Crítica: O Gigante Egoísta


 

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Por Renato Mello.

Logo que entramos na Sala Fernanda Montenegro, do Teatro Leblon, e nos deparamos com toda a ambientação já preparada para o início da apresentação de “O Gigante Egoísta”, é possível perceber que não estamos diante de um espetáculo infantil convencional, mas diante de algo feito com uma elaboração raramente encontrada.  Para quem crê na magia que só o teatro é capaz de proporcionar, o trabalho realizado pela Artesanal Cia de Teatro e seus diretores Henrique Gonçalves e Gustavo Bicalho é algo a ser reverenciado pela sua qualidade artística no nível mais elevado.

O Gigante Egoísta”, que reestreou para uma temporada que se estenderá até o dia 21 de dezembro, foi o grande vencedor da última edição do Prêmio Zilka Sallaberry(o mais importante do teatro infantil) nas categorias de melhor espetáculo, ator(Márcio Nascimento), figurino e foi adaptada para o teatro por Gustavo Bicalho do conto do escritor irlandês Oscar Wilde. Conta a história de um gigante que após descobrir que um grupo de crianças invade seu jardim para brincar, expulsa-os e levanta um muro que separa sua propriedade do resto da vizinhança. Vivendo isolado do mundo, o gigante percebe que o inverno hospedou-se definitivamente em seu jardim e que a primavera recusa-se a retornar ao seu convívio. Mas a chegada de um menino que resolve brincar no seu jardim, apesar das restrições, traz de volta a primavera tanto para seu jardim quanto para sua vida, fazendo o gigante chegar a conclusão do quão egoísta ele foi nos últimos anos.

O grande diferencial do trabalho da Artesanal Cia de Teatro é a ousadia narrativa, a busca permanente por uma identidade própria e um conceito pessoal, jamais apelando para fórmulas convencionais. Sobre isso, Gustavo Bicalho declarou na entrevista que nos concedeu esse ano(que pode ser lida  na íntegra AQUI): “Um problema recorrente no teatro infanto-juvenil está exatamente na dramaturgia. Alguns autores acham que a criança só consegue entender o que é simples, enquanto na verdade, a criança consegue elaborar um mundo muito mais complexo que nós adultos, uma vez que suas estruturas neurais ainda não estão condicionadas como as nossas. Por isso dizemos que as crianças são mais imaginativas do que os adultos. O fato é que as crianças não tomam as coisas como ‘certas’. Ela está muito mais aberta à experimentação do que nós, adultos”. 

 A direção proposta por Henrique Gonçalves e Gustavo Bicalho é de grande sofisticação e leva ao palco o estilo que a Artesanal Cia de Teatro vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos, com essa sua narrativa particular, utilizando elementos como a manipulação de bonecos, sombras e máscaras. Necessário destacar o modo como os diretores ocupam de maneira eficiente o palco com uma movimentação sutil dos atores, que com grande discrição conseguem realizar alterações cenográficas, sem quebra do ritmo.   É importante ressaltar também a importante contribuição dada pelo ator Márcio Nascimento para a proposta da dupla de diretores. Tal como no espetáculo anterior que pude assistir de Gonçalves e Bicalho, “A Lenda do Príncipe que Tinha Rosto”, Márcio é o responsável tanto pela direção de movimentos dos bonecos, quanto na preparação do elenco, formado pelo próprio Márcio Nascimento, juntamente com Marcos Guilhon e Tatá Oliveira. O trio impressiona além do inegável talento, pelo belíssimo trabalho de expressão corporal e também vocal, numa atuação limpa, sem excessos e extremamente lúdica.

Para a criação dessa “identidade própria”, os elementos técnicos de um espetáculo teatral ganham uma importância adicional e nesse aspecto, o trabalho liderado pelos diretores é um primor em perfeição. A junção de figurinos, cenários e iluminação ajudam a criar uma direção de arte particular. A iluminação, assinada por Jorginho de Carvalho, impressiona. Além da beleza plástica que a iluminação proporciona, é essencial na narrativa da história, na criação dos climas e na passagem das estações. Possui um cenário(elaborado por Karlla de Luca) de grande sofisticação, clean, ao mesmo tempo de impacto visual e enorme praticidade. Os figurinos de Fernanda Sabino e Henrique Gonçalves, que normalmente costumam ser elementos individualizados na composição dos personagens, nesse caso tem a função compor a atmosfera e a ambientação da história.

O Gigante Egoísta”, mais que uma excelente peça infantil, é um elemento transformador, daqueles que fazem nos encantar de maneira definitiva com o universo do teatro, seja uma criança ou seja um adulto. O espetáculo é uma grande oportunidade para colocar nossos filhos diante do que seja arte, no seu sentido pleno e que cumpre todos os seus objetivos, fazendo-nos divertir, sonhar e refletir.

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* Fotos: Andrea Batituci e Jackeline Nigri(respectivamente)

FICHA TÉCNICA
Texto: Gustavo Bicalho – sobre um conto de Oscar Wilde
Elenco: Márcio Nascimento, Marcos Guilhon e Tatá Oliveira
Direção: Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves
Cenário e Adereços: Karlla de Luca
Figurinos e Adereços: Fernanda Sabino e Henrique Gonçalves
Bonecos: Bruno Dante
Máscaras e Preparação Técnica em uso de Máscaras: Marise Nogueira
Direção de Movimento dos bonecos e Preparação Técnica dos Atores: Márcio Nascimento
Preparação Corporal: Paulo Mazzoni
Pesquisa Musical: Gustavo Bicalho
Desenho de luz: Jorginho de Carvalho
Assistente: Poliana Pinheiro
Operador: Rodrigo Belay
Projeto Gráfico e Ilustração: Mauricio Grecco
Fotografias: Jackeline Nigri
Produção: Marta Paiva
Direção de Produção: Henrique Gonçalves
Classificação: LIVRE – a partir de 5 anos
Duração: 45 min.
Realização: Artesanal Cia. de Teatro – 2013

SERVIÇO
Espetáculo: O Gigante Egoísta
Com a Artesanal Cia de Teatro – Márcio Nascimento, Marcos Guilhon e Tatá Oliveira
Texto: Gustavo Bicalho – sobre um conto de Oscar Wilde
Direção: Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves
Gênero: Teatro infantil
Local: Teatro do Leblon – Sala Fernanda Montenegro
Endereço: Rua Conde de Bernadotte, 26 – Leblon
Temporada: de 4 de outubro a 21 de dezembro / sábados e domingos às 17:00h
Classificação: LIVRE – a partir de 5 anos
Duração: 45 min.
Tel: (21) 2529-7700
Ingressos: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia)
Capacidade: 417 lugares

Assessoria de Imprensa
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Alexandre Aquino


Palpites para este texto:

  1. Retratado de Forma surpreendente.Um cenário de altíssimo nível que nos transportou…, aguçando nossa imaginação infantil e adulta, nos levando a interagir refletindo nos comportamentos dos personagens interpretados por uma talentosa equipe que conduziu a história de forma belíssima.

    Parabéns a toda equipe e especialmente a MÁRCIO NASCIMENTO

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