Mary del Priore


 

Neste fim de semana comprei e já comecei a ler “A Carne e o Sangue”, mais um trabalho da historiadora Mary del Priore. De repente me dei conta que é o terceiro livro que compro de Mary del Priore só este ano(e olha que só estamos em abril). Na contra-capa afirma que a autora já lançou mais de 30 livros. Impressiona essa produção em tempo tão curto, aonde a todo momento lemos ou ouvimos falar de um lançamento seu. Seus livros, por dever de ofício, têm que ser fruto de longas pesquisas, mas a quantidade lançada no mercado me preocupa.

Meu questionamento sobre uma possível negligência nas pesquisas de Del Priore se deve pela sensação que tive ao ler “Matar para não morrer, a morte de Euclides da Cunha e a noite sem fim de Dilermando de Assis”. Para começar, quero tecer críticas ao título(e sub-título), que considero piegas(sem falar no tamanho descomunal), além do seu acabamento e da capa que não são visualmente agradáveis. Mas deixando essas futilidades de lado, penso que ainda está para ser escrito o livro definitivo sobre a tragédia da Piedade, que acabou com a morte de Euclides de Cunha. Achei o livro um pouco preguiçoso, senti falta de uma profundidade maior, maiores detalhes sobre o processo que absolveu Dilermando de Assis e as fontes utilizadas já foram exploradas por diversas obras sobre o tema. Terminei com gosto de “quero mais”.

Ao contrário desse, “O Príncipe Maldito”, é um trabalho de pesquisa minucioso, nega tudo que especulei nos parágrafos anteriores. Trouxe à luz a até então obscura e esquecida figura de Pedro Augusto de Saxe e Coburgo, neto de D. Pedro II, que sonhou ser D. Pedro III, tendo como pano de fundo os últimos dias do Império Brasileiro. Um livro que recomendo e que já falei elogiosamente.

O outro livro de Mary que comprei foi “A História do Corpo no Brasil”, mas foi daqueles que comprei, botei na estante e não li ainda. Quanto “A Carne e o Sangue”, ainda estou na página 63 e em breve escreverei um post mais detalhado sobre ele.

Preocupo-me porque sei da capacidade que Mary del Priore possui em encontrar o inexplorado, sempre abordando seus temas de maneira palatável e saborosa ao grande público. Questiono se não deveria diminuir o volume de seus lançamentos e se deter mais tempo nas suas pesquisas. Os questionamentos e incertezas que expus sobre Mary del Priore(de forma ambígua e contraditória de minha parte, reconheço) se dá num momento em que ocorre um embate entre historiadores e jornalistas, sobre se estes últimos teriam direito de entrar na seara dos historiadores.

O debate é interessante e polêmico, principalmente após o enorme êxito comercial de Laurentino Gomes, com seus livros “1808”, “1822” e o ainda inédito e aguardado ansiosamente no mercado editorial “1889”. A princípio tenho me colocado em posição favorável aos jornalistas, gostei muito dos dois livros de Laurentino, assim como li com enorme prazer “A Noite das Grandes Fogueiras” e “1930”, ambos de Domingos Meirelles(que também recebeu uma saraivada de críticas de historiadores), sem contar a série de Eduardo Bueno. Tiveram, em minha opinião, o mérito de popularizar livros sobre história do Brasil atingindo um público mais amplo e sem utilizar o linguajar acadêmico. Mas esse mesmo mundo acadêmico costuma rejeitá-los, alegando o amadorismo desses autores, apontando erros factuais e grosseiros. O alvo principal nesse momento é o escritor espanhol Javier Moro, que está lançando no Brasil “O Império é Você”, sobre Dom Pedro I, que apesar de algum sucesso na Europa tem sofrido severas críticas por aqui. Em recente artigo na Folha de São Paulo, o professor de história moderna da UFF, Ronaldo Vainfas, criticou com veemência o trabalho de Moro: “Seu talento literário é inegável. Mas como definir ‘O Império é Você?’ Respondo: é um romance histórico, não um livro de história. O autor não se escusa de inventar diálogos que nunca ocorreram, intuir sentimentos, presumir fatos. Pesquisa documental? Nenhuma. Nota-se porém, que o escritor leu diversas obras sobre o Imperador e sua época. Salvam-se, assim, a reconstrução do ambiente e a qualidade literária”.

Já que o tema é pesquisa histórica, não posso deixar de citar o trabalho antológico do geógrafo Maurício de Almeida Abreu que ano passado, após 2 décadas de estudos, lançou sua “Geografia Histórica do Rio de Janeiro”, que já nasceu com a condição de um clássico a ser eternizado. Talvez em breve eu escreva sobre ele, mas preciso de coragem.


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