Crítica: Branca de Neve


 

branca de neve1

Por Renato Mello.

A adaptação que Leandro Mariz e Sabrina Korgut realizaram do clássico conto “Branca de Neve” volta à cena do teatro infantil em uma nova temporada no Teatro dos 4, que permanecerá em cartaz até o dia 31 de maio.

A famosa história perpetuada pelos irmãos Grimm tem nessa montagem uma deliciosa recriação através do texto adaptado pelo próprio Leandro Mariz, resultando num espetáculo divertidíssimo e inventivo. Em “Branca de Neve” transparece a enorme inquietação de Sabrina e Leandro, que parecem se divertir em jogar com essa história, fugindo da obviedade e causando várias surpresas para o público que já tinha de antemão uma ideia pré-concebida do que iria ser o espetáculo.

Uma marca pessoal do trabalho de Mariz e Korgut é o modo como utilizam a trilha sonora. Se em “Pinóquio” Elton John deu o tom, em “Branca de Neve” são os Beatles, com músicas como “Something” ou “Michelle”, “Here Comes the Sun” se moldando às sequências desenvolvidas. A cena em que o caçador tenta cumprir a missão matar Branca de Neve ao som de “Help” é um belo achado e um exemplo da forma criativa como se brinca com esses clássicos.

O espetáculo é narrado a partir de uma simpática vovó(Myriam Pimentel), que no decorrer do espetáculo se revelará ao público. A narrativa ganha contornos próprios, mas sem descaracterizar a essência da história. Os personagens ganham novas características, como a Rainha(Juliana Prandini), conhecida pela perversidade, que se revela engraçada e atrapalhada, mas permanecendo fútil em relação com sua aparência. Assim como o próprio Príncipe Encantado(Renato Krueger)  que igualmente transparece a preocupação com a correção do seu penteado e o Espelho Mágico(Lima Filho), revelador das verdades, ganha ares hilariantes. Tudo com uma direção atenta e bem concebida da dupla Korgut e Mariz, dando ao espetáculo um belo ritmo e boa movimentação em cena.

O êxito dessas mudanças nos personagens se deve muito aos ótimos atores, que correspondem prontamente em cena às necessidades contidas na dramaturgia da peça.  O elenco é composto por Giovanna Rangel, Myriam Pimentel, Juliana Prandini, Cleber Salgado, Lima Filho, Renato Krueger e Reinaldo Patrício.

Branca d eNeve 4

Giovanna Rangel protagoniza o espetáculo interpretando o papel-título. Já conhecia o trabalho de Giovanna desde “A Pequena Sereia”, um bom musical infantil dirigido por Carla Reis e sabia de antemão que se tratava de uma boa escolha para essa peça. Giovanna em cena mantém seu carisma e desperta empatia direta com o público com seu modo cativante, realizando uma composição adequada para um papel tão conhecido e que portanto sempre gera expectativas nos menores. Expectativas essas que Giovanna alcança amplamente sobre o tablado, sempre se destacando por sua expressividade.

Cleber Salgado, ator bastante experimentado no teatro infantil, vive o caçador. Nessa adaptação o papel é bastante ampliado em relação aos textos mais difundidos e Cleber Salgado rouba a atenção. Ator de múltiplos recursos, utiliza sua vasta expressão corporal, facial e vocal e para arrancar grandes gargalhadas não só do público infantil. Belo desempenho!

Juliana Prandini é uma atriz que me impressionou principalmente por um notável crescimento desde que a vi como a doce Wendy em “Peter Pan”. Não que ela estivesse mal ali, apenas era um papel que não despertava maiores inspirações. Agora como a Rainha Madrasta pude ver uma Juliana firme, com personalidade, presença, com timing de humor excelente. Fiquei muito grato em vê-la desenvolver de modo tão competente esse papel e que nas suas mãos ganhou interessantes características, muito bem desempenhadas por Juliana Prandini e merecedora de especial atenção.

Renato Krueger, demonstra ser um ator de amplos recursos, mesmo num papel em que na maioria dos contos de fadas costumam ser os mais banais. Escrevi sobre ele num outro espetáculo que continha uma distinta carga de densidade(que obviamente não era uma peça infantil): “um ator que atinge uma visceralidade que prende a respiração do público”. Agora Renato tem que utilizar outro registro e novamente se sai bem, trabalhando novas características para seu vaidoso príncipe.

