Crítica: Todo Vagabundo tem Seu Dia de Glória


 

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Por Renato Mello.

Cena 1 – À porta de uma cervejaria, num prado.
SLY – Vou te arrancar a pele, eu juro!
HOSPEDEIRA – Um bom par de algemas, seu canalha!
SLY – Canalha é você! Os Sly não são canalhas. Leia nas crônicas. Viemos com Ricardo, o Conquistador. Portanto, poucas palavras. Deixa o mundo girar. Estanca!
HOSPEDEIRA – Paga ou não paga os copos que quebrou?
SLY – Nem um vintém. Por São Jerônimo, vai! Vai pra tua cama fria; vai te esquentar.
HOSPEDEIRA – Já sei o teu remédio, vou chamar o sentinela.
SLY – Sentinela e senta nela!3 Eu lhe respondo é com a lei. Não cedo um palmo. Que ele venha devagar [Deita-se no chão e dorme. Soam trompas. Entra um lorde, vindo da caça, acompanhado de caçadores e criados.]

Esse prólogo de “A Megera Domada” foi o ponto de partida de um projeto que levou mais de 10 anos desde sua concepção por Thiago Pach até finalmente ganhar os palcos do Teatro Oi Futuro com o título “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” e iniciar assim uma trajetória que esperamos longa, pois tem todos os méritos para isso.

Ambientado na Europa medieval, “Todo Vagabundo tem Seu Dia de Glória” narra a história do funileiro Cristóvão Gerônimo, um fanfarrão que é encontrado dormindo na rua em estado de embriaguez por um nobre entediado. Com uma vida fútil e vazia, o nobre ordena que seus criados levam o miserável Cristóvão para seu palacete, a fim de transforma-lo num joguete para sua diversão. O objetivo é fazê-lo crer ao acordar que é o dono do palácio, assim como as vestes que lhe põem, os empregados e todo o mundo de luxo que o cerca. Cristóvão passa a viver numa eterna dúvida entre o que é de fato realidade ou ilusão, até a chegada de uma trupe de saltimbancos.

A história escrita por Thiago Pach tem uma estrutura dramática muito bem delineada através de uma carpintaria muito sólida, fruto de um largo estudo da época retratada e de importantes textos sobre o período, resultando numa permanente inquietação do espectador sobre os seus desdobramentos. Suas qualidades deram a base suficiente para que o próprio Thiago, em conjunto com Adren Alves pudessem levantar uma encenação criativa.

Mesmo se a dimensão do palco do Teatro Oi Futuro possa ser um limitador para uma produção que coloca sobre o palco 8 atores e 3 músicos, os diretores não se intimidaram e não deixaram de realizar uma produção que mantém o tom grandioso que o texto pede, sem que ocorra atropelamentos entre os atores, sabendo definir com precisão o espaço de cada um, fazendo-os surgir de onde menos esperamos, tirando proveito de cada espaço que lhes era disponível. Elaboraram igualmente belas cenas de impacto, principalmente nos números musicais.

Um dos aspectos que mais chama a atenção em “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” é sua produção(sob responsabilidade de Aline Carrocino, Igor Veloso, Bia Gondomar e Thiago Pach), que reuniu um elenco de qualidade e técnicos de excelência, que através do comando de Thiago e Adren, realizaram  uma das mais bem cuidadas produções do ano. Quando me refiro ao cuidado da produção, não falo apenas de aspectos mais aparentes ao público como figurino e cenografia(que falaremos mais adiante), mas da estrutura que foi montada para que os atores tivessem o melhor possível para desenvolverem seus personagens e se apresentar ao público. São profissionais do mais alto nível, como Sueli Guerra na direção de movimentos e coreografia(com nada menos que Priscila Vidca[diretora de “Silêncio”] como assistente) e Mona Vilardo(atualmente em cartaz com “Agnaldo Rayol”) na preparação vocal.

Para o desenvolvimento dos personagens o trabalho de visagismo de Mona Magalhães é igualmente essencial, para não dizermos que é brilhante. Em conjunto com os atores realizou uma verdadeira transformação e uma contribuição fundamental para o resultado final nas atuações do elenco, em especial com o personagem de Thiago Pach, Cristóvão Gerônimo.

Esses profissionais acima citados têm atuação direta no êxito do trabalho de atuação do elenco, igualmente raro de se encontrar num espetáculo voltado para o público infanto-juvenil, pela qualidade e experiência de boa parte de seus membros. Com a estrutura montada e a escolha acertada dos seus membros, não é possível perceber nenhum desnível de atuação, assim como todos os personagens tem uma função muito bem definida, incluindo os coadjuvantes, que alcançam no conjunto uma atuação consistente e de muito bom nível.

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Thiago Pach

Thiago Pach(Cristóvão Gerônimo), tem a perfeita noção de todas as intenções e para que lugar deveria levar seu personagem, realiza um belo trabalho corporal e vocal para dar veracidade ao miserável que vê seu mundo se transformar. Em cena, um ator com força e carisma para levar adiante seu protagonista.

Wendell Bendelack(Lorde de Wincot) é, na minha opinião, um dos mais engraçados atores do teatro(Quem viu “O Incrível Segredo da Mulher Macaco” sabe o que estou dizendo). Tem perfeito domínio da expressão corporal e faz o que bem deseja com a voz ao utilizar o tom correto para cada situação. Não foi surpresa que consiga sempre arrancar grandes gargalhadas do público.

