Nos Bastidores do Teatro Infantil – Série de Entrevistas: 10.Gustavo Bicalho


 

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O Botequim Cultural publica hoje a 10ª entrevista da série “Nos Bastidores do Teatro Infantil”, com o autor e diretor de teatro Gustavo Bicalho.

Gustavo BicalhoGustavo Bicalho é o responsável por alguns dos mais interessantes espetáculos infantis apresentados na cidade nos últimos anos. Em parceria com Henrique Gonçalves, foi o grande vencedor da última edição do Prêmio Zilka Sallaberry, talvez o mais importante o teatro infantil, com o espetáculo “O Gigante Egoísta“.

Neste fim de semana, Gustavo Bicalho reestreia o espetáculo “O Príncipe que Tinha Rosto” no teatro Glaucio Gill, novamente em parceria com Henrique Gonçalves, conforme pode ser visto AQUI, peça que já foi apresentada em diversas cidades do Brasil e em 2009 foi igualmente premiada no Zilka Sallaberry nas categorias de melhor figurino e iluminação.

BC: Qual a grande dificuldade encontrada para viabilizar um espetáculo infantil?

GB: Patrocínio privado.
Por incrível que pareça, mesmo sendo o mercado infanto-juvenil muito mais sólido que o mercado adulto, as empresas ainda não conseguem perceber o real alcance que esse produto cultural tem.  Continua a mesma política de patrocinar quem já está na mídia, muitas vezes sem a preocupação com a qualidade do projeto.  Para grupos e Cias., resta o caminho dos editais públicos, sendo que mesmo estes já estão bastante concorridos, o que estreita, cada vez mais, o caminho para grupos iniciantes.
A Cia. tem 14 espetáculos encenados, mas apenas 2 deles tiveram patrocínio privado. A maioria se viabiliza pelos editais públicos, que, hoje, exercem a política da pulverização das verbas, o que acho certo, uma vez que aumenta o número de produções que conseguem se viabilizar.  Mas por outro lado, o valor dos patrocínios se torna cada vez menor e a atividade pouco sustentável.
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BC: Existe uma facilidade maior de se viabilizar uma adaptação de um conto de fadas conhecido em detrimento de um texto original? Ou o que importa mesmo é a qualidade do projeto?

GB: Cada projeto é único e tem suas especificidades. O texto conhecido, seja ele um conto ou um romance, já tem uma estrutura dramática definida. O grande desafio das adaptações está em como sintetizar essa narrativa, sem perder o espírito do original.
Já um texto original demanda a concepção de toda essa estrutura dramática. Pro escritor, é preciso um tempo maior de pesquisa, uma vez que você precisa conceber todos os personagens, pensar na linha narrativa, na sequência das cenas etc.
Ambos os trabalhos são prazerosos. O importante está em escolher uma boa história que tenha potencial dramático.
Um problema recorrente no teatro infanto-juvenil está exatamente na dramaturgia. Alguns autores acham que a criança só consegue entender o que é simples, enquanto na verdade, a criança consegue elaborar um mundo muito mais complexo que nós adultos, uma vez que suas estruturas neurais ainda não estão condicionadas como as nossas. Por isso dizemos que as crianças são mais imaginativas do que os adultos. O fato é que as crianças não tomam as coisas como “certas”. Ela está muito mais aberta à experimentação do que nós, adultos.
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A Lenda do Príncipe que tinha rosto - por Jackeline Nigri-01

A Lenda do Príncipe Que Tinha Rosto

BC: Ao contrário do que se pensa, teatro infantil não tem nada de amador. Existe um mercado de atores, diretores, autores que trabalham nesse segmento. Você não acha que existe um enorme potencial nesse mercado que ainda não foi atingido?

GB: Essa pergunta é muito boa, porque ela induz uma reflexão do que seja esse mercado e como ele tem que ser encarado. Muitos atores usam o teatro infantil como uma “porta de entrada” para o teatro adulto. O próprio mercado enxerga o infantil como um gênero menor. Infelizmente, isso ainda é um fato.
Quando alguém do público comenta que os espetáculos da Artesanal Cia. de Teatro não são espetáculos para criança eu me questiono: Por quê? Quem disse isso?
Acho que nós adultos é que temos medo em ser criança. Mas o fato é que já fomos crianças um dia e ela continua dentro de nós, como parte da nossa identidade. Ignorá-la, quando ficamos mais velhos, só resulta em adultos reprimidos e chatos.
Essa é a questão que eu exploro em “O Gigante Egoísta” (espetáculo mais recente da Cia.). Na peça, o Gigante não tem medo de viver sua velhice com felicidade. Ele não está a espera da morte, pois sabe que a próxima primavera vai chegar e ele vai estar lá para tomar conta de suas flores.
Mas voltando a questão do mercado, ele existe e é potencialmente forte. Não deveria ser tratado como gênero menor.
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BC: Dentro do teatro, qual a grande dificuldade em montar um espetáculo infantil? Existe uma preocupação na montagem dos cenários para não atrapalhar o espetáculo principal da noite?

