Crítica: Os Músicos de Bremen


 

 

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A estreia do musical infantil “Os Músicos de Bremen” veio precedida de uma enorme expectativa. Gestado por quase 1 ano de intenso desenvolvimento, prometia ser o mais ambicioso projeto do diretor Anderson Oliveira, que já vinha de um retrospecto de excelentes trabalhos realizados recentemente, como “João e Maria”, “O Rapto do Papai Noel” e “A Princesa e o Sapo”. Depois de dessa longa espera finalmente a peça estreou no último dia 8 de março no Teatro das Artes, aonde ficará em temporada até 25 de maio.

A expectativa gerada pode acabar se tornando uma armadilha, pois o grau de exigência acaba sendo mais apurado. Mas “Os Músicos de Bremen” conseguiu passar com louvor pela prova de tão aguardada estreia, aonde no palco do Teatro das Artes foi apresentado um espetáculo de excepcional qualidade e enorme mérito artístico. Um trabalho que pode vir a representar um divisor de águas no trabalho que Anderson Oliveira desenvolve há alguns anos com sua companhia. Por outro lado, isso traz uma carga de responsabilidade para Anderson, que passará agora a ser cobrado com o grau de excepcionalidade de “Os Músicos de Bremen”. Suas peças anteriores já apresentavam um ótima qualidade, mas “Os Músicos de Bremen” está num patamar acima.

Os Músicos de Bremen” é mais uma adaptação dos irmãos Grimm, fábula aonde um burro, um cão, um gato e um galo que são maltratados por seus donos. Decidem abandoná-los e partir rumo a Bremen, aonde esperam encontrar a liberdade. A escolha de Bremen na criação do irmãos Grimm tem um claro sentido simbólico, aonde os 4 animais representam as diferentes classes do povo, enquanto seus donos representam os senhores feudais. Bremen foi para a época um símbolo de libertação, uma cidade aonde não existia o feudalismo, o local perfeito para se viver uma vida sem submissão, servilismo e patrões.

Na concepção desse espetáculo, outra referência é o clássico infantil “Os Saltimbancos”, peça de Chico Buarque e seu derivativo, o filme “Os Saltimbancos Trapalhões”, dirigido por JB Tanko, ambos igualmente beberam na mesma fonte dos irmãos Grimm. Anderson Oliveira pegou todas essas referências e transformou isso tudo uma outra coisa, recheada de referências sim, mas sem deixar de ser híbrida, criando uma dramaturgia própria e que tem seu estilo pessoal,com direito a lindas canções de Chico Buarque e Milton Nascimento.

A partir de ponto de partida dos irmãos Grimm, os quatro animais cantores foram transformados nessa adaptação em quatro pessoas que vivem numa fazenda no interior de Minas Gerais da década de 20, sob os maus tratos e a exploração de um barão, resolvem seguir seu caminho em busca da felicidade pelas estradas do interior mineiro, vivendo como saltimbancos, até chegaram na semana de arte moderna de São Paulo.

A história vai sendo contada a partir dos causos absurdos contados pelo narrador Zé Contador e do seu incrédulo interlocutor, Zé Tocador, com canções interpretadas de maneira original pelo elenco, tais como “Nada Será Como Antes”, Caçador de Mim”, “Bola de Meia, Bola de Gude”, “Amor de Índio”, “Pelos Bailes da Vida”, “Bicharia”, “Piruetas”, Hollywood”, “Meu Caro Barão”, “Todos Juntos”, entre outros clássicos eternos de Chico e Milton.

A escolha das canções foram um acerto, além da sua beleza, dos arranjos que fugiram do óbvio, elas foram encaixadas de uma maneira na dramaturgia que faz parecer que foram compostas para a peça, aonde cada uma expressa com correção a situação vivida em cena naquele momento

Em “Os Músicos de Bremen”, Anderson Oliveira provou que com dignidade, trabalho duro e talento é possível fazer um espetáculo de altíssima qualidade, agradar pais e filhos, sem que para isso tenha que subestimar a inteligência de ambos ou apelando para fórmulas fáceis. Para atingir esse ápice conseguiu criar uma dramaturgia que diverte sim, mas não apenas isso, instiga o público trabalhando em cima de 2 palavras chaves: Liberdade e União.  Para se atingir a liberdade plena é necessário se bater acima de tudo contra a opressão e o medo. Para isso é preciso se conscientizar que “todos juntos somos fortes/somos flecha e somos arco”.

Anderson dá alguns passos a mais do que já havia dado em “A Princesa e o Sapo”, aonde contextualizou aquele texto para o universo nordestino, transferindo agora o eixo para o interior mineiro. Utiliza-se de forma semelhante a figura do narrador, aqui é o contador de  “causos”(lá era o repentista), formando novamente um encantadora dupla com seu contraponto Tchello Andrade, que juntos voltam a formar uma dupla sui generis e original, aonde exageram os acontecimentos e fatos, contando passagens que bebem diretamente no realismo fantástico da literatura latino-americana em passagens como a do barão que pega fogo de raiva, da menina que “desmorria” e dos apaixonados que fazem chover flor.

Os Músicos de Bremen” tem uma produção extremamente bem cuidada, tanto nos figurinos, iluminação e cenários. Em relação ao cenário, uma Casa Grande de uma rica fazenda da alta oligarquia mineira, buscando uma referência sutil em Gilberto Freyre, diante de uma roça por onde os atores desenvolvem de maneira inteligente suas ações cênicas, que ao final do espetáculo com um simples truque e com a magia que só o teatro possui, se transforma num espetacular ambiente hollywoodiano. A caprichada produção ainda consegue o requinte de apresentar em cena uma carroça por onde os românticos saltimbancos atravessam as veredas de Minas Gerais.

