Crítica: No


 

 

O cinema chileno forma hoje juntamente com o cinema argentino, o que de melhor se produz em cinema na América Latina, diferenciando-se basicamente na quantidade de filmes produzidos, que na Argentina é superior. Mas como nem sempre quantidade quer dizer qualidade, Chile e Argentina colocam o cinema atual feito no Brasil numa posição bem inferior(embora, provavelmente, produzamos maior quantidade que ambos). Acaba de chegar aos cinemas brasileiros mais um exemplo do bom cinema que está sendo feito no Chile, trata-se de “No”, novo filme de Pablo Larraín, que completa assim sua trilogia sobre a herança da ditadura militar que durou 15 anos no Chile.

Se com “Tony Manero”, Larraín falou de repressão e loucura, retratando um frio ladrão e assassino fascinado pelo famoso personagem vivido por John Travolta em “Os Embalos de Sábado à Noite”, em “Post Mortem” retratou a onda de assassinatos que ocorreu no Chile durante a vigência do Golpe de Estado e dos primeiros dias que se seguiram após sua concretização. Já em “No” aborda a campanha de plebiscito que decidiria entre a continuidade do mandato de Pinochet ou a entrega do poder às forças de oposição.

Em 1988, pressionado pela comunidade internacional após 15 anos de uma brutal ditadura, o governo do general Pinochet promove um plebiscito para lhe dar aval popular para a continuidade de seu governo. Dada como certa a derrota para o governo, a oposição, dividida em várias facções e correntes , pede apoio em sua campanha pelo “No”(Não) ao publicitário René Saavedra(Gael García Bernal), um filho de exilado político, com tendências esquerdistas, mas com  uma visão mais pragmática e menos ideológica que os principais membros da oposição. Saavedra procura imprimir à campanha um tom mais leve, descontraído e menos pesado, contrariando seus pares que queriam aproveitar uma rara janela de visibilidade para a sociedade chilena para fazer basicamente denuncismo. Até então certo da vitória, o governo é surpreendido pela força e popularidade da campanha da oposição. Tenta então utilizar da força e brutalidade para intimidar os concorrentes.

Trabalhando permanentemente com uma câmera nervosa, na mão, com luz natural, o mínimo de artifícios, Larraín consegue dar veracidade ao roteiro que desenvolve ao longo do filme, sendo muito feliz na mescla que faz de imagens de arquivo e utilizando-se de trechos da campanha real que foi vinculada à época, conseguindo manter uma unidade estética entre o material que filmou e essas imagens. Para isso usou até equipamentos do período na cenas que filmou. Até o velho U-Matic, que na época eu achava a coisa mais moderna do mundo, foi lembrado.

Para dar vida ao publicitário René Saavedra, Larraín contou com o ótimo Gael García Bernal. Bernal é um ator que tem feito uma sólida e criteriosíssima carreira, sabendo escolher seus trabalhos mais pelos aspectos artísticos do que pelos comerciais. Poderia ter se vendido fácil ao sistema após o estrondoso sucesso de “Y Tu Mamán También”(Diego Luna o fez, e alguém sabe por onde anda Diego Luna?), mas ao contrário disso, fez filmes com ótimos diretores independente de onde eles são, seja com Walter Salles, Fernando Meirelles, Hector Babenco, Pedro Almodovar, Alejando Gonzalez Iñarritu, Fito Paez e agora Pablo Larraín, fazendo do território íbero-americano um só país para sua carreira.

Participante da Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes e exibido na Mostra de São Paulo, “No” acabou de passar em mais uma peneira em direção a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, peneira essa que já deixou para trás filmes do quilate do argentino “Infância Clandestina”, tão bom quanto este(talvez até um pouquinho melhor que “No“). Está entre os 9 filmes que tentam as 5 vagas. Espero que consiga sua indicação, já que é um filme que tem todos os méritos para isso.


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