Crítica: Pedro Malazarte e a Arara Gigante


 

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Por Renato Mello.

Depois do sucesso no Oi Futuro do Flamengo, a peça infantil “Pedro Malazarte e a Arara Gigante” iniciou neste fim de semana uma temporada no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, que se estenderá até 28 de setembro.

Não é difícil compreender o êxito dessa montagem dirigida por Débora Lamm com texto de Jorge Furtado. “Pedro Malazarte e a Arara Gigante” é uma sucessão de acertos em que os diversos elementos que fazem do todo foram criados e concebidos com extrema competência pelos profissionais que fizeram parte da produção.

Personagem recorrente na literatura, no teatro ou no cinema brasileiro, Pedro Malazarte, segundo nosso maior folclorista, o antropólogo e historiador Câmara Cascudo, teria sido importado da Península Ibérica, aonde já era possível encontrar menção ou registros no século XIII. Na cultura nacional, Malazarte incorporou a figura do burlão invencível, do astuto, cínico, com um inesgotável expediente de enganos, sem escrúpulos ou remorsos. Em alguns aspectos de sua personalidade lembra um pouco João Grilo, personagem imortalizado na obra de Ariano Suassuna, ambos se tornando símbolos de uma possível falta de caráter embutida e mascarada numa simpática malandragem. Em alguns traços também podemos remetê-lo a um Macunaíma.  Pedro Malazarte aparece em obras de alguns ícones da mais alta cultura nacional, como um Camargo Guarnieri, Monteiro Lobato e mesmo Mário de Andrade(o “pai” de Macunaíma). Até mesmo Mazzaropi, símbolo da cultura popular de um Brasil ainda rural e ingênuo, chegou a interpretar o personagem na década de 60.

 Agora foi o cineasta gaúcho Jorge Furtado que buscou o personagem para protagonizar sua peça. A 1ª montagem de “Pedro Malazarte e a Arara Gigante” ocorreu em 2007 no teatro Mario Quintana, em Porto Alegre, com direção de Bob Bahlis. O texto acabou ganhando uma edição literária. A ideia de trazer o espetáculo para o Rio de Janeiro foi da atriz Luisa Arraes, como comentou ao site “Mais Teatro”(http://www.maisteatro.com/espetaculo/pedro-malazarte-e-a-arara-gigante): “Encontrei o texto lá em casa e resolvi ler para o meu irmão de seis anos. Ele não parava de rir um segundo. E Eu também! Foi aí que percebi a força que a história teria no palco”.

A peça conta o encontro de Pedro(George Sauma) com um homem que bate o carro porque é “atropelado” por uma galinha. Ao pedir ajuda a Malazarte, que assiste à cena encostado tranquilamente na cerca à beira da estrada, o Janota(João Pedro Zappa) se vê envolvido numa série de trapalhadas e é incapaz de compreender a “lógica” de Pedro Malazarte.

Não resta dúvida da qualidade do texto de Jorge Furtado. Tenho há muitos anos a opinião que Furtado é o autor dos mais interessantes, saborosos e engraçados diálogos do cinema nacional. Em “Pedro Malazarte e a Arara Gigante” essas características estão presentes permanentemente durante o duelo verbal travado pelos personagens Pedro Malazarte e Janota, brincando de maneira quase que lúdica com o significado das palavras e com suas sonoridades, assim como com o desenvolvimento de um texto que funciona em círculos, que está sempre recomeçando.

Mas para esse duelo funcionar perfeitamente são necessários bons oponentes em cena. Nisso o espetáculo não poderia estar melhor servido. No palco 2 atores excepcionais: George Sauma e João Pedro Zappa. Recentemente tive a oportunidade de assistir uma peça estupenda com ambos, “A Importância de Ser Perfeito”, aonde Zappa e Sauma tem atuações magistrais(crítica AQUI). Atuando novamente juntos, ambos demonstram total sintonia, realizado uma tabelinha certeira. Sauma incorpora com perfeição a folclórica figura de Pedro Malazarte, fazendo rir do início ao fim com suas tiradas. Para mim, depois de sua investida pelo universo de Oscar Wilde e agora com “Pedro Malazarte e a Arara Gigante”, Sauma se consolida como um dos maiores destaques do teatro carioca em 2014. Zappa não fica atrás. Luisa Arraes completa o time, entrando com competência, carisma e graça em meio ao “embate” travado por Malazarte e Janota. A peça ainda conta com a presença em cena de Cadi Oliveira, interpretando a vaca.

É visível como a encenadora Debora Lamm está à vontade exercendo seu ofício nesse espetáculo. Debora soube conduzir com rara habilidade o desenvolvimento do texto em cena, sabendo tirar todo o proveito dos belos atores que tinha à sua disposição e acabou por realizar um espetáculo impecável. Jamais trilhou o caminho da obviedade ou da subestimação ao seu público. Atriz extremamente competente, conhece como poucos o universo do teatro infantil e as exigências desse segmento. Na temporada passada foi responsável por uma das melhores atuações do teatro infantil com “Coisas que a Gente não Vê”, que acabou lhe rendendo o Prêmio Zilka Salaberry(o mais importante do teatro infantil) como melhor atriz infantil e o nosso prêmio Botequim Cultural na as 2ª edição, aonde tivemos o privilégio de lhe conferir a nossa estatueta de Don Quixote. Aqui, como diretora, Debora Lamm confirma seu protagonismo no universo do teatro infantil carioca.

Não podemos deixar de mencionar o apuro técnico desta produção. Excelente cenário de Rebecca Belsoff e Antônio Guedes, criando o clima rural necessário ao texto. Assim como a bela iluminação assinada por Renato Machado. Conta ainda com o músico André Sigaud em cena, responsável não só pela execução ao vivo das canções, mas que acaba também sendo uma espécie de “sonoplasta informal”.

Finalizamos o texto parabenizando o Teatro dos Quatro, que levou ao público alguns dos melhores espetáculos infantis do ano, como “A Fada que Tinha Ideias”, “Boi da Cara Preta” e agora esse excelente espetáculo “Pedro Malazarte e a Arara Gigante”.

Pedro Malazarte e a Arara Gigante

Idealização: Luisa Arraes
Texto e letras: Jorge Furtado
Direção: Debora Lamm
Direção musical: Ricco Viana
Elenco: George Sauma(Pedro Malazarte), João Pedro Zappa(Janota), Luisa Arraes(Berenice) e Cadi Oliveira(Vaca)
Músico em cena: André Sigaud
Supervisão de movimento e coreografias: Ana Paula Bouzas
Luz: Renato Machado
Cenografia: Rebecca Belsoff e Antônio Guedes
Figurino: Antônio Guedes
Visagismo: Josef Chasilew
Assistente de direção: Flavia Milioni
Assistente de figurinos e cenário: Luz de Lucena
Assistente de produção: leila meirelles
Modelista: Adriana Lessa
Adereços e costura: Tiago Farto
Cenotécnico: Construcena Serviços Técnicos
Contra-regra: Elquires Sousa e Fernando Queyroz
Diretor de palco: Hildo Assis
Assessoria de imprensa: M Niemeyer
Material de divulgação: Páprica Fotografia
Projeto gráfico: Marina Kelson, Gabriela Noval e Vidi Descaves
Direção de produção: Tatianna Trinxet
Realização: Constelar – Arte, Diversão e Cultura


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