O fato de ter uma companhia por trás dos seus trabalhos, a R & A Produções, ajudam a solidificar a linguagem dramatúrgica dos trabalhos de Anderson, acrescido de um elenco  coeso quanto o que trabalha há alguns anos nas peças de Anderson. Em “Os Músicos de Bremen”, o elenco é formado por Talita MonteiroLeandro AmadoErick Rizental, Juliana VeroneziRonize Carrilho, André Rayol JorgeAnderson Oliveira, Tchello Andrade, além de Dalton Coelho no violão, que também é responsável pela ótima direção musical do espetáculo.

Talita Monteiro é Menina, filha do temido Barão, apaixonada por Zé Campista e segundo nos conta a dupla Zé Contador e Zé Tocador, tem a capacidade de “desmorrer”. Talita Monteiro é uma atriz perfeita para viver o personagem. Carismática, consegue mesclar um ar de mocinha romântica do interior com um talento ímpar para lidar com o humor.

Leandro Amado, o Zé Milico, frustrado em seu sonho de se tornar militar devido as suas próprias limitações, possui um faro de fazer inveja a qualquer cão perdigueiro, tal como cão do original do Irmãos Grimm. Leandro tem excelente domínio vocal, se apresenta com grande segurança em cena. Teve grandes momentos de protagonismo e me agradou sua participação na canção “Nada Será Como Antes” e brilhou intensamente em “Bola de Gude, Bola de Meia” e “Meu Caro Barão”.

Juliana Veronezi é Clotilde, tida é havida como a mulher mais mentirosa do mundo. Em “Os Músicos de BremenJuliana acabou roubando em alguns momentos a cena, responsável por alguns dos momentos mais engraçados do espetáculo. Contar com a colaboração de Juliana Veronezi é um grande achado para Anderson Oliveira, pois além de ótima atriz é co-diretora musical de “Os Músicos de Bremen”, fundamental para o grau de qualidade musical apresentado em cena pelo elenco todo.

Erick Rizental faz o revoltado Zé Campista, o burro mais inteligente do mundo. Aquele que dá o pontapé inicial nos ventos “revolução libertária” que sopra na velha fazenda mineira. Erick consegue transmitir em cena com um simples olhar toda uma doçura que lá no fundo se esconde por trás do rebelde que desafia o Barão. É um personagem decisivo para tirar todos a sua volta da inércia a que estão suas vidas submetidas.

André Rayol é o Barão, aquele que pega fogo de raiva, o grande vilão da história. André, um ator brilhante, que mesmo tendo entrado no espetáculo na última hora conseguiu compor seu barão com intensidade, com olhares que me dava arrepios dignos de um Rubens de Falco em seus momentos de Barão de Araruna(rs). Como podia se esperar de André, em pouco tempo de preparação conseguiu imprimir o tom correto que seu vilão exigia. Ao final do espetáculo quando fui cumprimentá-lo, minha filha chegou a se esconder atrás da gente, temendo ainda o velho Barão que havia visto em cena minutos antes. Ainda teve direito em cena ao seu momento Fred Aistaire num “Check to Check” com Ronilze Carrilho.

Tchello Andrade, Zé Tocador. Tem um papel importante na estrutura do espetáculo, mesmo não estando ao centro do palco em nenhum momento. Sentado no seu canto,  o ótimo Tchello Andrade forma uma dupla extremamente interessante com Anderson Oliveira. Fundamental como elemento de referência em cena ao restante do elenco, principalmente por suas qualidades não só dramatúrgicas, mas também como músico, funcionando por vezes quase que como um “sonoplasta informal” o espetáculo.

Anderson Oliveira, o Zé Contador, aquele que vai levando o espetáculo num tom fantasioso. Confesso que só de olhar para Anderson, mesmo que mudo, já sentia vontade de rir. Imagina então quando começa a falar seus absurdos. Ao lado de Juliana Veronezi, é o responsável pelas principais gargalhadas da plateia

Ronize Carrilho, como Margot. Uma ambiciosa personagem que atravessa na vida da trupe dos saltimbancos, levando-os a sonhar com voo mais alto do que eles inicialmente almejam. Ronize, parceira dos projetos de Anderson desde longa data, é uma das responsáveis pela R&A Produções, ou seja, tem papel fundamental para que esse projeto tenha sido viabilizado com todo êxito.

Esperamos que “Os Músicos de Bremen” fique por muito tempo em cartaz, para que ele consiga atingir todo o potencial artístico e comercial que uma montagem dessa magnitude e dessa qualidade  merece.

OS MÚSICOS DE BREMEN
Gênero: Musical
Classificação Indicativa: Livre
Estreia: 08 de Março
Temporada: 08 de Março a 25 de maio
Horários: Sábados e domingos às 17h
Duração: 60 minutos.
Ingressos: R$ 60,00 (inteira)

Ficha Técnica
Texto e Direção: Anderson Oliveira
Arranjos e Direção Musical: Dalton Coelho
Codireção Musical: Juliana Veronezi
Elenco: Talita Monteiro, Erick Rizental, Leandro Amado, Juliana Veronezi, André Rayol, Ronize Carrilho, Anderson Oliveira e Dalton Coelho
Figurinos: Anderson Oliveira
Cenário: Francisco Costa
Iluminação: Vlad Russo
Programação Visual: Ingrid Carrielo
Produção Executiva: Fernanda Milfont
Produção e Realização: R&A Produções e Vero Soluções Musicais


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