Crítica: Infância Clandestina


 

 

No palco do Centro Cultural San Martín em meio às lágrimas que escorriam por seu rosto, Benjamín Ávila, dedicava seu filme “Infância Clandestina” à sua mãe, desaparecida durante a ditadura militar argentina no ano de 1979 e igualmente a outras mães, filhos e avós desaparecidos políticos. Naquela noite de 5 de dezembro de 2012, “Infância Clandestina” saia consagrada das entrega dos Prêmios Sur, promovido pela Academia Argentina de Cinema, numa noite em que levou 10 de um total de 20 prêmios, deixando que outro ótimo filme argentino da recente safra, “Elefante Branco”(do qual já falei AQUI), saísse da noite com as mãos abanando.

Ser eleito o melhor filme argentino do ano não é pouca coisa, como qualquer espectador mais atento sabe, já que a cinematografia argentina é uma das mais vigorosas do mundo. Assim como não será injusto se acabar como um dos 5 filmes indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro(é o candidato oficial argentino), embora pessoalmente ache difícil sua indicação, mas por outros motivos que não as suas qualidades e virtudes.

Benjamín Ávila fez de “Infância Clandestina” quase que uma sessão de análise para exorcizar os próprios demônios que existem dentro de si, mais do que ninguém ele sabia muito bem a dimensão do drama contido na história que resolveu levar adiante. Seu pai foi um líder Montonero morto e sua mãe se encontra até os dias atuais na lista de desaparecidos durante a Ditadura, viveu uma infância escondida, com nome falso e sob ameaça constante das forças repressivas.

Argentina, ano de 1979. No auge do terror institucional de uma violentíssima ditadura militar, o pequeno Juan(Teo Gutiérrez Romero), 12 anos, regressa clandestino à Argentina junto com seu pai(César Troncoso) e sua mãe(Natalia Oreiro), militantes políticos do grupo Montoneros que após anos de exílio em Cuba se instalam numa casa, aonde também vive seu adorado tio Beto(Ernesto Alterio).  Obrigado pelas forças das circunstâncias a viver uma vida falsa, aonde sua identidade, seu nome, seu sotaque e até mesmo seu aniversário são fictícios. Aparentando maturidade para sua idade, o menino leva à sério toda a rede de proteção criada para si e sua família. Permanentemente sobressaltado pela angústia e pelo medo, tal contexto acaba lhe causando algumas surpresas e seus conflitos internos vão ganhar maior dramaticidade quando se apaixona por uma menina na escola, María. Ao perceber que sua vida falsa é incompatível com a realização plena de seu amor, Juan se revolta contra as rígidas regras que seu mundo lhe impõe, pois a quebra de tais regras pode significar colocar em risco sua vida e de sua família.

Benjamín Ávila estava bem cercado para fazer seu primeiro longa, a começar pela produção feita por Luiz Puenzo, outro que conhece bem a temática, já que foi o diretor do excepcional “A História Oficial”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O roteiro escrito por Ávila em parceria com o brasileiro Marcelo Müller desenvolve de maneira sensível e com bastante eficiência toda a gama de sentimentos que Juan interioriza dentro de si. Ávila contou à Revista Veja que não queria fazer um filme essencialmente sobre seu drama pessoal: “ – queria fazer um filme que contasse aquela história que, por acaso, eu vivi. Daí, surgiu a ideia de ter alguém com um olhar estrangeiro para escrevê-la. Marcelo, como não é argentino, teve uma visão mais livre. Ele conseguiu contextualizar melhor a história para quem não a conhece, e suavizar o tema”. Coube a Ávila, agora como diretor, o mérito de fazer o espectador sutilmente absorver todos esses sentimentos interiorizados. A escolha de Teo Gutiérrez Romero para viver Juan foi um achado, quem já trabalhou com crianças em cinema sabe bem o quanto isso é difícil, algo que o cinema brasileiro jamais conseguiu(nem em “Central do Brasil”). A atuaçãos de César Troncoso(de “O Banheiro do Papa”) é perfeita, vivendo um dos principais líderes Montoneros, firme em seus princípios e ideologias e fazendo da rigidez algo necessário para a sobrevivência de seus familiares e ao mesmo tempo uma barreira que o distancia de seu filho. Assim como Natália Oreiro(contínua linda a ex-paquita argentina) é extremamente convincente, dividindo-se entre a ativista política e a mãe amorosa. Mas entre os atores, depois do pequeno Teo, quem se sobressai é Ernesto Alterio, o tio Beto, compondo um personagem ao mesmo tempo convicto de seus princípios, mas mesclando na dose certa doçura, melancolia e graça, desenvolvendo com seu sobrinho uma linda relação de afeto e confiança.

Infância Clandestina” é uma co-produção argentina com o Brasil, algo extremamente benéfico e espero que uma maior proximidade entre as  2 cinematografias possa levar num futuro próximo uma subida da qualidade da produção brasileira, que no momento é bem inferior a dos nosso vizinhos, embora Ávila se demonstre surpreso com essa visão: “ – Fico surpreso por saber que os brasileiros consideram o cinema argentino bom. Lá, nós o vemos como um cinema difícil, com muitas falhas narrativas”, disse à Veja. Mas com certeza, se possui falhas, posso afirmar que são pouco perceptíveis aos meus olhos.


Palpites para este texto:

  1. Um dos melhores filmes do ano! Amo o cinema um argentino! Um dia o Brasil aprende a fazer cinema com eles.

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