Crítica: Nada Será Como Antes – Milton Nascimento por Charles Möeller e Cláudio Botelho


 


Que presente melhor para o 70º aniversário de Milton Nascimento que ter sua obra revisitada pela dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, afinal, é cair no lugar comum dizer que um espetáculo de Möeller e Botelho é sinônimo de qualidade, assim como a obra de Milton também o é.

Este excelente espetáculo, intitulado “Nada Será Como Antes”, estreou nesta quinta-feira dia 9 no Theatro Net Rio(o tradicionalíssimo Teatro Teresa Rachel) e tive o privilégio de assisti-lo no dia seguinte, sexta-feira dia 10.

Como bem declarou Möeller durante a gravação dos ensaios pela Evoé Produções:

É uma obra muito linda. A obra do Milton é uma obra que é um prato cheio para qualquer diretor, principalmente um diretor de teatro musical porque ela tem uma palavra muito forte. As canções do Milton se defendem já como se fosse hinos, a palavra é muito simples, ela é muito direta, as imagens são muito precisas e a gente tem essa música interna dentro do coração da gente desde que a gente nasceu. Então ao mesmo tempo que é fácil porque a gente conhece a obra, a gente ama a obra, é difícil porque você tem que reler a obra o tempo inteiro para não ficar um espetáculo cover. É importante a gente descontruir para construir novamente.”

A princípio pode ocorrer uma associação imediata em relação a concepção com outro espetáculo de Möeller e Botelho, “Beatles num Céu de Diamantes”, pois é um espetáculo menor(não na qualidade, mas no tamanho da produção, menos de R$ 1 milhão de orçamento), revisitando a obra de um artista específico(aqui Milton, naquele os Beatles), cenários e figurinos mais simples e com 8 atores-cantores em cena. Mas são completamente diferentes sim nas suas concepções.

Sobre isso, Möeller comenta igualmente na gravação da Evoé Produções:

“Nos últimos anos a gente tem feito só grandes espetáculos, estava na hora da gente voltar pro nada de novo e o nada também é complicado. Às vezes você acaba fazendo espetáculos tão gigantes que aquele tamanho acaba fazendo parte do seu cotidiano e quando você volta pro espetáculo você tem conta com o ator, com o intérprete, quase sem cenário, quase sem figurino. É legal, é um exercício também. Eu não acho nenhum mais profundo. É um exercício de você olhar por uma outra ótica. A gente sempre estar se reinventando é fundamental nessa altura da vida”.

O Elenco é composto por Claudio Lins, Marya Bravo, Tatih Kohler, Estrela Blanco, Pedro Sol, Jules Vandystadt, Jonas Hammar, Wladimir Pinheiro, Sergio Dalcin e Cassia Raquel, acompanhados dos músicos Lui Coimbra, Whatson Cardozo, Pedro Aune e Délia Fischer. O cenário é bastante interessante e funcional, um típico casarão do interior mineiro, decorada com móveis, objetos e utensílios da fazenda, remetendo à uma atmosfera barroca, por onde o elenco se movimenta e se desenvolve, entrando e saindo pelos seus portões, pórticos e varandas, sob enormes janelões no andar superior por onde invade a parte da iluminação para ensolarar o ambiente criativo ali instalado para apresentar a obra de Milton.

“Imaginamos uma casa de criação, um clube da esquina, onde um grupo de pessoas vai juntando instrumentos e interpretações para salvar a casa do abandono”.

Disse Möeller à Folha de São Paulo.

São 48 músicas apresentadas durante aproximadamente 1h30/1h40 minutos, divididas basicamente em 4 segmentos, em 4 estações. No segmento verão, por exemplo, há mais um quê de amor, sensualidade, se utilizando das formas circulares, orbitais, aonde estão algumas das canções mais animadas como “Bola de Meia, Bola de Gude” e “Aqui é o País do Futebol”. Na primavera as linhas são retas e diagonais com “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Nuvem Cigana” e “Vento Solar”. “Caçador de Mim” e “Encontros e Despedidas”, por exemplo, entram no outono. Por fim, no inverno entra canções como “Nada Será Como Antes” e “Canto Latino”.

A dinâmica é permanente, com um elenco excepcional aproveitando cada espaço e cada objeto do cenário e com revezamento constante das posições e funções, quando os cantores assumem a posição dos músicos que os acompanha e os músicos tomam o lugar do elenco, como ocorre com o excepcional Lui Coimbra(que além de tocar como um Deus, mostrou que canta muito bem), além a pianista Délia Fischer, que tem um dos momentos mais lindos do espetáculo quando canta “Clube da Esquina nº 2”, momento, por exemplo, que Cláudio Lins assume o piano.

Em tempos de Olímpiadas o elenco teria tirado nota 10 com “Bola de Meia, Bola de Gude” se tivesse representado o Brasil na ginástica ritmica, jogando uma bola de meia de um para o outro, no ritmo da música, enquanto eu esperava ansiosamente para ver quem ia deixar a bola cair no chão. Mas foram perfeitos terminando o número com a bola na mão.

Na interpretação de “Maria, Maria”, por Marya Bravo, quando se esperava um número para cima, ela começa lenta, pequena, deixando o espectador à espera de a qualquer momento ver a música crescer e ganhar ritmo, mas ela segue até o final assim, introspectiva. Foge do óbvio e do lugar comum que seria esperado pela música.

Mas o momento que mais gostei foi em “Amor de Índio”, quando instalados de maneira aconchegante e despojada, descalços, jeans surrado, num sofá decorado com temas religiosos, os irmãos(irmãos de verdade mesmo, netos de Billy Blanco) Estrela Blanco e Pedro Sol soltam os lindos versos:

Tudo que move é sagrado/E remove as montanhas/Com todo o cuidado/Meu amor/Enquanto a chama arder/Todo dia te ver passar/Tudo viver a teu lado/Com arco da promessa/Do azul pintado/Pra durar

Milton é um sujeito iluminado, teve letristas geniais para fazer versos como estes acima para suas não menos geniais músicas. Iluminado também porque poucos podem ganhar um presente como esse de aniversário, um espetáculo igualmente genial, mais um de Möeller e Botelho, que com “Nada Será como Antes”, inicia uma nova parceria da dupla com a Geo Eventos, que produziu o belo espetáculo que pude assistir.

Mas a melhor prova da qualidade desse espetáculo veio da Adriana, que sofre de anglofilia desvairada e que desdenha toda a vez que coloco o rádio do carro na MPB FM. Ao final do espetáculo me disse que chorou de emoção. Möeller e Botelho não têm noção do tamanho do elogio que é isso.

* Fotos de divugação


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