Crítica: Getúlio 1882 – 1930, dos anos de formação à conquista do poder


 

Ao entrarmos hoje nas principais livrarias do Rio, como a Argumento ou a Travessa, logo nas estantes localizadas nas suas entradas, aonde as livrarias costumam colocar os livros com maior potencial de chamar a atenção dos clientes, é possível encontrar uma série deles tendo Getúlio Vargas como protagonista. De cara encontramos títulos como “Getúlio Vargas, A Esfinge dos Pampas”, “Os Tempos de Getúlio Vargas”, “Getúlio Vargas, o Poder e o Sorriso”, “1943 – Roosevelt e Vargas em Natal”. Se o leitor procurar nas estantes mais ao fundo então a lista aumenta consideravelmente e para todos os gostos, até ficções como “O Homem que Matou Getúlio Vargas”. Mas o livro que mais tem despertado a atenção da mídia e dos leitores é sem dúvida o último lançamento do jornalista cearense Lira Neto: “Getúlio 1882 – 1930, dos anos de formação à conquista do poder ”. Sim, Getúlio está na moda!

Se depender de Lira Neto, tal moda ainda vai demorar um longo tempo para se esvair, pois seu livro é apenas o primeiro de três volumes previstos sobre seu biografado, lançado pela Companhia das Letras. O primeiro volume se encerra no momento da tomada do poder central pela revolução de 30 e a consequente defenestração do poder de Washington Luís. O 2º volume, programado para sair somente em 2013, abordará o período que vai de 1930 até o momento em que o defenestrado era o próprio Getúlio em 1945, trará ainda uma ênfase maior na sua vida privada, incluindo seus casos extraconjugais, sua simpatia pelo nazi-fascismo e o controle exercido sobre as massas. Fechando a série, o 3º volume, previsto para 2014 abordará seu “exílio” em São Borja e o retorno ao poder “nos braços do povo” até o momento da grande tragédia nacional, seu suicídio em 1954.

Tempo tão longo entre os lançamentos dos 3 volumes acabam sendo uma tortura para quem acabou de ler o primeiro, aonde acompanhamos sua formação,  a criação da Aliança Liberal e a conspiração que viria a desaguar na revolução de 30. Nesse aspecto, Elio Gaspari não abusou de nossa ansiedade quando lançou sua série as “Ilusões Armadas”(série que já falei AQUI), em que as distâncias entre os 4 volumes eram de alguns meses(tempo suficiente para lermos as 500 páginas de cada volume enquanto o seguinte já chegava às livrarias).

Mas é natural que Lira Neto necessite desse tempo devido à vasta complexidade de seu biografado, a pesquisa parece ser inesgotável e ainda terá que dividir seu tempo com a demanda que a mídia está lhe cobrando, dada a importância que está sendo dada ao trabalho. Conheci o trabalho de Lira Neto no seu livro anterior, o interessante “Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão”, sobre a vida do polêmico e devotado Padre Cícero. Mas “Getúlio” é um degrau que faz Lira Neto ascender a um outro patamar, passando a fazer parte  integrante daquele seleto grupo de jornalistas/escritores em que será obrigatório ficarmos atentos sobre que tema está debruçado naquele momento, como um Fernando Morais, um Ruy Castro. Embora nos próximos anos  apenas um nome tomará conta integral de seu tempo, Getúlio Vargas.

A tarefa de se propor a realizar uma biografia de Getúlio Vargas é algo temerário, um touro que o autor resolveu agarrar à unha. Obviamente não é a primeira biografia sobre Getúlio, que sempre suscitou inúmeros estudos e teses.  Lira Neto tem o tempo a seu favor, o tempo ajuda aos biógrafos modernos a retratar o biografado sem paixão e ódio, dois sentimentos intimamente remetidos a Getúlio, que sempre os despertou de maneira plena.  O fato de Getúlio nunca ter tido uma biografia de perfil mais jornalístico, sem paixões e priorizando as fontes primárias sempre inquietou o autor. Os títulos citados no primeiro paragrafo podem fazer parecer à existência de várias biografias sobre Vargas, algo que não é condizente com a verdade. Neles há estudos sobre uma época, sobre um aspecto específico de sua trajetória, ou meros perfis biográficos. Faltando uma biografia isenta, completa, atualizada e moderna. Algo estranho em se falando do presidente mais importante, controverso e longevo da conturbada história da república brasileira. Se bem que se olharmos além, só recentemente Portugal, por exemplo lançou uma biografia dessa dimensão sobre Salazar.

