Meus 10 Piores Filmes Brasileiros, pós retomada


 

Adoro filme ruim! Quando vejo um não consigo tirar o olho de tanta fascinação que exercem sobre mim. Fazer a relação dos piores filmes brasileiros foi uma tarefa dificílima, muito mais que eleger os Melhores Filmes Brasileiros. Optei por limitar minha seleção apenas a safra pós-retomada. Se fosse fazer os piores de todos os tempos iria precisar de meses e seria impraticável, imaginem só as pérolas que não existem na Boca do Lixo, na Pornochanchada e nos filmes que usufruíram das benesses da Embrafilme. Aviso que não encontrarão filmes da Xuxa ou dos Trapalhões, para mim entram em uma outra categoria hors-concours e seria preguiçoso de minha parte.

Resolvi não classificá-los em ordem de preferência, não conseguiria fazê-los, tenho muito carinho por todos eles. Mas ressalto que não são os 10 piores filmes brasileiros da retomada, são apenas os MEUS 10 piores filmes brasileiros da retomada e refletem apenas minha opinião pessoal. Acrescento que fazer o corte final dos 10 finalistas me foi deveras doloroso, tal meu carinho por esses filmes.

Lógico que não os vi todos no cinema, uma parte assisti em vídeo e DVD, mas uma outra parte considerável eu tive o privilégio de assistir no Canal Brasil. O que seria de mim sem o Canal Brasil, também conhecido pela classe artística como “meu passado me condena”.

Por fim, temos que ressaltar o talento desses cineastas que afinal de contas tiveram a lábia de conseguir algum incauto para acreditar nos seus projetos maravilhosos e colocar dinheiro para que hoje se tornassem eternos.

CINDERELA BAHIANA
Direção: Conrado Sanchez – 1998
Não! Não foi erro de ortografia meu, a cinderela é “bahiana”, com “H” mesmo. Tentando aproveitar aquela febre do axé, alguém teve a brilhante ideia de criar um filme para ser estrelado por Carla Perez, no auge do seu “sucesso”. O resultado é esse maravilhoso trash movie, que até hoje faz com que Lázaro Ramos aguente as gozações públicas que Wagner Moura lhe faz sobre sua participação nesse filme. Um filme que transcende qualquer capacidade de avaliação. O roteiro é bastante original: moça pobre do interior da Bahia consegue superar a pobreza transformando-se em dançarina de grupo de axé. Possui um final antológico, um dos mais bizarros que eu já tenha visto numa tela de cinema, com Carla descendo do carro inteiramente indignada(apesar de uma expressão facial incondizente com tal situação), diante de pedintes na estrada, começa a fazer um discurso inflamado contra o trabalho infantil e se encerra com todos dançando alegremente “segura o tchan, amarra o tcham, segura o tcham, tcham, tcham, tcham tcham”…

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 CONCERTO CAMPESTRE 
Direção: Henrique Freitas Lima – 2004
Eu adoro ver entrevistas de Henrique Freitas Lima. Recordo-me de quando lançou seu filme anterior “Lua de Outubro” na Argentina, ele deu uma entrevista no jornal “El Clarín” em que afirmava que esse filme tinha sido visto por mais de 1 milhão de pessoas no Brasil. Freitas Lima é um fanfarrão! O filme estreou no Rio em apenas 1 mísera e micro sala. Em São Paulo não foi muito diferente. Tentei entender esse 1 milhão de pessoas e matei a charada: o filme havia passado no Canal Brasil , da Net, que na época tinha uma rede de assinantes de uns2/3 milhões de pessoas, ou seja, 1 em cada 3 pessoas estava assistindo o Canal Brasil naquele horário segundo suas contas(será que o Canal Brasil sabe disso?). Quando “Concerto Campestre” era apenas um projeto, deu uma entrevista em que revelava sua hesitação se contratava para protagonizar Antonio Banderas ou Javier Bardem. E no final das contas o papel acabou com…Leonardo Vieira. Fazendo par romântico com…huummmm….Samara Filippo. Quanto ao filme, como disse na época a revista “Contra Campo”: “o final deste filme é um dos mais esdrúxulos de todos os tempos, seja no cinema brasileiro ou onde mais for”. Imperdível, Leonardo Vieira e Samara Filippo representando as “legítimas tradições gauchescas” é algo inesquecível, mas o que torna o filme mais “engraçado” é que ele se leva a série e possui até uma certa dose de pretensão artística.

