Crítica: O Natal da Bela e a Fera


 

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Por Renato Mello.

Esse fim de semana é a última oportunidade para se assistir ao espetáculo infantil “O Natal da Bela e a Fera”, no Teatro Vanucci, Shopping da Gávea. A peça foi encenada durante todo o mês de dezembro, numa adaptação criada especialmente para esse período natalino por Carla Reis do famoso conto originalmente escrito em 1740 por Gabrielle-Suzanne Barbot e que tem sua versão mais difundida a partir das modificações realizadas em 1756 por Jeanne-Marie LePrince, embora existam registros mais remotos dessa história que datam 1550.

Nessa adaptação, Bela se torna prisioneira da Fera na semana do natal, data que não traz boas recordações para os habitantes do castelo, pois foi justamente quando tanto o príncipe quanto seus empregados foram enfeitiçados por uma bruxa, tornando-os vítimas de bizarras aparências, o príncipe de um ser animalesco, enquanto os servos se transformaram em meros objetos domésticos.

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O universo tratado é bastante familiar para a diretora, que já havia adaptado no próprio teatro Vanucci uma versão de “A Bela e a Fera”, sendo que alguns dos integrantes do atual elenco participaram igualmente daquela montagem. Uma das grandes qualidades de Carla Reis como diretora de teatro infantil é justamente sua sensibilidade e criatividade com os grandes clássicos da literatura infantil. Foi assim também com a própria adaptação de “A Bela e a Fera”, igualmente em “A Pequena Sereia” e mais recentemente com “O Mágico de Oz”(ainda em cartaz). É sempre necessário ter muito cuidado com as montagens oportunistas nesses clássicos popularizados pelo cinema, mas quando estão nas mãos de uma diretora como Carla Reis, podemos esperar em cena a marca de um estilo pessoal e sua personalidade, se recusando a colocar simplesmente histórias encantadas sobre o palco. Há sempre um sensível trabalho de recriação e de enorme respeito pelo público infantil, o que se repetiu agora.

A obra em sua essência, além de muito bonita, traz excelentes reflexões e ensinamentos para um público em formação, entre eles a mais óbvia é um olhar além das aparências e do materialismo, em que o importante é a busca pelo interior da alma humana, em contraponto com a aparência exterior. Mas é interessante também como o conto coloca em confronto 2 personagens aparentemente tão distintos que acabam por se apaixonar, tornando-se dois arquétipos de uma mesma pessoa, com os sentimentos contraditórios e dicotômicos que todos carregamos dentro de nós, o lado luminoso e o sombrio de nossa personalidade, nossas virtudes e vícios, o controle dos nossos primitivos instintos para nos tornarmos seres mais sensíveis e lúcidos dentro do ambiente em que vivemos, e igualmente o conto nos aponta que o caminho para a libertação não está necessariamente na eliminação do nosso algoz, mas na sua humanização. Todos esses elementos são perfeitamente trabalhados pela diretora.

O elenco dessa montagem é formado por Fernanda Biancamano(Bela), Nando Motezsohn(Fera), Vinícius Teixeira(Castiçal), Thiago Carvalho(Relógio), Ticiana Souza(Espanador), Lorena Ramos(Bule) e André Lemos(Narrador) que em sua maioria já trabalha com Carla Reis há algum tempo em outras produções, sendo nítido o entrosamento e desenvoltura dos atores em cena com os universos propostos por Carla Reis. Alguns inclusive fizeram parte da montagem de “A Bela e a Fera”.

Bela, tem em Fernanda Biancamano uma atriz extremamente carismática. Fernanda cada dia me chama mais a atenção pela sua presença, segurança e nesse caso, está sob medida para o papel. Lorena Ramos como o Bule é outro grande destaque. Quem a viu interpretar com extrema graciosidade e doçura a mocinha Dorothy em “Mágico de Oz”, se surpreende como está a vontade num papel cômico, com características e necessidades inteiramente diferentes. Juntamente com Fernanda, Lorena é outra atriz de teatro infantil que estou me tornando admirador. Vinicius Teixeira também divertido como o castiçal conquistador de acentuado sotaque francês, assim como Thiago Carvalho também desperta boa empatia como o Relógio. Nando Moretzsohn tem a missão de se despir das vaidades típicas do ator, pois passa quase todo o tempo caracterizado como a fera, obrigando-o a trabalhar de maneira mais acentuada a expressão corporal para expressar suas emoções, o que faz com competência. Ticiana Souza, boa cantora e responsável por uma das mais divertidas cenas, contracenando ao som de “O Meu Sangue Ferve por Você” de Sidney Magal, com Vinícius Teixeira. Por fim, André Lemos é o responsável por nos contextualizar nessa adaptação.

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Importantíssimo destacar a trilha sonora de Bruno Camurati e Wagner Monaco, mesclando humor e sensibilidade na criação musical, resultando num ótimo trabalho e realçando com enorme força à proposta da diretora. Bruno Camurati, por sinal, vem fazendo nesses últimos tempos uma bela parceria artística com Carla Reis.

Como referi na abertura, é a última chance de assistir a essa montagem encantadora. “O Natal da Bela e a Fera” é teatro infantil para nos divertirmos, sonharmos e refletirmos.

Ficha Técnica
Elenco: Nando Moretzhon, Fernanda Biancamanno, Vinícius Teixeira, Ticiana Souza, Lorena Ramos Thiago Carvalho e André Lemos.
Adaptação e Direção: Carla Reis
Realização: SETEMBRO PRODUÇÕES

Gênero: Infantil
Classificação Indicativa: Livre.
Dias de apresentação (Dezembro): 06,07,13,14,20,21,27 e 28, Sábados e Domingos.
Horário: 18h30
Ingresso: R$ 60,00
Duração: 60 min


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