Lima Filho, também um ator que demonstra boa presença em cena, mesmo com um personagem secundário, que juntamente com Cleber Salgado e Juliana Prandini fazem parte um dos mais interessantes núcleos do espetáculo. Nessa “Branca de Neve”, os vilões são especialmente divertidos, mesmo que o Espelho Mágico de Lima Filho não seja, necessariamente, um vilão. O elenco se completa com Myriam Pimentel, que vive a vovó e a Bruxa e com Reinaldo Patrício.

Mais uma característica de Leandro Mariz e Sabrina Korgut é o modo como fazem as mudanças de cenário, utilizando-se de uma integração com o elenco para as modificações e com um cenário quase que “abraça” o elenco em cena. Essa dinâmica mais uma vez é utilizada em “Branca de Neve”, com sua concepção assinada pelo próprio Leandro Mariz. Os cenários não possuem a grandiosidade de “A Rainha da Neve”, porém são mais funcionais e suas mudanças não deixam que o ritmo do espetáculo se altere.

Reinaldo Patrício, além de estar em cena, é o responsável pela criação dos figurinos. Trabalho realizado com enorme competência e com uma preocupação constante de manter a homogeneidade com a atmosfera criada por Korgut e Mariz.

Branca de Neve 3

Por fim, peço ao leitor que atente para duas palavras utilizadas no 1º parágrafo deste texto: “recriação” e “inventivo”. Andava um pouco reticente em relação às adaptações desses famosos contos que também ganharam importantes versões da Disney. Embora já conheça o trabalho sério que Sabrina e Leandro realizam no teatro infantil, através de outros espetáculos como “Pinóquio” e “A Rainha da Neve”, reconheço suas preocupações e condutas éticas. Mas por conta de alguns oportunistas que rondam o teatro infantil eu andava um tanto desgostoso com os rumos que são utilizados no “mercado” sem a menor cerimônia, aproveitando-se do domínio público desses textos e ao invés de trabalhar em cima deles(ou recriar sobre eles), acabaram por simplesmente copiar o texto integral do desenho(palavra por palavra) e usurpar as canções, sem a menor preocupação de estarem incorrendo em crime por apropriação de Direitos Intelectuais, conforme já relatei AQUI. O que me assusta é que a cada vez se superam e ao me deparar mais recentemente com as últimas fotos de seus espetáculos, chego a ficar chocado. Não é crime querer montar textos como “Branca de Neve” ou algo do gênero. Ao contrário, é louvável que se façam eternizar através do teatro. O crime é transformar esses textos num genérico pirata da Disney.

Mas Sabrina Korgut e Leandro Mariz não tem nada com isso e esses outros manganões estão além do túnel, em teatros de outro bairro da cidade, longe do Shopping da Gávea. O que importa é que no Teatro dos 4 existem verdadeiros artistas como Leandro Mariz e Sabrina Korgut que se preocupam em contar uma linda história de modo original e com enorme graciosidade.

Serviço:
Teatro dos 4
Temporada:11 de Abril à 31 de Maio de 2015
Horários:Sábado e Domingo às 17h
Preçs: R$ 70,00 (Inteira), R$ 35,00 (Meia)

Ficha técnica:
Irmãos Grimm – História
Leandro Mariz – Texto e direção
Sabrina Korgut – Direção Geral
Leandro Mariz – Cenografia
Reinaldo Patrício – Figurinos
Leandro Mariz – Iluminação
Tiago Higa – Trilha sonora
Marilena Saito – Programação Visual e Ilustração
Thiago Wanderley – Visagismo
Glória Diniz – Captação de Apoio
Tiago Higa – Coordenação artística
Fernando Ramos e Marcia Ximenez – Direção de Produção
Goldfinch Entretenimento, Kommitment Produções – Realização

Elenco
Cleber Salgado – Caçador
Giovanna Rangel – Branca de Neve
Juliana Prandini – Rainha
Lima Filho – Espelho Mágico
Myriam Pimentel – Vovó e Bruxa
Reinaldo Patricio-Caçador(Alternante)
Renato Krueger – Príncipe


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