GB: A gente não tem essa preocupação. Para nós, se não tivermos a estrutura necessária para apresentar um bom espetáculo, não apresentamos. Já aconteceu de cancelarmos uma temporada porque o espetáculo da noite não pôde desmontar parte do cenário.
Mas de fato a maioria dos teatros têm preocupação em servir bem aos espetáculos em cartaz, independentemente do gênero. Nem sempre isso é possível e aí cabe ao produtor conversar com a administração do teatro e ver se é tecnicamente viável se apresentar ou não.
Nossa experiência tem mostrado que isso é mais uma questão organizacional. Alguns espetáculos em cartaz têm cenários de difícil remoção, é compreensível que nem sempre seja possível compartilhar o espaço cênico.
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BC: “A Lenda do Príncipe que Tinha Rosto” estreou em 2009 e já foi encenada em várias cidades do Brasil. Depois de tantas apresentações ainda é possível renovar expectativas sobre mais uma temporada? O que vocês esperam dessa temporada no Gláucio Gill?

GB: Não sabemos. Ainda mais quando temos a Copa do Mundo acontecendo ao mesmo tempo. Mas “A lenda do Príncipe que tinha rosto” sempre surpreende. Vamos torcer para que o público consiga se dividir entre os jogos e o teatro.
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BC: Em “A Lenda do Príncipe que Tinha Rosto” vocês apostaram na ousadia narrativa ao abrir mão do texto procurando dar ênfase no trabalho corporal dos atores. Como tem sido a receptividade do público à proposta de vocês?

GB: A aceitação do espetáculo é surpreendente. Por isso afirmo que o público é muito mais aberto do que tendemos acreditar.
Acho que o medo da aceitação ou não do espetáculo faz parte da vida do artista. Mesmo quando um espetáculo é vitorioso, basta uma pequena crítica, para que ela se transforme em um “monstro roendo nossas entranhas”.  Temos que ter consciência de que a arte é sempre subjetiva e chega de forma diferente em cada uma das pessoas. Uns vão gostar, outros não, o que é natural.
Mas o que posso afirmar é que “A lenda do Príncipe que tinha rosto” é um espetáculo muito bem aceito e já vitorioso. É muito bom ver como parte do público vem falar com os atores ao fim do espetáculo para dizer o como eles se identificaram com a história.
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BC: No espetáculo vocês trabalham com diversas estéticas, passeando pelo universo gótico, pelo surrealismo e até mesmo pelo universo muito particular de Tim Burton. Gostaria que você falasse sobre essas influências na concepção estética do espetáculo.

GB:  Quando surgiu a ideia do espetáculo, de cara percebemos que ele seria gótico. A escolha pelos figurinos em tons de preto e cinza, o cenário monocromático, as projeções em preto e branco, tudo isso foram escolhas estéticas induzidas pela história. No entanto há um pequeno prólogo no espetáculo, que não pertence ao universo narrativo da peça e que teve influência da pintura surrealista de René Matisse. Esse prólogo tem a mesma função que as “aberturas” de óperas e ballets, quando a música é usada para introduzir um tema que vai se repetir ao longo da obra. Como todas as músicas usadas no espetáculo são do Prokofiev, esse prólogo serve para apresentar um “leitmotiv”  estético que vai se repetir durante todo o espetáculo.
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BC: Você divide a direção artística com o Henrique Gonçalves, com quem já trabalhou em outros espetáculos. Na prática, como se dá a divisão do trabalho entre vocês?

GB: O Henrique é formado em Artes Cênicas. Eu sou formado em Comunicação e Cinema. Eu sempre digo que o que nos diferencia é o que nos completa. Eu tenho uma visão mais “macroscópica” do espetáculo. Eu sempre o vejo como um todo. Já o Henrique é mais atento aos detalhes. Ele consegue perceber um botão mal abotoado, um objeto fora do lugar, uma mão mal colocada,  enfim… Enquanto eu “piro” na ópera completa, o Henrique “pira” nos pequenos detalhes, o que no fim é o mais importante. O dito popular: “o diabo reside nos detalhes” é um dos mais acertados que conheço. Uma peça fora do lugar, pode causar um grande desastre.
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gigante egoísta

O Gigante Egoísta

BC: Vocês foram os grandes vencedores da última edição do Prêmio Zilka Sallaberry pelo espetáculo “O Gigante Egoísta”. Qual a importância desse prêmio para o trabalho de vocês? É um reconhecimento ou um estímulo para próximos trabalhos?

GB: É sempre um reconhecimento, com certeza! E isso é muito bom! Mas não podemos ter o prêmio como meta para dar continuidade ao nosso trabalho.
É fato, no entanto, que ele ajuda a vender o espetáculo e a consolidar o currículo do grupo.
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BC: Depois de tantos espetáculos premiados e bem sucedidos, quais são seus próximos projetos no universo infantil?
GB: Agora, com tantos editais abertos e por abrir, temos que enfrentar o “vácuo” de criatividade e achar um outro projeto que nos encante e nos dê motivação para seguir em frente. Em 2015, completamos 20 anos de atividades e é claro que vamos celebrar de alguma forma.
Mas no momento ainda estou em busca de um tema, e tenho pouco tempo para encontrá-lo. Já estou com algumas ideias na cabeça, mas é preciso analisar se estrategicamente elas são boas para esse momento do grupo.
Trabalho, trabalho, trabalho. Isso é o que podemos esperar pela frente.


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