Crítica: Bisa Bia, Bisa Bel


 

bisa bia bisa bel 1

Por Renato Mello.

Sem nenhum sentimento nacionalista de minha parte, creio ser importante que a literatura infantil brasileira tenha um papel de destaque dentro do nosso imaginário, assim como os grandes textos universais possuem. Existe sim no Brasil uma farta fonte de inspiração a ser utilizada e que são apropriadas ainda com certa timidez na produção cultural nacional, por isso causa-me alento que uma escritora da dimensão e importância de Ana Maria Machado tenha tido no curto período de um ano, dois textos seus levados aos palcos cariocas: “Um Herói Bem Fanfarrão e Sua Mãe Bem Valente”(direção de Paulo Merísio) e “Bisa Bia, Bisa Bel”(dirigido por Joana Lebreiro).

Bisa Bia, Bisa Bel” estreou em setembro de 2014 no Teatro Glaucio Gill, passando posteriormente pelo Candido Mendes. Em novembro de 2014, tentei me programar para assisti-lo, mas por uma série de contratempos sempre adiava. Até que saiu de cartaz deixando-me o sentimento de frustração e culpa porque senti que tinha o dever de levar minha filha para ver esse espetáculo. Passou-se alguns meses e com a temporada dos prêmios do teatro infantil, mais especificamente o Zilka Sallaberry e o CBTIJ esses sentimentos aumentaram proporcionalmente aos prêmios recebidos pela montagem. “Bisa Bia, Bisa Bel” ganhou 4 prêmios CBTIJ(Melhor Espetáculo, Direção, Texto Adaptado e Coletivo de Atores) e 3 prêmios Zilka Sallaberry(Melhor espetáculo, Texto e Música). Resumo da Ópera: “Bisa Bia, Bisa Bel” foi o espetáculo infantil mais premiado de 2014.

Para felicidade geral de quem ama o teatro infantil, “Bisa Bia, Bisa Bel” está de volta aos palcos cariocas, agora no mítico teatro Sesc Ginástico. Para um espetáculo que aborda temas como a história, a memória e a identidade não poderia haver lugar mais adequado, pois justamente em cima desse palco foi montada a primeira encenação de “O Casaco Encantado”, de Lucia Benedetti, que muitos consideram o espetáculo que moldou os rumos do teatro infantil brasileiro. Sempre vale a pena revisitar o passado para tentarmos compreender toda a linha evolutiva do nosso teatro infantil até o desembocar de uma peça da relevância de “Bisa Bia, Bisa Bel”, sem deixarmos de contemplar o que podemos esperar daqui para frente, afinal, como bem disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “a história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”.

 “Bisa Bia, Bisa Bel” segundo sua própria sinopse oficial “conta a história da menina Isabel, que aprende a lidar consigo mesma no convívio imaginário com sua bisavó e sua bisneta. Três tempos e três vivências se cruzam numa mistura encantadora do real com a fantasia. O espetáculo tem como ponto de partida um grupo de 5 crianças, que juntas, leem o clássico de Ana Maria Machado. A partir daí, o livro ganha vida no palco através de canções e jogos, onde os amigos brincam e interpretam os personagens”.

Não é um livro fácil de se transpor para os palcos, o que justamente contraria a lógica daqueles que pensam que teatro infantil não exige maiores complexidades. Existe nas sutilezas da construção de Ana Maria Machado um enorme caminho de possibilidades que tende a ser tentador e ao mesmo tempo uma grande armadilha que em mãos pouco habilidosas e com excesso de confiança acabe por transformar-se num desastre. Por essa questão é necessário render homenagem ao trabalho excepcional feito pela diretora Joana Lebreiro em sua adaptação. Joana soube dosar com habilidade todo o mosaico de opções oferecidas, transformando o roteiro final numa base fundamental e de uma grande solidez para a concepção final do espetáculo. A adaptação realizada por Joana é sem dúvida uma das mais consistentes nos últimos tempos no teatro infantil.

O choque de gerações de tempos tão distantes, vão refletindo ao longo de toda a encenação a construção da memória, a partir de uma menina que para se autoconhecer teve que buscar referências do passado e as possibilidades do futuro. O modo como se compõe esse cenário no palco é muito bem realizado e através dos diálogos com a Bisa Bia eu mesmo pude buscar no meu inconsciente algumas reminiscências pessoais através de afirmações como “uma mocinha que não sabe se comportar e fica com esses modos de moleque de rua”, expressão similar que me recordo de ter ouvido de minha própria avó ou “ela não gosta de ver menina usando calça comprida… Acha que isso é roupa de homem”, realmente nunca vi minha avó com algo que não fosse vestido. Justamente esse quadro evolutivo comportamental da mulher na sociedade é abordado de modo bastante eficiente, com as novas estruturas familiares e a autonomia adquirida ao longo desse enorme trajeto da minha avó até o tempo presente da bisneta que ela não conheceu, minha filha Beatriz.

