-Matas e Alejandro Zambra de ontem na Flip ainda ecoando minha cabeça. Foi daqueles debates que deixam nas nuvens quem ama literatura e ao longo da noite fui absorvendo várias facetas do colóquio. Não é necessário conhecer a obra de ambos(como é o meu caso), mas o amor à literatura foi o elo que me uniu a eles. Em dado momento do debate, Zambra comentou não entender do porquê de lhe perguntarem constantemente qual a trama do seu livro, sobre o que se trata, para ele isso não faz a menos importância e se a questão é matar a curiosidade do interlocutor não se faz de rogado em contar o final: “- A protagonista morre na última página”. Então Vila-Matas contou um episódio ocorrido com o escritor português António Lobo Antunes que ao ser perguntado sobre o que tratava um novo livro seu respondeu que o livro era aquilo que estava entre a primeira e a última linha, exatamente aquilo. Não poderia resumir o que lhe custou 300 páginas para dizer, cada uma das linhas eram exatas e imprescindíveis. Vila-Matas ainda contou sobre uma resenha que escreveu sobre um livro que não havia lido, o novo livro de Pierre Bayard, “Como Falar de Livros que não Lemos”.

Se o dia ontem foi excelente, parecia impossível termos um dia tão bom. Mas isso ocorreu. Foi um dia de mesas interessantíssimas. O dia começou com os poetas e críticos Alcides Villaça e Antônio Carlos Secchin analisando a poesia modernista de Carlos Drummond de Andrade. Foi até o momento a melhor mesa sobre Drummond da Flip. A análise partiu de 2 poemas: “Áporo” e “O Elefante”. Ambos discorreram e analisaram os traços modernistas de Drummond no início de sua carreira, mas como bem ressaltou Villaça:

“É um equívoco supor que o poeta é modernista a vida toda, porque ser modernista 30 anos depois do modernismo é ser anacrônico”.

Infelizmente perdi a mesa entre James Shapiro e Stephen Greenblatt sobre os mitos por trás da real autoria das peças de Shakespeare. Quem lá esteve garante que foi magistral. Fazer o que? Ainda não consegui ser onipresente.

Mas a mesa com o americano, criado no Nigéria e atual morador de Nova York, Teju Cole e a brasileira? Argentina? Sim, sim, a brasileira Paloma Vidal foi bastante enriquecedora. O tema era bastante promissor: “exílio e flânerie”. Embora a expressão “flânerie” seja bastante associada a Baudelaire, inclusive citado na discussão, para mim sua presença mais forte está na obra de Guy de Maupassant. É isso um pouco que trata os livros de ambos, enquanto o narrador-protagonista de “Cidade Aberta” de Cole é um psiquiatra que vaga a pé pelas ruas de Nova York, em “Algum Lugar”, de Paloma, seu personagem “flana” por Los Angeles(como se isso fosse possível). Me identifico com Paloma através de suas lembranças de infância, exatamente as minhas: a Praça do Lido, o Peg Pag(da N.S de Copacabana). Será que ela lembra do grande incêndio no Peg Pag? Eu lembro, eu vi. E do gerente desesperado chorando com o supermercado ao fundo em chamas? Será que nos cruzamos nos balanços da Praça do Lido? Mas Paloma tem um grande diferencial, uma legítima crise de identidade, criada no Brasil(na MINHA Copacabana!), filha de pais argentinos exilados políticos no Brasil. De onde sou? O que sou? São temas constantes de suas reflexões pessoais. No seu último livro, terminado há 15 dias, “Mar Azul”, ela narra a história de uma filha que encontra cadernos de anotações do pai morto e a partir daí começa a reconstituir a história dos dois, argentinos que emigraram ao Brasil em diferentes períodos. Já sobre a força opressora de uma cidade como Nova York, Cole refletiu:

“É uma cidade que de destrói e te esquece”.

Para mais tarde concluir:

“Desde que escrevi o livro, sinto-me duas vezes mais nova-iorquino do que antes. Agora, acho que é uma carta de amor à Nova York. Na verdade, tudo que é necessário numa carta de amor é descrever alguma coisa intimamente e precisamente”.

“A literatura é uma espécie de consolo para a condição de estar longe de casa. Assim como carne de carneiro combina com geleia de menta, estar longe de casa combina com escrever porque é ali que você se encontra em condição de descrever”

Disse Cole.

O que falar sobre a mesa entre Adonis e Amin Maalouf? Creio que tal como o debate de Vila-Matas e Zambra, vou precisar de uma noite para digerir e absorver as palavras ali ditas. Na mesa “Literatura e Liberdade”, o poeta sírio Adonis(considerado por muitos como o mais importante poeta contemporâneo da língua árabe e candidato forte a um Nobel nos próximos anos) conversou numa extraordinária mesa com o jornalista libanês Amin Maaoluf sobre temas que foram da cultura árabe, passando pela literatura, islamismo e a “Primavera Árabe”. Adonis tem se mostrado nessa Flip bastante crítico em relação a “Primavera Árabe”, que apesar de seu entusiasmo inicial, acredita que o que está ocorrendo é apenas uma troca de ditadores.

“A mudança apenas de regime não vai significar absolutamente nada, pelo menos pra mim. É como alguém que tenta substituir um ditador fascista por um religioso”.

Falou de sua contrariedade com a presença da religião na política, sendo plenamente favorável ao estado laico:

“Em primeiro lugar, temos que separar a religião do Estado. Temos que ter uma separação radical e formar uma sociedade laica. Em segundo lugar, temos que liberar a mulher. O homem não pode ser livre se a mulher não for. O que ocorre hoje está muito longe dessas preocupações. Se centraliza na mudança do regime e não da sociedade. Precisamos primeiro mudar a sociedade.”

Em relação ao conflito com o ocidente Adonis falou da esperança, não concretizada, que teve com mudanças através da eleição de Barak Obama:

“Obama é só uma máscara negra sobre um rosto branco”

Enquanto Maalouf demonstrou uma visão menos amarga, apesar de igualmente frustrado com os avanços dos anos Obama:

“Fui exageradamente entusiasta com Obama. Meu sentimento é que é alguém que representa um avanço em relação à politica americana de 20 anos antes”.

 

Notas da Flip:

 

• “O Mais difícil foi não contar para minha mãe”, declarou o escritor Vinícius Jatobá, um dos 20 integrantes da revista Granta que elegeu os Melhores Jovens Escritores Brasileiros. Calado teve que permanecer desde maio com medo de ser desclassificado(quem rompesse o termo de confidencialidade seria sumariamente extirpado da lista).

• Nota publicada no Globo: “Um visitante da Flip passou na Livraria da Vila atrás do livro ‘No Leer’, de Alejandro Zambra, e não o achou. Frustrado, comentou a história com um desconhecido, que perguntou “hablas español?” Era o próprio autor, que pediu o endereço do moço para mandar um livro autografado para casa no Rio”.


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