Crítica: Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo


 

 

Já não era sem tempo que viesse à luz uma biografia com qualidade, equilíbrio e distanciamento crítico sobre Carlos Marighella, um trabalho que estivesse à altura do temor que despertou enquanto desafiava as autoridades vigentes com sua eloquência e suas ações. Coube ao jornalista Mário Magalhães o mérito de realizar tarefa dessa envergadura, sendo necessária um extenuante trabalho de pesquisa que durou 9 anos, incluiu 256 entrevistas, inúmeras viagens, visitas a arquivos secretos até que fosse possível formatação final em 732 páginas de “Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, lançado pela Companhia das Letras.

Não é surpresa que tanto tempo desde sua morte se fizesse necessário para que resultasse em tal trabalho. Fazer um livro sobre alguém que foi o mais mítico dos guerrilheiros brasileiros, ao lado de Carlos Lamarca, obviamente não é das tarefas mais simples. Nesse tipo de situação é preciso lidar com uma série de percalços, a começar pelas fontes primárias. Se de um lado do confronto que se instalou pós-golpe a pesquisa das fontes oficiais e governamentais leva os pesquisadores a se depararem com questões como a manipulação e adulteração de documentos, do outro lado do conflito existe a escassez de documentação, até mesmo por questões de segurança e sobrevivência, seja do próprio biografado, seja de terceiros. Outra questão que tem que ser analisada com bastante critério pelo pesquisador são os relatos, entrevistas e depoimentos, ainda mais se tratando de um tema muito vivo e relativamente recente(historicamente falando) de um conflito que até os dias atuais não está inteiramente cicatrizado, tendo o jornalista que se deparar com questões como as próprias traições do labirinto da memória de quem viveu os fatos, a manipulação dos acontecimentos por questões ideológicas(de ambos os lados) e até à tentativas de autoglorificação. Definitivamente, deve ter sido um trabalho quase insano o que Mário Magalhães se meteu.

Embora muitos não saibam, a biografia de Marighella não está atrelada somente aos episódios de 1964, sendo esse apenas mais um dos inúmeros embates políticos que travou em sua vida, embora tenha sido maior e também seu derradeiro. Conheceu a prisão e a insanidade da tortura muito antes, já em plena ditadura Vargas.  Foi eleito Deputado Federal Constituinte em 1946 e depois cassado(em pleno regime democrático), articulou greves, viveu boa parte de sua vida na clandestinidade antes mesmo do golpe de 64 e escreveu o “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”, um guia que o levou à posteridade e virou um ícone da literatura política dos anos 60 e 70. Acompanhando sua vida frenética, Mário Magalhães acaba indiretamente nos levando de maneira paralela para a própria história do PCB, do qual Marighella foi um dos seus principais membros por longas décadas até meados da década de 60, quando rompeu com o Partidão, então com uma postura “vacilante” para o calor do momento e submissa aos medalhões de Moscou e Havana.  Partiu para a luta armada tornando-se um ícone da resistência, seja no Brasil e até mesmo no exterior. Desvenda com maestria suas motivações, seu pensamento, seus amores e desilusões(seja com Stalin, seja com Prestes e com o próprio PCB)

Mas apesar do livro tratar com riqueza de detalhes todos esses períodos da vida de Marighella, é a partir de sua opção pela luta armada que o livro desperta um maior interesse. Um dos trechos mais interessantes é como Magalhães, através de análise detalhada de provas documentais e depoimentos, consegue traçar com riqueza de detalhes cada pormenor da emboscada armada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury que levou à sua morte. Inclusive, para mim apareceu como certa novidade. Tinha na memória a cena que tinha visto no filme “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton, aonde retrata a militância dos freis dominicanos e suas participações na luta armada. Na cena do filme é bem diferente do que narra Magalhães, que mostra inclusive no livro a farsa que tentou se montar sobre a tocaia armada.

Para quem criou no imaginário das gerações pós 64 a figura do guerrilheiro portando uma metralhadora, assaltando bancos, combatendo no “campo de batalha” o inimigo, o livro desmistifica um pouco essa imagem. Não que ele pessoalmente não tenha participado de operações, mas o Marighella  mostrado no livro pertence aquele tipo de guerrilheiro que era a cabeça pensante por trás das ações de “expropriações”, mesmo que contrariado por não participar das ações. O que na verdade, historicamente, costumam ser os tipos mais perigosos. No caso de Marighella isso é tão verdadeiro que chegou a ser o inimigo nº 1 do regime, o homem a ser pego, a cabeça mais cobiçada pelos núcleos centrais da repressão.

