Heleno


 

Cotação: Muito Bom

Heleno de Freitas saiu do seu longo ostracismo em 2006 quando foi lançada sua biografia, escrita por Marcos Eduardo, “Nunca Houve um Homem como Heleno”. O título da biografia é uma alusão ao filme “Gilda”, apelido que Heleno recebeu da torcida adversária e pelo Clube dos Cafajestes, do qual era membro.

Sua vida bem merecia um filme, projetos não faltaram. Anos atrás Paulo César Saraceni tentou levar um projeto adiante em que pretendia contar com nada mais, nada menos que Edmundo no papel do primeiro craque rebelde do nosso futebol. Pelas mãos de José Henrique Fonseca um projeto finalmente seguiu adiante.

De origem abastada, formado em Direito, o mineiro Heleno de Freitas viveu seu apogeu na década de 40, num Rio de Janeiro glamoroso, se dividindo entre o futebol, as mulheres e os vícios. Vivia no Copacabana Palace, numa boêmia sem fim, mergulhado no champanhe e no éter. No campo de futebol, foi um dos maiores de todos os tempos, porém pelo seu gênio irascível, briguento e intempestivo, colecionou desafetos na mesma proporção que era amado pela torcida do Botafogo. Talvez não tenha sido eternizado pelo fato de ter jogado numa década sem Copa do Mundo. Muitos ainda hoje, como recentemente ressaltou Luís Fernando Veríssimo, consideram que formou o melhor ataque de uma seleção brasileira(no tempo que os ataques eram de cinco) com Tesourinha, Zizinho, Heleno, Jair e Ademir. Passou ainda pelo Boca Juniors(especula-se que teve um caso com Eva Péron nesse período, fato nunca comprovado), Vasco da Gama e ainda jogou na liga pirata colombiana, pelo Atlético Junior De Barranquilla, na porta do estádio em Barranquilla, por sinal, existe uma estátua sua, intitulada “El Jogador”. Encerrou melancolicamente sua carreira no América.

“Heleno” não é um filme sobre futebol, mas sobre o homem que terminou seus dias esquecido num sanatório em Barbacena, aonde morreu antes dos 40 anos pela sífilis, que corroeu aos poucos seu sistema nervoso. É nesse cenário que se dá o ponto de partida desse belo filme de José Henrique Fonseca, dirigido com sensibilidade e delicadeza, depois de ter dirigido “O Homem do Ano”, aonde ali abusou do cinismo. Além de sua direção, o filme tem como pontos altos a bela atuação de Rodrigo Santoro e principalmente a brilhante fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Vale ressaltar também a direção de arte.

Filmes relacionados, direta ou indiretamente, com o futebol sempre foram suscetíveis ao fracasso, Fonseca consegue fugir desse dilema ao deixar o futebol em segundo plano. Os exemplos são incontáveis, o mais notório foi a adaptação cinematográfica da biografia de “Garrincha”, filme que me fascina e sempre que passa no Canal Brasil não consigo tirar o olho, pois poucas vezes na vida vi algo tão ruim e tosco, mas tão ruim que me diverte horrores.

Lógico que esse não é o caso de “Heleno”, verdadeiramente um ótimo filme.


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