Crítica: Chapeuzinho Vermelho, Como Você Nunca Viu – O Musical


 

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Por Renato Mello.

O palco do Theatro Net Rio apresenta neste momento uma nova versão de um dos mais famosos contos infantis, o espetáculo musical “Chapeuzinho Vermelho, Como Você Nunca Viu – O Musical”, com direção de Cleiton Morais e Vinicius Olivo.

A difusão da história de Chapeuzinho Vermelho foi feita através de um longo processo de tradição oral em países como França Itália e Alemanha a partir do século XVII. Alguns importantes escritores especializados em contos infantis se debruçaram sobre essa história dando-lhes contornos mais definitivos do que conhecemos nos dias atuais, como Charles Perrault e os Irmãos Grimm. Trata-se de uma fábula de extrema riqueza, que dá margem para uma série de interpretações, inclusive de cunho mais erotizado, como ocorreu com o próprio Charles Perrault, chamando atenção para os gentis lobos da corte de Luís XIV que de maneira dócil seguiam as jovens de origem mais modestas pelas ruas. Escreveu certa vez Perrault: “ai de quem não sabe que esses lobos gentis são de todas as criaturas, as mais perigosas!”. No Brasil, a personagem tem seu nome equivocadamente traduzido para “Chapeuzinho Vermelho”, quando a maneira mais correta seria “Capuchinho Vermelho”, como é conhecida em Portugal. Um dos grandes impulsionadores recentes da história foi o compositor Braguinha, que recontou na década de 40 os grandes clássicos da história infantil, imortalizando-os em discos, que foram importantíssimo por várias gerações, inclusive a minha,  criando canções que se tornaram inesquecíveis e impossibilitando desassociarmos, por exemplo, a pequena Chapeuzinho Vermelho de versos como “Pela estrada fora eu vou bem sozinha/Levar esses doces para a vovozinha/Ela mora longe e o caminho é deserto/E o lobo mau passeia aqui por perto”.

A montagem chama a atenção incialmente pelo tamanho da produção, algo raro para o teatro infantil, que costuma ser realizado com orçamentos modestos. Um elenco muito bem escolhido, belos números musicais, cenários grandiosos e uma nova roupagem musical. Tudo feito com grande competência para a recriação da história proposta pela dupla de diretores Morais e Olivo, mas sem perder o foco na essência da história original, num bom trabalho de adaptação e um interessante desenvolvimento dramatúrgico do clássico. O trabalho de Morais e Olivo é acima de tudo, de um enorme respeito pelo público infantil, com a consciência que não basta se aproveitar de uma histórica clássica e coloca-la em cena sem um olhar pessoal ou artístico mais atento. Tinham a exata noção da responsabilidade que é montar um espetáculo de qualidade técnica para esse público.

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A trilha sonora criada por Bruno Camurati e Tony Lucchesi é fundamental para o desenvolvimento do espetáculo. Bruno Camurati vem se consolidando como um dos mais interessantes criadores musicais do teatro infantil carioca, como tive a oportunidade de acompanhar em alguns dos belos números que criou para os espetáculos de Carla Reis. Juntamente com Tony Lucchesi fizeram lindos arranjos vocais que encontraram na letra das músicas uma conjunção perfeita. Ainda sobra espaço para reverenciar o grande Braguinha, com a lembrança de suas lindas canções para essa história através de algumas notas de suas eternas canções. Essa é a essência desse espetáculo, olhar para frente, sem esquecer as referências do passado. Tudo muito bem coreografado por Rodrigo Soares, em que destaco especialmente a sequência da luta final.

O elenco é formado por Laura Lobo, Cleiton Morais, Udylê Procópio, Isadora Taam, Marina Motta, Alanna Bérgamo, Verônica Medeiros, Moira Osório, Rodrigo Fernando, Drayson Menezes e Julia Mattos, que durante aproximadamente uma hora apresentam um espetáculo muito bem interpretado por atores escolhidos nitidamente não somente pelos méritos, mas também pela adequação dos atores aos personagens.

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Laura Lobo foi uma ótima escolha. Interpreta a personagem título com muita verdade e ao mesmo tempo graça e leveza, além de um enorme carisma junto ao público infantil.

O próprio Cleiton Morais, além de dirigir, interpreta o Lobo.  Cleiton além de ser notoriamente bom ator é um exímio cantor de dançarino. Em cena sente-se toda sua presença física, que Cleiton dá a sensação de que tudo é extremamente leve e facil, quando na verdade sabemos que tudo é fruto de enorme esforço.

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Udylê Procópio, é também um destaque, leva o público a boas risadas com seu caçador. Um ator que particularmente sou admirador e foi muito bom vê-lo em cena é Drayson Menezes. Mas é importante ressaltar a qualidade de todo o elenco, com ótimas presenças em cena, tanto nas  intepretações, canto e coreografias.

Teatro infantil costuma ter um problema clássico em relação a elaboração do cenário, afinal é necessário que sejam funcionais para que tão logo termine a apresentação o palco esteja livre para a “principal atração” do teatro. Isso acaba sendo um problema inclusive na qualidade. Mas “Chapeuzinho Vermelho”, conseguiu a juntar praticidade com beleza e qualidade. Ótimo trabalho realizado por Charles Rocha. Há uma grandiosidade, dando por vezes inclusive um clima sombrio, necessário a essência da história, realçados por uma bela iluminação do sempre competente Aurélio Di Simoni, juntamente com Axel Mello.

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O capricho e o bom gosto nos figurinos também chamaram a atenção. Há um interessante trabalho de pesquisa, situando os personagens no tempo da história. A criação foi de Herbert Correa e Giovanni Targa.

Às vezes vemos grandes produções tecnicamente perfeitas, mas vazias de conteúdo e principalmente, vazias artisticamente. “Chapeuzinho Vermelho, Como Você Nunca Viu” não sofre desse problema, pois conta com ótimos criadores, artistas e técnicos para dar vida essa história eterna.

Fotos de Cena: Rogério Neves e Silvio Guerra.

CHAPEUZINHO VERMELHO COMO VOCÊ NUNCA VIU – O MUSICAL
THEATRO NET RIO – SALA TEREZA RACHEL
Sáb 15h30 | Dom 16h
Plateia: R$ 80 | Frisas e Balcão: R$ 60*

Ficha Técnica:
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Composições: Bruno Camurati e Tony Lucchesi
Direção Musical: Tony Lucchesi
Coreografias: Rodrigo Soares
Sapateado: Helena Sant’Anna
Figurinos: Herbert Correa e Giovanni Targa
Cenografia: Charles Rocha
Design de Luz: Aurélio De Simoni/Axel Mello
Design e Programação Visual: Alonso Martinez
Elenco: Laura Lobo, Cleiton Morais, Udylê Procópio, Isadora Taam, Marina Motta, Alanna Bergamo, Verônica Medeiros, Moira Osório, Rodrigo Fernando, Drayson Menezzes, Julia Mattos.


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