Gérard Depardieu, um Ator, um Bufão


 

.

Durante mais de 2 décadas Gérard Depardieu foi o grande ícone do cinema europeu. Nenhum ator era mais respeitado, bastava citar seu nome para qualquer fã de cinema, mesmo que não cinéfilo, começar a tecer loas sobre seus dotes e atributos artísticos. Depardieu viveu nas telas alguns dos mais importantes e desejados personagens da literatura e da história. Foi Cyrano de Bergerac, Auguste Rodin, Cristóvão Colombo, Danton e até Obelix. Trabalhou com os maiores, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Bernardo Bertolucci, Andrzej Wajda, Bertrand Blier, Ridley Scott e uma lista interminável de grandes mestres. Participou de adaptações de algumas das obras mais importantes da história da literatura, como “Germinal”, “Jean de Florette”, “Os Miseráveis”, “Coronel Chabert”. Um currículo gigantesco com mais de 100 filmes, prêmios em Cannes, vencedor do César, indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar. Depardieu parecia caminhar a passos largos para a imortalidade.

O cinema e o teatro salvaram Depardieu de se tornar um delinquente. Após vários pequenos delitos, foi encaminhado por uma assistente social a trabalhar em teatro. Ali, em companhia de nomes como Miou-Miou e Patrick Dewaere(um ícone que se foi precocemente) Depardieu se encontrou, se libertou e se tornou um patrimônio francês. Graças ao cinema enriqueceu, ganhou o respeito de uma sociedade. Ficou difícil desasociar Depardieu do cinema francês.

De uns 10 anos para cá comecei a achá-lo muito burocrático, parecia entediado, trabalhando no piloto automático, confiante que seu gigantesco talento seria suficiente para levá-lo as ovações. Essa opinião se reforçou quando vi uma entrevista na televisão, diretamente do Castelo de Caras(sim, Depardieu pagou esse mico por míseros dólares de cachê. Precisava?) Ali ele demonstrava meio já estar de saco cheio do cinema, do seu perfeccionismo, das enormes esperas num set de filmagem enquanto acertavam a luz desejada pelo diretor. Falou que preferia fazer televisão, aonde tudo era mais rápido e dinâmico.

Mas o que realmente parecia lhe dar prazer era apenas sua vinícula, porque na vida pessoal teve inúmeras dores de cabeça ocasionadas por Guillaume, seu filho.  Sempre metido em confusões, inclusive condenaçoes penais, perdeu a perna num acidente de moto e acabou por morrer precocemente, vítima de si mesmo. Enquanto viveu Guillaume parece nunca ter encontrado paz.

Mas há uns 3 ou 4 anos Depardieu parece ter pirado. As últimas notícias vinculadas ao seu nome estiveram sempre ligadas à bizzarrices, declarações estapafúrdias e atos mesquinhos.

Em agosto de 2010, de maneira gratuita declarou que achava Juliette Binoche superestimada, “ – Por favor, podem me explicar qual é o mistério de Juliette Binoche? Ficaria feliz de saber por que ela tem sido apreciada durante tantos anos. Ela não tem nada, absolutamente nada”.

Juliette, de maneira elegante respondeu:

“- Entendo que você não pode gostar de todo mundo e que não goste do trabalho de outras pessoas, mas não entendo esta violência”.

Tempos depois encontraram-se por acaso num vôo, aonde Juliette o interpelou(o popular “chamou na chincha”). Depardieu escapuliu pela tangente e afirmando que ela não ligasse para o monte de atos bizarros que ele andava cometendo nos últimos tempos.

Em agosto de 2011, durante um voo para Dublin urinou no corredor do avião após ser impedido de ir ao banheiro enquanto o avião decolava.