Esse seu trabalho inesgotável nas fontes primárias fizeram com que ele tivesse acesso a 2 fatos considerados por muitos como os mais obscuros e nebulosos da vida de Vargas, relacionados ainda ao período de sua juventude, 2 assassinatos(situações que anos mais tarde foram desencavadas e exploradas por seus adversários e inimigos políticos). Conseguiu ter acesso aos autos do processo relativo ao assassinato do acadêmico paulista Carlos de Almeida Prado, ocorrido em Ouro Preto e sobre a morte do índio Tibúrcio, ocorrido em Inhacorá. Quem é íntimo de arquivos forenses pode imaginar o tamanho do desafio travado e vencido por Lira Neto para conseguir vistas de tais processos e dessa maneira elucidar dúvidas e reticências que perduravam até recentemente a cerca do envolvimento da Getúlio nesses episódios.

Mas como era de esse esperar, o próprio autor tinha a consciência que não estaria livre de polêmicas, estas já começam a pipocar e uma delas especificamente sobre esses 2 casos. O jornalista Juremir Machado da Silva do jornal gaúcho Correio do Povo escreveu um texto em tom indignado sobre o alegado ineditismo levantado por Lira. Entre outras coisas, afirmou de maneira categórica:

Lira Neto poderia ter dito que abordou melhor tema, que explorou melhor a documentação, que interpretou melhor, mas não poderia ter dito que descobriu o discurso de formatura de Getúlio Vargas (abordado e citado antes por Fernando Jorge), que foi o primeiro a manusear o processo de um crime cometido pelos irmãos Vargas em Ouro Preto (amplamente citado por Augusto de Lima Júnior) e que inocentou Getúlio de um crime cometido por um homônimo contra um índio (esclarecimento que se encontra no livro de Lutero Vargas, citado, entre outros, por mim). Essa tentativa de legitimação é um embuste, uma trapaça, um lance desonesto, uma atitude entre infantil e arrogante de alguém que parece apostar na impunidade e na certeza de que ganhará a disputa por ter a força midiática do seu lado, zombando dos pudores dos pesquisadores acadêmicos.”

O jornalista gaúcho ainda afirma que:

“A voz de Boris Fausto dizendo que a biografia de Lira Neto “não traz nenhuma grande novidade” já foi abafada pela potência da revista Veja assegurando que a esfinge foi, enfim, decifrada”.

Independente do que tenha declarado ou não Boris Fausto, esse aparentemente aprovou o trabalho de Lira Neto, tanto que assina o texto da quarta-capa do livro, aonde diz que:

…Seu livro contribui significativamente para a compreensão do personagem, para o bem ou para o mal…

Polêmicas à parte, este primeiro volume é um livro que tem um ritmo fluente e uma reconstituição de época muito bem realizada, fornecendo ao leitor detalhes dos locais, épocas e os bastidores dos acontecimentos historicos. Como já disse anteriormente, causa a frustração no leitor em saber que terá que esperar para continuar a esmiuçar a vida de tão controverso vulto histórico.

Vale a pena citar e recomendar um outro livro para quem tiver interesse pela Revolução de 30, é “1930, Os Órfãos da Revolução”, de Domingos Meirelles, um livro que muitos historiadores torcem o nariz(já tratei AQUI sobre a entrada polêmica de jornalistas na seara dos historiadores). Enquanto “Getúlio” é uma biografia, portanto foca na vida e nos atos de Vargas e do que estava diretamente a sua volta, o livro de Meirelles propõe uma visão um pouco mais ampla e específica sobre o movimento.


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