Meu Mundo Caiu


 

Quinta-feira, 1 hora da madrugada: Lá estava eu, chapado no sofá, olhos esbugalhados e em estado de choque. Tudo se acabava, era o fim de um sonho. O trauma era enorme e a dor latente. Por toda a vizinhança eu ouvia o grito ensandecido e de júbilo em sons onomatopéicos, tipo: Mengooooo! Vascoooo!

Era hora de dormir, afinal a vida continua e bem cedo tinha que estar no trabalho. Mas dormir como? A vizinhança comemorava com raro sadismo minha desgraça, ouvia fogos, buzinas, tudo isso por puro deleite de nossa definitiva derrota frente a brava equipe da LDU. Enquanto me revirava na cama, tentando em vão dormir, tomava a 2ª resolução mais importante da minha vida: Jamais! Jamais! Voltarei a assistir uma partida de futebol. Nem da Seleção Brasileira. Não quero mais saber desse atraso de vida chamado futebol.

Tomava essa decisão paralelamente enquanto elocubrava sobre o porquê de assistir 11 homens de pernas de fora correndo atrás de uma bola mexe tanto com o ser humano, que razão faz com que a mera derrota de nosso time nos deixe no fundo do poço, por algo que em nada modificará o rumo de nossas vidas. Por que razão uma partida de futebol é capaz de deixar o mais cordial dos homens num ser cruel, a ponto de ir para a varanda de casa ficar gritando palavras com a mera intenção de espezinhar alguém próximo que sequer conhece. Se esse foi seu objetivo, caros vizinhos, tenho que admitir, seus gestos foram amplamente eficazes em mim, tenho que lhes entregar a taça. Logo eu, que sempre torci para Flamengo, Vasco e Botafogo quando disputam partidas com equipes de fora do Rio, pois em matéria de futebol, assumo que sou bairrista. Não aguentava mais nos últimos anos assisitir mesas redondas de programas gerados em São Paulo avacalhando o futebol carioca. Também torci para o Flamengo nessa Libertadores.

Mas é através do futebol que descobrimos a verdadeira e oculta essência do ser humano. Já vi, soube, presenciei ou participei de cenas inacreditáveis num campo de futebol. Já vi um renomado economista com mestrado em Harvard, chorar feito uma criança após a derrota do seu time e no dia seguinte o ver em Brasília discutindo com o Presidente da República a política econômica do País. Já vi o Presidente de um respeitado Instituto de Pesquisa cobrar equilíbrio de políticos após divulgar resultados de pesquisas e uma semana depois invadir um campo para bater no juiz. Já me flagrei certa vez abraçado com um mendigo desdentado, todo suado que nunca havia visto na vida, após um gol decisivo do Fluminense no Maracanã. Já vi a mais fina das socialites e colunáveis falar os mais cabeludos palavrões num estádio de futebol. O que faz esse esporte conosco? Por que somos capazes de mudar nosso comportamento? Por que o ser humano é capaz dos atos mais animalescos por causa de uma mera bola de futebol? Talvez a psiquiatria já deva ter feitos várias teses sobre o assunto, mas é muito curioso o que faz esse esporte para que nos transformemos de médicos em monstros.

Não quero mais saber disso para mim. Quero distância desse tipo de comportamento e para isso, nada mais coerente tomas essa 2ª decisão mais importante da minha vida. A partir de agora nem abrirei mais os cadernos de esportes. Só quero saber de ler os cadernos de “Economia”, “Mundo”, “2º Caderno”, “Prosa & Verso”, e vá lá… lerei até o “Ela”. Por isso me parece coerente a 2ª decisão mais importante da minha vida. Não serei mais um bruto.

Após uma noite pessimamente dormida, chega “finalmente” a hora de ir ao trabalho. Pela primeira vez nos últimos 20 anos saio de casa sem sequer tocar no jornal, não quero saber por hoje do que acontece no mundo lá fora. Pouco me importa se na véspera libertaram Ingrid Bettancourt. Meu clima está meio Maysa, meio Dolores Durán. Sigo para pegar o carro na garagem enquanto cantarolo “Meu mundo caiu…”. Caminhando pela rua, basta ver duas pessoas juntas e é tiro e queda que o assunto é um só: nosso Waterloo da véspera. Tento me afastar para nada ouvir, assim como me esquivo de qualquer banca de jornal, não quero ver as acachapantes manchetes. Enfim, não quero ouvir, nem falar nada. Quero simplesmente ficar sozinho no mundo.

Chego bem mais cedo que o normal, às 8 horas da manhã já estava no trabalho. O faxineiro está varrendo o salão e não me vê chegar por trás, faz o seu trabalho cantarolando: “E ninguém cala esse chororô…”, sim, o assunto não era com o Botafogo, era conosco. Resolvo não sentar na minha mesa, vou para uma mesa escondida localizada atrás de uma coluna, pois não quero ter que cumprimentar nenhum colega, não quero ouvir nada. No silencio vazio do trabalho, ouço ao longe, no corredor, o segurança cantarolando em tom de visível ironia: “Sou tricolor de coração, sou do clube da 2ª divisão…” Que dia perfeito vai ser esse!!!

Ligo para minha mãe e antes mesmo de me dar bom dia ela já manda de chofre: “E o Fluminense, heim?
– Ah não mãe! Por favor! Me poupe!

Os colegas vão chegando no trabalho, mas felizmente quase 50% deles são sofredores como eu(se o IBOPE fizesse sua pesquisa lá, o Fluminese seria a maior torcida do Brasil). Todos com aspecto taciturno e por incrível que pareça, sem que ninguém combinasse nada, toda vez que nos cruzávamos só dizíamos um para o outro: “- Sem comentários”. Foi a frase mais falada ao longo do dia.

Acaba o expediente, saio mais cedo e resolvo ir com a Adriana ao cinema. Não quero ter a chance nem de ouvir o Jornal Nacional, quero me alienar do mundo. Vou ver uma comédia bem boboca, “Jogo de Amor em Las Vegas”. Pouco ri, não sei se pelo meu espírito de fossa ou se pelo filme ser mesmo ruim.

Assim passei o dia em que o mundo caiu sobre a minha cabeça, cada vez mais convicto da 2ª resolução mais importante da minha vida e principalmente, chateado pelo fato de ter que cancelar meus planos de estar em Yokohama em dezembro. Mas enfim, vida que segue.

Agora só me resta esperar pelo fim de semana, afinal tem Fluzão em campo, preparando a campanha para Yokohama em 2009!!!!


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