Todas essas questões são colocadas em cena por Joana Lebreiro sem que ocorra atropelos, através de sequências e situações muito bem contextualizadas. O modo como explora as projeções é um grande ganho não só dramatúrgico, mas igualmente ajudam na concepção do universo elaborado, não se tornando um mero elemento de distração ou um supérfluo. A ocupação do espaço cênico realizada com bastante critério e com uma direção de atores de grande eficiência, com um elenco que realiza um excelente trabalho de criação.

O elenco é composto por Viviana Rocha, Gisela de Castro, Julia Ludolf, João Lucas Romero e Vicente Coelho, um conjunto extremamente harmonioso e cativante. Viviana Rocha é responsável pelo personagem central da peça, Isabel, que interpreta com enorme graça e carisma, fazendo um belo trabalho de composição para fazer um papel infantil sem precisar recorrer para caricaturas ou estereótipos. Uma adorável presença em cena de Viviana. Os demais atores se dividem em vários papeis, assim como Gisela de Castro, que passa boa parte da encenação como a Bisa Bia. Gisela é uma atriz de fartos recursos e assim se apresenta, com ótima desenvoltura e força. É muito bom ver uma atriz da relevância de Gisela de Castro dedicando boa parte do seu tempo para a arte do teatro infantil, lembrando que está nesse momento com nada menos que três espetáculos em cartaz simultaneamente. Julia Ludolf já tinha me chamado muita atenção na montagem que Rodrigo Rosado realizou de “Flicts” pelo seu multitalento como atriz, cantora e instrumentista. Novamente se apresentou com os mesmos atributos e com grande expressividade. Julia Ludolf é sem dúvida uma atriz que se torna necessário observar com atenção, pois acrescenta em muito a qualquer montagem. Embora o universo feminino seja muito mais destacado, João Lucas Romero e Vicente Coelho não se deixam relegar a um segundo plano meramente contemplativo e fazem criações de personagens adoravelmente desenvolvidos em meio à força do elenco feminino.

A cenografia de Carlos Alberto Nunes contribui na criação da atmosfera e de toda uma estética que casa em perfeição com o universo que mexe com a memória e com a presença numa mesma cena de tempos físicos diferentes. Cadeiras e mesas possuem diversos tipos de utilidade ao longo do espetáculo, além de uma tela de fundo para projeções que se transforma num lençol ou faz fundo nas trocas necessárias para a dinâmica do espetáculo. O uso das cores chama a atenção nos figurinos de Mauro Leite, com um bonito impacto visual e inteiramente de acordo com a proposta do universo da peça. Cenografia e figurino ganham vida com mais um eficiente trabalho de iluminação de Aurélio di Simoni.

As canções criadas por Marcelo Rezende e Joana Lebreiro são parte importante da dramaturgia, através de composições bonitas, lúdicas e muito bem executadas em cena. Os lindos arranjos elaborados por Marcelo Rezende são executados com simplicidade e beleza pelo elenco, com um destaque para Julia Ludolf e João Lucas Romero em cena.

Bisa Bia, Bisa Bel” é uma peça que demonstra o quanto uma base dramatúrgica bem feita pode fazer toda a diferença no resultado final entre uma boa peça que no final das contas nada nos acrescenta ou uma excelente peça que ficará guardada num lugar especial na nossa memória. No caso de “Bisa Bia, Bisa Bel”, pelo menos na minha memória já ocupou um lugar privilegiado.

Ficha Técnica

Texto – Ana Maria Machado
Adaptação e direção – Joana Lebreiro
Direção musical e arranjos – Marcelo Rezende
Canções originais – Joana Lebreiro e Marcelo Rezende

Elenco:
Viviana Rocha ou Patrícia Ubeda / Gisela de Castro / João Lucas Romero / Júlia Ludolf / Vicente Coelho

Cenário – Carlos Alberto Nunes
Figurino – Mauro Leite
Iluminação – Aurélio de Simoni
Direção de Movimento – Nathalia Mello
Programação Visual – Miguel Carvalho
Fotografia – Rudy Hülhold
Produção – Alexandre Mofati e Maria Alice Silvério
Assistentes de Produção – George Luís Prata e Maria Fernanda Marques
Realização – Ofício Produções

SERVIÇO
Teatro SESC Ginástico
Temporada: 20 de junho a 19 de julho
Endereço Av. Graça Aranha, 187
Tel informações: (21) 2279-4027
Dias e horários: sábados e domingos, 11h.
Duração: 60 min
Classificação: LIVRE
Gênero: Comédia/Musical Acústico


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

abril 2017
D S T Q Q S S
« mar    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30