Renata Celidônio(Mariana Hacket e D Elisa), uma das mais brilhantes atrizes/cantoras que temos no teatro. Com uma sólida e respeitada carreira em musicais, Renata domina totalmente o ambiente quando está em cena e quando começa a cantar é sempre um enorme prazer apreciarmos seu domínio vocal único.

Foi o primeiro trabalho que assisti de Raquel Botafogo(Isabela) e devo dizer que fiquei encantado. Em cena, desenvolve-se com leveza, gestos limpos e enorme graciosidade. Espero ainda ter a oportunidade de assistir muitos trabalhos seus.

Ton Carvalho(narrador), um ator completo e que põe em cena todo seu talento, seja interpretando, cantando ou utilizando-se de técnicas circenses, sempre de modo eficiente. Uma boa presença e grande personalidade. Felipe Frazão(Criado), ator jovem, mas já de longa experiência no teatro infantil. Juntamente com Wendell , Felipe foi o responsável por grande gargalhadas, às vezes através de gestos mínimos, como um mero olhar. Aline Carrocino(Criado), muita força em cena, com eficiente trabalho de impostação de voz. Tauã Delmiro(Narrador e Horácio) formou uma dupla bastante carismática com Ton Carvalho. Tauã é um ator que tem uma sólida formação e que veremos certamente em grandes musicais.

Em relação a concepção e atmosfera proposta, “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” tem sua estética inspirada no lindo filme de Ettore Scola(“A Viagem do Capitão Tornado”) e é possível notar claramente o quanto o espetáculo ganhou com essa opção. Assim como também a utilização da Commedia Dell’Arte em todos os seus elementos em cena se adequou com rara sintonia com a dramaturgia de Thiago Pach.

Para podermos absorver essas influências, dois aspectos são primordiais, os cenários e figurinos, ambos assinados por Marcelo Marques. Talvez o tamanho da produção possível para o palco do Oi Futuro não tenha dado espaço para o cenário que essa história merecia e isso não é nenhum demérito para Marcelo, que mesmo assim realizou um trabalho competente nesse aspecto. Seus figurinos são belíssimos, requintados, frutos de uma detalhada pesquisa e resultando num excelente trabalho de criação. Inteiramente adequados dentro da proposta e da estética. Aplausos para Marcelo Marques!

O trabalho de Roberto Bahal na criação e direção musical é impecável! Trabalhou com um talento raro as letras que Thiago Pach havia concebido e gerou grande contribuição para se atingir a atmosfera desejada. Roberto em cena toca piano e acordeon, acompanhado da flauta de Andrey Cruz e do violoncelo de Thaís Ferreira/Maria Clara Valle. Sua música com uma influência barroca fazia-nos remeter diretamente ao período da encenação.

Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” é um espetáculo que tem todos os ingredientes para agradar em cheio não somente o público infantil, mas também o público adolescente(tão carente de espetáculos teatrais). Mas sendo visto sob a ótica do teatro infantil, entre os quase 30 espetáculos do gênero que vi esse ano, posso afirmar que é um dos 3 melhores que estrearam nesse primeiro semestre de 2015.

Ficha Técnica:
Concepção, Texto e Letras de Musicas: Thiago Pach
Direção Geral: Thiago Pach e Adren Alves
Musica Original, Direção Musical e Arranjos: Roberto Bahal
Direção de Movimento e Coreografias: Sueli Guerra
Diretor de Arte: Marcelo Marques
Visagismo: Mona Magalhães
Projeto de Iluminação: Leysa Vidal

Elenco: Thiago Pach, Wendell Bendelack, Renata Celidonio, Raquel Botafogo, Aline Carrocino, Felipe Frazão, Tauã Delmiro e Ton Carvalho.

Preparadora Vocal: Mona Vilardo
Oficina de Commedia Dell’arte: Tarlia Laranjeira
Programação Visual: Departamento Comunicações
Assistente de Direção de Movimento: Priscila Vidca
Assistente de Direção de Arte: Deborah Catalani
Assistente de Visagismo: Tainá Lasmar
Direção de Produção: Aline Carrocino e Bia Gondomar
Produção Executiva: Igor Veloso
Realização: Alce Produções e Thiago Pach

SERVIÇO
De 23 de maio a 9 de agosto, sábado e domingo, 16h | 7º andar
Entrada: R$ 15,00 | Classificação etária: livre (indicado para maiores de 8 anos)
Bilheteria: terça a domingo de 14h às 20h
Vendas online: www.ingressorapido.com

Foto Thiago Pach como o vagabundo maltrapilho Cristóvão Gerônimo (autor: Marcus Gullo)

Todo elenco: Renata Celidonio (de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”), Wendell Bendelack (de “O Segredo da Mulher Macaco”), Tauã Delmiro (de “Os Saltimbancos”), Felipe Frazão (de “Próxima Parada”), Aline Carrocino (de “Muita Mulher Pra Pouco Musical”), Ton Carvalho (de “As 3 Marias”) e Raquel Botafogo (de “Pe Quo Deux”) também estão no elenco.


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