Agora Depardieu vê seu nome envolvido em nova polêmica. Colocou à venda seu lindo imóvel, localizado em Saint Germain, para se mudar para uma pequena cidade na Bélgica, perto da fronteira com a França. Procurando ares mais puros? Nada! Apenas fugindo dos impostos. Entre as medidas adotadas pelo novo governo do presidente François Hollande para tirar a França da grave crise econômica pelo qual o país passa, foi aprovada a criação de um novo imposto taxando as grandes fortunas do país. Justamente para fugir do arrocho tributário, Depardieu colocou à venda sua residência. A polêmica chegou ao topo do governo, com o Primeiro-Ministro Jean-Marc Ayrault classificando o gesto do ator como “patético” e “antipatriótico”. Depardieu publicou nesse fim de semana no “Journal de Dimanche” carta ao primeiro-ministro. Afirmou, reproduzindo a fala do personagem de Louis Jouvet no filme “Drôle”, de Marcel Carné: “Pátético, você disse patético? Quem é você para me julgar desta maneira ?”

Além de responder às críticas, afirmou que entregará seu passaporte, abrindo mão de sua nacionalidade.

A carta na íntegra:

“Patético, o senhor disse patético? Que patético que é!

Nasci em 1948, comecei a trabalhar com 14 anos, numa gráfica, depois trabalhei num armazém e por fim como artista. Paguei sempre os meus impostos, independentemente da taxa devida em cada um dos governos que se sucederam.

Nunca falhei nos meus deveres. Os filmes históricos que fiz são prova do amor que tenho por França e pela sua História.
Figuras mais ilustres do que eu foram expatriadas ou deixaram o nosso país.

Infelizmente, nada mais tenho que fazer aqui, mas continuarei a amar os franceses e este público com quem partilhei tantas emoções!

Parto porque considera que o sucesso, a criatividade, o talento, ou mesmo as diferenças devem ser castigados.

Não peço que concordem comigo. Apenas que me respeitem!

Ninguém que tenha deixado França foi tão atacado como eu.

Não tenho de justificar as razões da minha escolha, que são numerosas e pessoais.

Parto, depois de ter pago, em 2012, impostos de 85% sobre os meus rendimentos. Mas mantenho o espírito desta França que era linda e que espero que assim se mantenha.

Devolvo-lhe o meu passaporte e o meu cartão da Segurança Social – que nunca usei. Já não temos a mesma terra-Natal, sou um verdadeiro europeu, um cidadão do mundo, como o meu pai sempre me ensinou.

Considero patética a dureza com que a justiça atacou o meu (falecido) filho Guillaume, julgado por juízes que o condenaram, a um menino, a três anos de castigo por ter sido encontrado com 2 gramas de heroína, enquanto tantos outros conseguiram escapar à prisão apesar de terem cometido crimes muito mais graves.

Em resposta a carta acima, a Ministra da Cultura Aurélie Filippetti declarou, “quando alguém abandona o barco em plena guerra econômica, não pode dar lição de moral em ninguém. Pena que Dépardieu não volte para o cinema mudo“, afirmou em entrevista à rádio France Info. Já o secretário nacional do Partido Socialista, Harlem Désir comentou “a gente não escolhe nossa nacionalidade em função do imposto de renda.”

Enfim, Depardieu deixou de ser um grande ator para virar um grande bufão.


Palpites para este texto:

  1. Parabéns a Gerard Depardieu pela decisão tomada. Não há de fato por que ser sangrado em 85% dos frutos de seu suor e talento para alimentar o leviatã socialista, perdulário e irresponsável do ponto de vista fiscal do Sr. Hollande. Oxalá nós brasileiros nos espelhássemos na chutada de balde do ator francês e também nos revoltássemos contra a carga fiscal cruel e injusta deste país, que mina nosso poder aquisitivo, inibe investimentos e contratações, e só serve para estofar os bolsos de nossos “queridos” governantes. Como o Atlas de Ayn Rand, basta de jogar carne da boca do monstro estatal.

  2. Bem vindo Felipe. Obrigado por comentar e dar seu ponto-de-vista sobre todo esse imbróglio. Abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

agosto 2017
D S T Q Q S S
« jul    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031