Outro aspecto interessante é que podemos enxergar em determinados momentos o livro como um relativo contraponto da excepcional série de livros  “As Ilusões Armadas” de Elio Gaspari(do qual falamos AQUI). Se no trabalho de Gaspari  foi possível enxergarmos o golpe por dentro do sistema, pelo ponto-de-vista dos militares(e mais diretamente pelas cabeças de Geisel e Golbery), como pensavam, o que os moviam, a mentalidade e os idealismos; em “Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo” é possível fazer a mesma observação por dentro das organizações armadas e suas diversas siglas, mais especificamente a ALN, mas não só. Lógico que esse não era o foco de Magalhães, ao contrário de Gaspari, porém indiretamente teve o mérito de conseguir mapear e detalhar a sistemática e os bastidores de quem estava do outro lado dessa guerra.

Apesar de ter sido lançado há pouco tempo, “Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, já recebeu o importante e prestigiado prêmio da APCA(Associação Paulista dos Críticos de Arte) e também foi singelamente homenageado por este nosso espaço no 1º Prêmio Botequim Cultural aonde lhe conferimos a condição de Melhor Biografia lançada em 2012(AQUI).

Importantes episódios e personagens com envolvimento com a Ditadura Militar, viraram recentemente bons(alguns nem tanto) e importantes(alguns também nem tanto) filmes da recente safra do nosso cinema. O próprio Carlos Lamarca ganhou seu filme(feito na base da raça, numa época difícil do cinema nacional), o episódio do sequestro do embaixador americano também ganhou sua versão(episódio que indiretamente contribuiu para abreviar a vida de Marighella), que acabou no Oscar e mesmo os freis dominicanos ganharam seu filme(já citado aqui). Lendo o livro considero uma falha gravíssima de visão de nosso meio cinematográfico se este livro não virar um filme. Quantos personagens da vida nacional tiveram uma vida tão rica, controversa, aventureira e coerente com seu pensamento quanto Marighella?

Se Marighella foi um herói ou um bandido, é uma mera questão de ponto-de-vista. Pode-se amá-lo ou odiá-lo, ficar indiferente jamais.  Mário Magalhães nos dá com seu livro todos os subsídios necessários para percebermos que sua vida e seus atos são muito mais complexos do que essa visão simplista. Um livro fundamental para quem quer entender toda a evolução do processo político brasileiro dos últimos 80 anos.

UPDATE 27/12/2012 – 22:25

Via Twitter levantei 2 questões com Mário Magalhães:

BC: Como você lidou com a ausência de fontes primárias? As oficiais eram manipuladas, confidenciais e forjadas.   Já as fontes primárias da guerrilha deviam ser inexistentes por questões de segurança e sobrevivência.

MM: Renato, o que não faltou na apuração de “Marighella” foram fontes primárias: 256 entrevistados, documentos em 1ª pessoa etc. Mas sobreviveram milhares de págs. de docs. das organizações armadas. E de correspondências. E a memória dos guerrilheiros…                 

BC: Como lidar e equilibrar nas entrevistas com as armadilhas da memória depois de tanto tempo,  com visões ideológicas, tentativas de auto promoção e exageros do próprio papel desempenhado por certos entrevistados?

MM:  Checando. Uma fonte pró e outra anti-Marighella narraram sua atuação na Câmara em 7/1/1948. Descobri que ele não estava lá…a memória é traiçoeira. Há entrevistados que amplificam o próprio papel e os que, por modéstia, diminuem sua importância.


Palpites para este texto:

  1. Ótima resenha. Também fiquei instigado a conferir a versão que Frei Betto estabelece no seu livro “Batismo de sangue” a respeito da emboscada armada por Fleury para liquidar Marighella.

  2. Muito obrigado, Vitor. Seja bem-vindo! Depois de ler o livro e escrever essa resenha, tive o privilégio de entrevistar Mario Magalhães e ver uma palestra, aonde ele conta como ele conseguiu chegar a essa versão, que me parece ser a verdadeira, da morte do Marighella. Mas lógico que outras versões ainda circulam e circularão por aí, mas essa do Mario me parece ser a mais correta. Abraços

  3. Gostei da definição entre herói ou bandido.Não existe questões fechadas quando o assunto é política.

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