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16060
Direção: Vinícius Mainardi – 1995
Os irmãos Mainardi(Diogo e Vinícius) têm por hábito detonar e avacalhar tudo que acontece no Brasil. Aqui nada presta, seja nosso cinema, nossa literatura, nossa música, nossa gente, nossas cidades e por aí vai. Como disse Diogo certa vez, “se o Brasil não existisse o mundo não ia sentir a menor falta”. As sumidades, em contrapartida, resolveram dar sua contribuição para melhorar nosso país e nos deram esse regalo. Não ficaram satisfeitos e produziram anos depois outro filme inesquecível “Alma Mater”, quase tão bom(digo, ruim) quanto. Parafraseando Diego: “se ‘16060’ não existisse o mundo não ia sentir a menor falta”. No seu lançamento “16060” ganhou até rasgados elogios de um grande amigo da dupla, Paulo Francis. E ainda tinha gente que dizia que Paulo Francis não tinha um bom coração.

Obs: Não consegui incorporar video do filme.
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DOM
Direção: Moacyr Góes – 2003
Moacyr Góes é um fenômeno. Era um nome respeitado do teatro brasileiro e começou a achar que esse universo lhe estava limitado e necessitava expandir seus horizontes. Entre 2003 e 2004 dirigiu nada mais, nada menos que 6 filmes!!!! Creio que isso é único. O problema é que filmes!!!!  Não é preconceito porque Góes dirigiu no período igualmente filmes de Xuxa e Renato Aragão. Roberto Farias, por exemplo, também dirigiu os Trapalhões e ninguém o deixou de respeitar por causa disso. Em “Dom”, Góes adapta para os tempos atuais o clássico da literatura “Dom Casmurro”. O resultado é constrangedor e o trio principal é formado por Marcos Palmeira, Maria Fernanda Cândido e Bruno Garcia. Outra característica de Moacyr Góes é sempre encaixar seu irmão Leon em algum papel, um dos maiores canastrões do cinema nacional. Machado jamais imaginou que seu Bentinho fosse acabar assim.

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O EFEITO ILHA
Direção: Luiz Alberto Pereira – 1994
Certa vez, assisti uma entrevista de Luiz Alberto Pereira em que teve a discrepância de comentar que “O Efeito Ilha” havia sido plagiado pelos americanos. Ah! O filme que é resultante desse plágio é “O Show de Truman”, de Peter Weir. Eu adoro os cineastas brasileiros, são uns pândegos! A história de “O Efeito Ilha”: um técnico de televisão é vítima de um estranho fenômeno, depois de um acidente, sua imagem ocupa todos os canais de televisão durante 24 horas por dia. O que deixa o filme ainda mais surreal é o seu protagonista, o tal técnico é interpretado pelo próprio diretor.

Para sorte de Luiz Alberto Pereira, não consegui incorporar video dessa obra de arte.
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GARRINCHA, A ESTRELA SOLITÁRIA
Direção: Milton Alencar – 2003
Se eu fosse classificar em ordem de preferência, acho que esse seria o primeiro colocado. Esse filme é uma adaptação da biografia escrita por Ruy Castro sobre Garrincha. Coitado de Ruy Castro, ele não merecia isso! A primeira cena é constrangedora, André Gonçalves(interpretando nessa cena um Garrinhcha já velho), casado com Marília Pêra(Meu Deus!  André Gonçalves casado com Marília Pêra!!!!) andando mancando por um corredor escuro. Adriana, assistindo o filme ao meu lado perguntou: “Ele tá interpretando o filho do Garrincha?” André Gonçalves interpreta o craque durante três décadas sem que ocorra nenhuma transformação facial ou corporal. A maquiagem é tosca, os cenários pobres, tem cenas que se passariam no sambódromo e que nota-se claramente que é um estúdio(dá até para ver o fundo  preto do estúdio).  O filme é tosco, tosco, tosco. Mas eu adoooro, se passar 20 vezes no Canal Brasil eu assisto 20 vezes, não consigo tirar o olho.

