Minha Aposentadoria na Provence


 

Nesta semana vi “Um Bom Ano”, filme leve, dirigido por Ridley Scott e estrelado por Russell Crowe. Não sou aquilo que se pode chamar de um admirador de Ridley Scott, nada contra, e muito menos de Russell Crowe.Trata-se de um simpático e despretensioso filme, quase todo passando na região da Provence, adaptado de um livro de Peter Mayle. A verdadeira razão para ver tal filme embute um desejo e serve para aguçar meu senso de observação ao colocar olhos clínicos na região que escolhi para viver o fim dos meus dias, após minha aposentadoria.

Peter Mayle ficou notabilizado por escrever uma série de livros relatando experiências pessoais desde que largou sua carreira na publicidade para se “transformar num estrangeiro” em Bonnieux, uma pitoresca aldeia medieval encravada nas montanhas da Provence. Muitos acusam Peter Mayle de ser superficial, já os franceses e em especial os nativos da Provence torcem um pouco o nariz, talvez com certa razão, por achar que ele os retrata de maneira um tanto caricatural e estereotipada. Sim, existem razões para se ter essa visão crítica de Mayle, mas devo dizer que sempre li com um enorme prazer seus livros, em especial “Um Ano na Provence” e devo confessar que Mayle tem uma pequena parcela de culpa na minha decisão. A descrição que costuma fazer das paisagens, dos locais, da comida e do estilo de vida provençal sempre me deixaram com um enorme desejo de viver naquele espaço geográfico. Acabo me imaginando passeando pelas montanhas Lubéron, entre seus cedros, pinheiros e carvalhos diante do sol de verão, observando de um lado os Alpes Baixos e do outro, o Mediterrâneo.

Mas não foi Mayle o principal responsável , digamos que foi apenas a gota d’água que necessitava. Passei esses últimos anos sonhando estar em Bonnieux, com sua paisagem dominada por uma igreja meio romana, meio gótica, sentado numa mesa do restaurante “Le Fournil”, localizado dentro de uma caverna adaptada, com seu belo terraço, fontes e toldos coloridos lembrando o clima da Cote d’Azur.

Quando comprar minha casa provençal, que vista do alto aparecerá quase invisível por entre um bosque repleto de oliveiras e seus 50 hectares de vinhedos. Sentado na mesa, após uma bela refeição ao ar livre, apreciarei as montanhas ao meu redor, sem necessitar pensar no ontem e nem no amanhã, observando ao longe o velho pastor levando suas ovelhas pela estrada de terra batida, com sua peculiar noção de tempo e de espaço.

Com toda a luminosidade que tanto encantou os impressionistas, as cores de Cézanne me virão à mente, e que ali perto, em Aix-en- Provence conseguiu imprimir na tela a mais perfeita adequação entre cor e forma num lirismo impresso em obras de pinceladas desorganizadas e em cores puras, com manchas sobrepostas. Cézanne que ali retratou com rara beleza e poesia a montanha Saint-Victoire, que mesmo desguarnecida de árvores, elevá-se majestosa, em cores cinza, azul ou bege, como se estivesse na ponta do céu. Ainda há Renoir, no seu tênue limite entre o sonho e a realidade, com seus bucólicos piqueniques, aonde não podem faltar um bom vinho rosé da Provence.

Ao fim da tarde, já com o início de um crepúsculo que aos pouquinhos vai se aproximando, com uma brisa acariciando meu rosto, sentarei na minha rede e com toda a paz do mundo terei todo o tempo do mundo para reler os relatos de Giono sobre sua Manosque natal ou quem sabe Pagnol falando de Aubagne. Giono descrevendo de maneira lenta toda a atmosfera e paisagens de Manosque em tempos quase medievais e quem sabe se a preguiça deixar, numa lambreta eu vá visitá-la para observar suas vielas, suas fontes e principalmente seus telhados “manchados por grandes placas de musgos dourados” e imaginar os locais por onde Ângelo passou em “Le Hussard Sur le Toit”, com todo cenário de Aix-em-Provence e das terras dos Alpes de Haute-Provence, aonde na solidão dos altos platôs, até mesmo na neve insolente das alturas, esconde seus heróis e assassinos. Posteriormente, lerei Pagnol, invocando o passado da região, relatando com extrema delicadeza, ternura e humor, os mais prosaicos e cotidianos hábitos, espertezas e velhacarias do homem provençal no seu contato com a terra, ali aonde Ugolin e Papet travaram uma guerra clandestina com o recém-chegado Jean de Florette, bloqueando secretamente a fonte que poderia irrigar as terras férteis de Florette, para poderem se apoderar delas. Vão arruinando de maneira lenta e quase sádica tanto das plantações de cravos quanto da saúde de Florette.

À noite, à beira da lareira aproveitarei a mais perfeita música local, aonde André Peyron cantará o céu provençal na sua linda canção “La Grande Ourse”. Um dia perfeito para uma tranqüila noite de sono.

Sonhar é simples e de graça, basta ganhar na loteria e arrumar as malas. Mas sempre tenho um plano B, caso meu projeto provençal dê com os burros n’água. Me contento com uma aposentadoria na Toscana, bastaria algumas adaptações, trocando Cézanne por Giotto, Pagnol por Petrarca e André Peyron por Ferrucio Busoni. Se ainda assim não der, fico cá por Itaipava


Palpites para este texto:

  1. ronaldo castro e silva -

    Tive a oportunidade de “perambular” por esta região, na primavera, e, faltou CUCURON e LOURMARIN. Sempre quero voltar por esta região! Como pensa, ao retirar-se, viver nesta região.Preciso ter uma idéia, para poder iniciar meu projeto de aposentadoria. Sou médico em Porto Alegre, RS, e quase lá, com um pé na aposentadoria. Minha cota de serviço, e filhos criados e independentes, portanto aceito idéias. Não sou muito prático quanto ao face. portanto agradeceria algum comentário pelo WHATS: 51 91994060.

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