Crítica: Les Misérables


 

Depois de mais de 20 adaptações cinematográficas, finalmente o clássico “Les Misérables”, romance de Victor Hugo, ganhou uma versão a altura da sua grandeza. O responsável pela bem sucedida empreitada foi o inglês Tom Hooper, o mesmo diretor que ganhou o Oscar por “O Discurso do Rei”. “Les Misérables” ganhou 3 Globos de Ouro, Melhor Filme Musical ou Comédia, Melhor Ator de Musical ou Comédia para Hugh Jackman, Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway e concorre a 8 Oscars. Embora essa versão seja na verdade uma adaptação de um “sub-produto” do romance de Hugo, o musical da Broadway, também conhecido como “Les Mis”, grande vencedor do Tony Awards.

Adaptações de “Os Miseráveis” tem em todas as épocas e para todos os gostos. A mais antiga que tenho notícia foi feita em 1913 por Albert Capellani, depois outros (bons) cineastas se debruçaram sobre esse trabalho, como por exemplo Henri Verneuil em 1949, Robert Hossein em 1981, Claude Lelouch numa péssima adaptação em 1994 e o mais recente que lembro foi Billy August em 1998, entre outras tantas. Nenhuma dessas foram bem sucedidas do ponto de vista artístico.

Publicado em 1862, a história se passa na França do século 19 no período que compreende as duas grandes batalhas, a de Waterloo em 1815 e os motins de junho de 1832, dividido em 5 volumes. Narra a saga de Jean Valjean(no filme interpretado por Hugh Jackman), um presidiário condenado a 19 anos de cadeia por roubar um pão. Colocado em liberdade condicional, foge e recomeça sua vida longe do seu passado e tentando se redimir dos seus atos e pecados do passado. O romance segue sua vida ao longo dos volumes, sempre pontuados pela perseguição implacável do inspetor de polícia Javert(Russell Crowe), até a sua morte já no 5º e derradeiro volume. Em torno de sua vida, algumas pessoas darão nomes aos volumes da obra, testemunhando toda a miséria da condição humana, seja a miséria econômica, seja a miséria de caráter e a indigência moral: Fantine(Anne Hathaway), Cosette(Amanda Seyfried), Marius(Eddie Radmayne), assim como Éponine(Samantha Barks) e Gavroche(Daniel Huttlestone) e o próprio inspetor Javert. Em 1980 foi transformado em musical por Claude-Michel Schömberg, com libreto de Alain Boublil e letras de Herbert Kretzmer, fazendo um estrondoso sucesso e do qual o filme foi adaptado.

Se o romance original de Victor Hugo foi rechaçado pelos marxistas por seu suposto excesso de sentimentalismo, a adaptação musical também não ficou imune de críticas pelo mesmo motivo, parecendo uma bobagem para um público pretensamente mais racional e intelectualizado, que em determinados momentos abusa de um certo catolicismo catequizador. Mas essa adaptação de Tom Hooper conseguiu imprimir uma grande ousadia e um tom épico em meio a personagens lutando por redenção e pela revolução. Se em “O Discurso do ReiTom Hooper se apresentou como uma cineasta caretinha e acadêmico demais, desta vez foi extremamente ousado e acabou igualmente bem sucedido.

Optou por não utilizar play-backs, técnica comum em que atores gravam as músicas em estúdios 2 meses antes das filmagens e quando chegam em cena apenas dublam e sincronizam o que previamente gravaram. Aqui os atores cantam em cena, em tempo real, tendo a oportunidade de mudar a entonação de acordo com as emoções surgidas no calor das gravações. Isso dá mais vida e tira uma boa dose de artificialismo que normalmente acontece em musicais, deixando o filme mais vivo e mais vibrante. Para isso teve um elenco de atores-cantores que estão no mais alto grau da perfeição.

A atuação de Hugh Jackman é perfeita, quase antológica. Daniel Day-Lewis deverá ganhar o Oscar como Melhor Ator por sua atuação em “Lincoln”, mas a grande atuação do ano é de Hugh Jackman. Sua performance é perfeita, sua empostação, a suavidade, as angústias existenciais de seu personagem, são expressas no tom certo, sem contar que canta(e interpreta) perfeitamente. Jackman não comete o erro cometido comumente em musicais, com os cantores querendo se sobrepor sobre a música, poderia até fazê-lo pois tem extensão vocal para tal,  ele interpreta as músicas, por vezes sussurra. Tudo no limite da perfeição, do crível, do que pede seu personagem em cada momento específico. Há que se levar em conta seu trabalho corporal, chegou inclusive a fazer um rigoroso regime para as cenas iniciais e depois teve que ganhar peso rápido para a continuidade das filmagens.

O personagem de Anne Hathaway, embora ocupe pouco tempo em cena, é de uma visceralidade e de uma força única, impossível não se emocionar com a cena em que sua personagem vende seu cabelo e raspa a cabeça em frente das câmeras. Anne Hathaway é a prova que para ser um grande Ator Coadjuvante independe do tempo em cena, enquanto permanece na tela sua atuação ilumina a tela, não é a toa que deverá levar o Oscar de Melhor Coadjuvante.

Até Russell Crowe, um notório canastrão, está muito bem como o inspetor Javert. Mesmo que não possua o mesmo domínio vocal de Hathaway e Jackman, Crowe não faz feio quando canta. Até mesmo porque começou sua carreira de ator fazendo musicais na Austrália. O resto do elenco coadjuvante também foi escolhido a dedo tal a harmonia das atuações, destaco Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter.

As cenas são de grandiosidade, mas sem abrir mão da espontaneidade dos atores e a emoção da história, que por vezes pode se perder quando há excesso de suntuosidade. Mas Hooper consegue conjuminar bem esses elementos. Como exemplo da sua proposta, os próprios atores construíram as barricadas, sob o olhar da câmera. Numa sequência de 10 minutos, eles utilizaram móveis e peças de madeiras que estavam à sua disposição e recriaram a cena do motim(o histórico motim de 1832 e a barricada  da rua Saint-Denis), tudo com um realismo impressionante e em tempo real. Todo o filme foi feito dentro de estúdio, nos famosos estúdios de Pinewood, na Inglaterra.

Há que ressaltar que o maior dos absurdos no Oscar deste ano é a não indicação de Tom Hooper como diretor. Disparado, o melhor trabalho de direção de atores e de concepção de projeto, enfim, de direção, do ano. Seu trabalho o redime por ter levado o Oscar de Melhor Diretor por um filme tão convencional quanto “O Discurso do Rei”.


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