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VIVA SAPATO!
Direção: Luiz Carlos Lacerda – 2003
Luiz Carlos Lacerda reclamou muito que foi censurado pelo governo cubano enquanto rodava este filme. Para você ver, caro leitor, nem sempre a censura é uma coisa ruim.  Mas Lacerda tem suas qualidades, imagina a lábia que gastou para convencer o ator espanhol Jorge Sanz a entrar nessa roubada. Conta a história de uma linda dançarina cubana que abandona um casamento fracassado para abrir um restaurante com sua tia brasileira. Porém, ao invés do prometido dinheiro da tia, recebe apenas um par de sapatos de dança. Desesperada e sem dinheiro, vende o sapato por míseros trocados, porém descobre que o dinheiro estava dentro do sapato e então começa sua busca frenética para reavê-lo. O filme se passa entre o Rio de Janeiro e uma Havana fake(filmada aqui mesmo), com exceção de umas cenas adicionais rodadas escondidas em Havana. Atuações e situações canhestras, com direito a muita salsa, macumba, pai de santo, Lacerda ao invés de fazer um filme popular, fez uma chanchada de 5ª categoria. E ainda é professor de cinema!

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Ó PAI Ó
Direção: Monique Gardenberg – 2007
Depois de nos brindar com “Jenipapo”, Monique Gardenberg voltou em grande forma com esse “Ó Pai Ó”. Não sei nem pronunciar direito o título. Metido a absorver a cultura popular soteropolitana, ao terminar a gente não sabe bem sobre o que o filme se propôs a dizer, tudo é non sense em estado puro. Tem daqueles finais apoteoticamente constrangedores, músicas e coreografias que aparecem do nada e tem até aqueles tradicionais merchandisings colocados de maneira esdrúxula. Filme fascinante, mais um daqueles que é impossível tirar os olhos de fascinação.

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A HORA MARCADA
Direção: Marcelo Taranto – 2000
Marcelo Taranto faz aquela linha diretor-gênio: dirige, escreve roteiro, produz, edita e faz até a trilha sonora do seu filme. Resultado: “A Hora Marcada“. Tem até bom domínio da técnica cinematográfica, mas não sabe o que filmar. Taranto parece que quis fazer “o grande filme brasileiro”, mas foi a sua pretensão que acabou por derrubar o filme, fazendo seu resultado ser constrangedor. Os diálogos pretenso-profundos acabam ficando risíveis, há até citações de Shakespeare, os atores sofrem daquele mal que os americanos chamam de “overacting”, há falhas grosseiras na maquiagem e o final “tarantinesco” não colabora. Se Marcelo Taranto resolver fazer um filme despretensioso, pode até fazer um bom filme.

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LEO E BIA
 Direção: Oswaldo Montenegro – 2010
O sinônimo da palavra verborragia é “Leo e Bia”. Nesse filme, um bando de jovens num único cenário(numa espécie de “Dogville” tupiniquim) falam, falam, falam, falam e não dizem nada. Parece que Oswaldo Montenegro não quer nenhuma frase banal, toda frase tem que ser apoteótica, cada frase tem que ser transformadora, a partir daí citações, teorias teatrais vão abundando com frases-clichês tipo, “o povo é burro” e nada pode ser gratuito e corriqueiro . Cada frase dita tem que ser transformadora.  Em seu fim de semana de estréia, conseguiu levar 206 incautos ao cinema. Com aquele seu jeitão de riponga aposentado pelo INSS, Oswaldo Montenegro expõe suas verdades e sua “filosofia”, apoiando seu longo blá blá blá com uma dúzia de canções em homenagem à amizade. Sim, temos música para aliviar tanto falatório. Ah! Mas se pelo menos Oswaldo Montenegro soubesse fazer boa música.


Palpites para este texto:

  1. Regina A. Mello -

    Adorei as cronicas meus 10 piores filmes brasileiros, depois de um dia negro, nada melhor do que ler as suas cronicas, obrigado, parabéns

  2. Regina, mais do que ler, assistir esses filmes é algo muito divertido. Quando passa na TV não perco por nada.

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