Jafar Panahi


 

“Antes de falar do filme, queria falar sobre outro assunto que está no centro da nossa preocupação aqui. O cinema está sob ataque. É óbvio que não preciso detalhar, mas estou falando da situação de Jafar Panahi. Quando estava vindo para cá de carro recebi uma mensagem no celular para que ligasse para a esposa de Panahi em Teerã. Não falei com ela ainda e não sei o que aconteceu, mas se ele fosse liberado hoje seria ótimo. Espero ter boas notícias”. A declaração acima foi feita em maio de 2010 por Abbas Kiarostami em Cannes. Não, ao contrário de seus desejos, Kiarostami não teve boas notícias naquele dia.

No exato momento dessa declaração, Kiarostami estava provavelmente vivendo a maior glória de sua carreira, se encontrava em pleno palco do Palais des Festivals de Cannes recebendo a Palma de Ouro por seu filme “Cópia Fiel”, mas preferiu usar seu momento para lembrar de seu colega. São nessas atitudes que distinguimos os grandes homens.

Para quem não conhece ou nunca ouviu falar de Jafar Panahi, trata-se de um dos diretores mais importantes do cinema contemporâneo. Dirigiu entre outros filmes “O Balão Branco”, “O Espelho” e “O Círculo”, filmes que lhe renderam prêmios e prestígio no mundo inteiro, já tendo sido premiado simplesmente nos 3 maiores festivais do mundo, Cannes, Veneza e Berlim e que aqui no Brasil influenciaram profundamente Walter Salles.

Panahi foi preso em fevereiro de 2010, junto com a mulher e a filha, depois libertadas, quando estava recebendo amigos numa festa. No final do mesmo ano recebeu a pena de 6 anos de prisão, sendo ainda proibido de dirigir filmes, escrever roteiros, falar com a mídia e sair do Irã. A acusação é de crime contra a segurança nacional e contra a República Islâmica do Irã. Seus filmes estão proibidos no Irã. Mas seu maior “crime” na verdade é ser um convicto opositor de Mahmoud Ahmadinejad e de ter apoiado Mirhossein Mousavi na última eleição, cercada por denúncias de fraude.

Até o presente momento Jafar Panahi segue preso, mas não é o único condenado. Mohsen Makhmalbaf está exilado no exterior(recentemente esteve no Brasil fazendo uma série de palestras e encontros com cineastas brasileiros), assim como Mojtaba Mirtahmasb, que teve confiscado seu passaporte.

Hoje Panahi volta à ordem do dia(de onde não deveria ter saído) porque acabou de estrear “Isto não é um Filme”, produzido em 2010 e co-dirigido por Mojtaba Mirtahmasb, aonde narra o seu cotidiano em prisão domiciliar, aguardando seu julgamento e com uma cabeça plena de ideias e projetos cinematográficos que tão cedo não poderá realizar. Talvez vendo o filme possamos compreender toda a perseguição sofrida, afinal Panahi é um homem muito perigoso, ele faz cinema.

Espero que no Festival de Cannes que se avizinha, seja mais uma vez figura central e assim deve ser enquanto permanecer em cárcere. Lamento apenas que o filme tenha no Rio de Janeiro uma distribuição tão diminuta em apenas 1 sala. Durante a semana deverei assisti-lo.


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