Crítica: A Lenda do Príncipe que Tinha Rosto


 

 

 A Lenda do Príncipe que tinha rosto - por Jackeline Nigri-01

A Lenda Príncipe que Tinha Rosto” é daqueles espetáculos que representam todas as virtudes e qualidades pelas quais tenho me batido neste espaço em relação ao teatro infantil. Dirigido pela premiadíssima dupla Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves, a peça fez sua reestreia no circuito carioca no Teatro Glaucio Gill, aonde permanecerá em cartaz até o dia 20 de julho.

Depois de assistir a encenação de “A Lenda Príncipe que Tinha Rosto”, me senti revigorado e feliz por descobrir mais uma companhia teatral, a Artesanal Cia de Teatro,  que faz teatro infantil no grau máximo de excelência, sem precisar se utilizar de fórmulas e acima de tudo, com uma enorme coragem para ousar, apostando no que não é necessariamente convencional e em busca de uma linguagem e personalidade própria. Além disso tudo, ainda consegue fazer um espetáculo que encanta tanto crianças como adultos. Escrevo isso com uma ponta de alegria, um mês após ter publicado um texto(que pode ser lido AQUI) em que, num tom de desabafo e com certa amargura protestei contra um determinado espetáculo infantil que havia assistido e que se apoiava na subestimação da inteligência do público infantil, abusando de todos os golpes baixos, apostando na obviedade e no esquematismo. Algo completamente oposto do que pude presenciar com o maravilhoso espetáculo “A Lenda Príncipe que Tinha Rosto”.

A Lenda Príncipe que Tinha Rosto” é um espetáculo encenado originalmente em 2009 e que após grande êxito, viajou por várias cidades Brasil afora, sempre com bastante repercussão, sendo vencedor do Prêmio Zilka Sallaberry(o mais importante do teatro infantil) nas categorias de melhor iluminação e figurino. Vale ressaltar que Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves foram os grandes vencedores este ano do mesmo prêmio na categoria de melhor espetáculo infantil com o “O Gigante Egoísta”, o que só comprova o talento da dupla.

A peça conta a história de um de um príncipe nascido com rosto em meio a um reino em que as pessoas não possuem face. Seus pais, o rei e a rainha mantém o pequeno príncipe escondido do olhar de todo o reino, isolado na torre do castelo aonde cresce em meio a solidão e a ausência de afeto, aonde seu único contato com o mundo é através das visitas de sua ama. Até que ao conhecer a filha de sua ama, o pequeno príncipe decide mudar os rumos de sua vida.

A concepção do espetáculo criada pela dupla de encenadores não utiliza diálogos. A narrativa da história vai sendo contada através de uma voz em off e das expressões corporais do quarteto de atores. O elenco formado por Álvaro Pilares, Bruno Oliveira, Débora Salem, Márcio Nascimento, Suzana Castelo e Virgínia Martins atua com extrema competência e sem o apoio de alguns dos principais instrumentos dos atores para externar suas emoções, como a expressão facial, o olhar ou a voz. O que para um ator trata-se acima de tudo de um enorme exercício de despojamento de qualquer tipo de vaidade. Seus corpos são os instrumentos principais de comunicação. Para que tal proposta obtivesse o êxito, o trabalho de Paulo Mazzoni na direção dos movimentos e nas coreografias merece ser destacado.

Mas além da competente presença cênica dos atores, o êxito do espetáculo reside igualmente na harmonia completa dos diversos elementos que compõem a peça, apontando um olhar extremamente agudo, detalhista e competente da dupla de encenadores. Os objetos cenográficos e as máscaras são elementos fundamentais no desenvolvimento da narrativa, assim como a belíssima iluminação que juntamente com o figurino fazem um belo jogo de luz e sombra, em que a penumbra e o figurino ajudam a criar um clima propositalmente gótico para a ambientação do universo criado pela dramaturgia de Gustavo Bicalho. É preciso destacar uma das marcas do trabalho dos diretores, a manipulação de bonecos, que levam ao encantamento total do público infantil, além da pertinência e da maneira lúdica como se faz sua utilização.

Outro grande achado foi a utilização da trilha sonora que pontua o espetáculo do início ao fim, através dos temas do russo Sergei Prokofiev, um dos mais importantes músicos do século XX e responsável por inúmeros temas de ballet e pelas trilhas de clássicos de Sergei Eisenstein, como os magistrais filmes “Ivan, o Terrivel”(um dos meus filmes favoritos) e “Alexander Nevsky”.

Se me incomoda a subestimação da inteligência infantil em determinados espetáculos, “A Lenda Príncipe que Tinha Rosto” trata esse público com o máximo respeito, fazendo-o refletir e se emocionar sobre questões como a diferença, o afeto e a solidão. Prova que se pode atingir o encantamento e a fantasia infantil em um nível intelectual alto, sem que isso seja necessariamente aborrecido, pelo contrário, seja lírico e belo.

* Foto de cena: Jackeline Nigri.

Ficha Técnica:
Equipe de Criação
Direção Artística: Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves
Elenco: Álvaro Pilares, Bruno Oliveira, Débora Salem, Márcio Nascimento, Suzana Castelo e Virgínia Martins
Narração: Edeilton Medeiros
Dramaturgia e Roteiro Musical: Gustavo Bicalho
Preparação e Direção em Manipulação de Bonecos: Márcio Nascimento
Preparação e Assessoria Técnica em Uso de Máscaras: Marise Nogueira
Coreografia e Direção de Movimento: Paulo Mazzoni
Cenário, Figurinos, Máscaras, Bonecos e Adereços: Fernanda Sabino, Henrique Gonçalves e Karlla de Luca
Vídeo Grafismo: Rafael Cases
Músicas: Sergei Prokofiev
Equipe Técnica
Desenho de Luz: Jorginho de Carvalho
Assistente de Iluminação: Poliana Pinheiro
Operador de Luz: Rodrigo Belay
Operador de Som: Alexandre Guimarães
Equipe de Produção
Direção de Produção: Henrique Gonçalves
Produção: Marta Paiva
Realização: Artesanal Cia. de Teatro / 2009

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SERVIÇO
Projeto Ocupação Teatro Gláucio Gill Apresenta
Espetáculo: A lenda do príncipe que tinha rosto – baseado no conto de Stephen Michael King
Com a Artesanal Cia de Teatro – Álvaro Pilares, Bruno Oliveira, Débora Salem, Márcio Nascimento, Suzana Castelo e Virgínia Martins
Adaptação: Artesanal Cia de Teatro – Gustavo Bicalho
Gênero: Teatro infantil
Local: Teatro Gláucio Gill
Temporada: 28 de junho até 20 de julho – sábados e domingos às 17h
Direção: Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves
Classificação: LIVRE – a partir de 5 anos
Duração: 45 min.
Endereço: Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana
Tel: 2332-7970
Ingressos: R$ 30,00
Capacidade: 102 lugares
Bilheteria: diariamente a partir das 16h
Estação Metrô: Cardeal Arcoverde
Assessoria de Imprensa
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