Crítica: Bruxas da Escócia


 
Foto: João Caldas

Foto: João Caldas.

Por Renato Mello.

Quando foram anunciados os vencedores do Prêmio São Paulo de Teatro Infantil, mesmo não acompanhando como no Rio de Janeiro o que acontece na capital paulista sobre esse universo, confesso que fiquei um pouco surpreso pelo prêmio principal não ter ido para a pequena obra-prima que é “O Gigante Egoísta”, uma bela e densa adaptação de Oscar Wilde realizada pela Artesanal Companhia de Teatro, uma grande referência em se tratando de teatro infantil, formada por artistas de quem sou devoto admirador. Quem levou o prêmio principal foi “Bruxas da Escócia”, espetáculo da Cia Vagalum Tum Tum, que ainda foi premiada como Melhor Direção(Angelo Brandini) e Atriz Coadjuvante(Christiane Galvan).

Na minha última passagem por São Paulo finalmente tive a oportunidade de assistir ao espetáculo da Cia Vagalum Tum Tum  no simpático e aconchegante teatro Viradata, no bairro de Perdizes, em que pude constatar que mais além de “Bruxas da Escócia” existe um excepcional trabalho digno de todos os reconhecimentos, prêmios e que passou para mim a ser igualmente uma importante referência em se tratando de teatro infantil. A Cia Vagalum Tum Tum está apresentando até 26 de julho seu repertório fascinante de adaptação para o público infantil de peças de Shakespeare através dos espetáculos “Bruxas da Escócia”(adaptação de “Macbeth”), “O Bobo do Rei”(versão de “Rei Lear”), “O Príncipe da Dinamarca”(“Hamlet”) e “Othelito”(Othelo”).

Vamos nos ater ao espetáculo assistido, justamente “Bruxas da Escócia”.

Como mencionado acima, trata-se de uma adaptação do clássico “Macbeth”. O grande trunfo do trabalho elaborado por Angelo Brandini não se restringe a simplesmente se aproveitar de toda a riqueza que uma obra desse porte pode proporcionar para uma transposição ao universo infantil, mas do modo como é feito, do incrível trabalho de desenvolvimento de uma linguagem particular, fazendo de “Bruxas da Escócia” um espetáculo de grande encantamento, divertido, criativo e de excelente nível técnico.

A princípio podemos nos indagar como deixar palatável uma obra tão densa e trágica como “Macbeth” e transforma-la para o pequeno público numa espécie de porta de entrada para o universo do maior dramaturgo da história, em que podemos encontrar toda a complexidade da alma humana. A resposta já é dada nas primeiras sequências: uma batalha coreografada utilizando-se de técnicas de palhaçaria com direito a todas as pantomimas, bofetadas e trombadas, vencida pelo general Macbeth, que como prêmio recebe a honraria de ser promovido ao posto de “melhor amigo do Rei”, além de seu sucessor. A partir de então, a essência de “Macbeth” se apresenta a partir da narração de 3 engraçadas bruxas, de modo lúdico, divertido e competente, em que Angelo Brandini encontra interessantes soluções para levar sua narrativa adiante, como a engenhosa catapulta para tirar os inimigos do caminho do “melhor amigo do rei”, ou a graxa substituindo o sangue.

A estrutura narrativa e a encenação de Angelo Brandini possuem um ritmo ágil, com uma constante e dinâmica ocupação dos espaços cênicos e com um belo desenvolvimento da direção de atores, que inclusive são responsáveis por toda a vasta execução musical(compostas por Fernando Escrish), assim como pelo importantíssimo trabalho de sonoplastia, um elemento primordial dentro da concepção de Angelo. Propositalmente podemos acompanhar lateralmente os atores realizando as trocas de figurinos e personagens, deixando o público testemunhar a transformação do teatro diante dos seus olhos. Mais que tudo, existe em cena uma pesquisa e execução de uma linguagem particular, com narrativa original, resultando uma assinatura pessoal da Cia Vagalum Tum Tum. 

O elenco é formado por Tereza Gontijo(Macbeth), Christiane Galvan(Lady Macbeth), Anderson Spada(bruxa, mensageiro e rebelde), Erickson Almeida(músico, filho 2 e rebelde), Suzana Aragão(bruxa, filho 1 e rebelde) e Val Pires(bruxa, rei, soldado), que em cena formam um conjunto eclético, versátil e com uma constante troca em cena. Importantíssimo ressaltar a preparação corporal do elenco desenvolvido por Vivien Buckup. Tereza Gontijo vive Macbeth, que mesmo num personagem masculino produz um enorme carisma,  fundamental para dar o tom correto ao espetáculo que entra adoravelmente pelo burlesco de modo absolutamente encantador, num trabalho corporal muito bem realizado, mas principalmente com um trabalho vocal que é um grande acerto para a essência do personagem central.  Christiane Galvan representa um dos personagens mais ambicionados por todas as atrizes. Mesmo se sua Lady Macbeth não tenha a densidade da original(e nem seria o caso), sua presença em cena é marcante, demonstrando uma enorme força no olhar, que faz-nos compreender o sentimento e ambição desmedida com que empurra 0 marido para a execução do seu plano. Que grande atriz Christiane Galvan!

Foto: João Caldas - Lady Macbeth(Christiane Galvan e Macbeth(Tereza Gontijo)

Foto: João Caldas – Lady Macbeth(Christiane Galvan) e Macbeth(Tereza Gontijo)

Destaque também para os figurinos, assinados pela própria Christiane Galvan. Além de notória qualidade e bom gosto, inteiramente dentro da proposta do espetáculo e remetendo diretamente ao costume escocês. Os cenários de Bira Nogueira também apresentam grande correção, ganhando importante destaque através da boa luz desenvolvida por Wagner Freire.

Bruxas da Escócia” foi aquele tipo de espetáculo em que após sua encenação despertou enorme sentimento de felicidade não somente em minha filha, que me acompanhava, mas igualmente em mim. Juntos, atravessamos São Paulo num taxi de volta ao hotel conversando initerruptamente sobre uma peça infantil que tanto nos encantou. Espero voltar em breve a São Paulo para poder assistir os outros espetáculos do repertório dessa Cia da qual me tornei a partir de agora um grande admirador.

Teatro Viradalata – Rua Apinajés, 1387 – Perdizes
Todos os finais de semana (Sábados e Domingos), dos meses de Maio, Junho e Julho
Horário:16:00
Preço: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)

Programação:
Maio – “Bruxas da Escócia”
Junho – “O Príncipe da Dinamarca”
Julho – 4, 5, 11 e 12/07 “O Bobo do Rei”
Julho – 18, 19, 25 e 26/07  – “Othelito”


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