Machado & Eça


 

Há cerca de um ano atrás Arnaldo Jabor fez algumas comparações interessantes entre quem considero como os 2 maiores escritores da língua portuguesa: Machado de Assis e Eça de Queiróz. Em seu último parágrafo, Jabor revela preferir “o português ao nosso grande mulato”. Tal como Jabor, também possuo ligeira preferência por Eça, apesar de nutrir grande admiração por Machado.

O tema me é bastante caro, afinal estou falando de autores que escreveram 2 entre meus 3 livros favoritos, “Os Maias” e “Dom Casmurro“. O 3º livro de minha lista é “Ilusões Perdidas“, de Balzac.

Em abril de 1878 Machado escreveu dois artigos para a revista O Cruzeiro, aonde com sua peculiar elegância na forma, porém violento no conteúdo, afirmou que “O Crime do Padre Amaro” seria um plágio de “O Crime do Padre Mouret“, de Émile Zola e “O Primo Basílio” uma cópia mal feita de “Eugénie Grandet“, de Honoré de Balzac, além de tecer considerações de inconsistência, estilo, estética e puerlilidade dramática sobre a obra de Eça.

Escreveu Machado:

Que o sr. Eça de Queirós é discípulo do autor do Assommoir, ninguém há que o não conheça. O Próprio “Crime do Padre Amaro” é imitação do romance de Zola, “La Faute de L’Abbé Mouret”.

Sobre “O Primo Basílio“, entre outras coisas:

Certo da vitória, o Sr. Eça de Queirós reincidiu no gênero, e trouxe-nos “O Primo Basílio“…A que atribuir a maior aceitação deste livro? Ao próprio fato da reincidência, e, outrossim, ao requinte de certos lances, que destoaram do paladar público…

O Sr. Eça de Queirós não quer ser realista mitigado, mas intenso e completo; e daí vem que o tom carrefado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio. Dado, porém, que a doutrina do Sr. Eça de Queirós fosse verdadeira, ainda assim cumpria não acumular tanto as cores, nem acentuar tanto as linhas; e quem o diz é o próprio chefe da escola, de quem li, há pouco, não sem pasmo, que o perigo do movimento realista é haver quem suponha que o traço grosso é o traço exato.

O erotismo de certas passagens de Eça assustavam Machado, que reclamava do detalhismo com que o escritor português narrava seus cenários. Embora só viesse a publicar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” três anos depois, Machado já dava sinais de suas escolhas literárias, preferindo o ambíguo no lugar do explícito e o psicológico em substituição ao físico.

Por fim, finalizando sua crítica feroz, mas com uma sutil docilidade:

A literatura portuguesa é assaz rica de força e talento para podermos afiançar que este resultado será certo, e que a herança de Garrett se transmitirá intata às mãos de gerações vindouras.

Eça não quis polemizar à época, fez-se aparentemente de desinteressado numa polêmica criada numa remota ex-colônia. Silenciou-se durante 2 anos até lançar a 2ª edição de “O Crime do Padre Amaro“, aonde escreveu uma nota respondendo aos críticos, com sua ironia habitual:

Os críticos inteligentes(epa!) que acusaram “O Crime do Padre Amaro” de ser apenas uma imitação de “Faute de L’Abée Mouret” não tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do sr. Zola, que foi talvez a origem de toda sua glória. A semelhança casual(desconfio desse casual) dos dois títulos induziu-os em erro. Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má-fé cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama duma alma mística, ao “Crime do Padre Amaro” que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província potuguesa.

Apesar de ser muita petulância minha discordar de Machado, enxergo poucas similitudes entre as duas obras, considero tais semelhanças apenas aparentes e superficiais, poderíamos até entrar na velha discussão sobre qual seria o marco divisório que determina o término da “influência” e o começo do “plágio”, mas creio que não é o caso, até porque “O Crime do Padre Amaro” foi escrito em 1871, sendo seus originais disponibilizado apenas a um seleto grupo de amigos do autor em 1872 e finalmente publicado em 1874. Já o “O Crime do Padre Mouret” foi escrito e publicado no ano de 1874.

A polêmica serviu para dividir esses 2 escritores, contemporâneos em vida, realistas, materialistas, pessimistas e acima de tudo geniais. Eça ainda em sua carreira diplomática esteve a ponto de servir no Brasil, acabou preterido por razões políticas. Nunca se encontraram, apesar de Eça ser um cidadão do mundo em contraponto com Machado que jamais tirou seus pés do Rio de Janeiro. Machado era mais afeito à literatura inglesa, já Eça era nitididamente influenciado pelos franceses. Em “Os Maias” é possível perceber bem a influência de Balzac, seja na maneira como descreve toda a hipocrisia e os jogos de poder da burguesia lusitana, seja como descortina um painel da sociedade portuguesa e de sua “fauna”, tal como fez Balzac em toda sua obra, principalmente em “Ilusões Perdidas“.

Machado talvez tenha alcançado um grau de profundidade maior, já Eça era mais sutil e irônico. Por sua vez, Eça era mais direto, ácido, mordaz e sarcástico, não poupando sob nenhum aspecto a sociedade portuguesa e a estupidez humana. A paisagem aonde se passava os romances de Machado não eram descritos tão profundamente como as de Eça. As digressões eram o ponto forte de Machado, optando por refletir sobre todo e qualquer fato, como em “Memórias Póstumas“, em que interrompe a narração para filosofar.

Tiveram suas diferenças e divergências, pontos em comum e contrários. No final da vida o atrito já teria, aparentemente, sido atenuado. Machado chegou a lamentar após o falecimento de Eça que “a morte suprimiu talentos que ainda teriam muito a criar“.


Palpites para este texto:

  1. Excelente narrativa! Apesar das divergências os dois foram bons autores.

  2. Com toda certeza, Fernanda. Os dois foram simplesmente os 2 maiores autores da língua portuguesa. Dois gênios contemporâneos.

  3. Nossa, quanta coincidência. Meus dois autores preferidos da língua portuguesa são exatamente Eça e Machado (sou apaixonada por eles, mas tenho ligeira preferencia por Eça). E os dois livros que você cita são também os mesmos prediletos meus. E pensar que eles mantinham rusgas…haha

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